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“Mesmo quando estamos a escolher para preencher critérios de paridade, estamos a escolher os melhores”

Ex-deputada do PSD Mónica Ferro defende a aprovação da proposta de lei do Governo que pretende criar paridade homens/mulheres nas empresas. “Sempre afirmei publicamente que não sentia o meu mérito em nada beliscado, por exemplo, quando estive deputada e o estive porque havia uma política de paridade que se traduzia num patamar mínimo de representação para cada um dos géneros”

Cem personalidades e 50 organizações subscreveram uma carta aberta a pedir ao Parlamento a aprovação de quotas de paridade nas empresas. Mónica Ferro, ex-deputada do PSD especialista em questões internacionais e professora universitária, é uma das caras de direita que se destaca. Feminista, defensora da igualdade, garante que a paridade é uma questão de Direitos Humanos - não é nem de esquerda nem de direita.

Porque assinou a carta aberta em defesa da aprovação de quotas de paridade?
Estas iniciativas que vêm da sociedade civil e que interpelam o Governo e os partidos políticos no sentido de promover iniciativas legislativas em relação à paridade são sempre de apoiar quando concordamos com o conteúdo. Temos a ideia do exercício da política muito confinada aos partidos e isto é uma manifestação de política de um grupo de cidadãos e de cidadãs que se junta em torno de uma causa. Isso colhe logo a minha simpatia. E acredito, profundamente, que a paridade é um objetivo, um valor, que quer do ponto de vista dos Direitos Humanos, quer do ponto de vista económico, tem de ser impulsionado. Ainda é preciso mais medidas, mais debate sobre estas matérias.

Quais são as vantagens para as empresas?
Há estudos internacionais e boas práticas internacionais, por exemplo do Banco Mundial (BM), organização que não é suspeita de prática feministas (e digo isto com alguma ironia). O BM tem, desde os anos 90, relatórios em que demonstra que não só a desigualdade tem um custo efetivo como compensa investir na igualdade de género. Se nós olharmos para as nossas sociedades – em que verificamos que mais de metade dos diplomados são mulheres, já há uma maioria no que diz respeito a cursos pós-doutorados e nos doutoramentos também –, como é que nós nos podemos dar ao luxo, enquanto sociedade, de não aproveitar este potencial? A nível económico não faz sentido não usar este enorme polo de recurso que são as mulheres. Além de que as mulheres levam para dentro das organizações práticas de conciliação e de realização de multitarefas em simultâneo que se revelam para as organizações como potenciadoras de mais eficácia, de mais lucro. Há estudos que provam que em empresas onde há mulheres a transparência e o rigor da gestação financeira é maior. Não se trata apenas de aspirações ou de ensejos positivos, trata-se de práticas que estão sedimentadas, consolidadas.

marcos borga

Porque é que ainda é mais difícil para as mulheres chegarem a lugares de chefia?
Essa é sempre a questão. Partimos de uma base de recrutamento, por exemplo, que são os trabalhadores mais qualificados. Na sua maioria são mulheres que são os que têm mais diplomas universitários, mais formações. Ora, se essa base é maioritariamente feminina, o que é que acontece no caminho, durante o processo, para que nas carreiras de topo a maioria seja masculina? Há várias explicações, uma delas tem que ver com práticas culturais. Os homens, como estão no topo há mais tempo, culturalmente estão mais habituados a trabalhar com outros homens. Não sei se haverá aqui uma intenção deliberada de discriminação ou de perpetuar um modelo patriarcal. Mas a verdade é que os homens estão muito habituados a trabalhar com homens recrutam naturalmente mais homens para trabalhar consigo. Outra questão tem que ver com o próprio processo, com o facto de, dizem-nos os inquéritos de ocupação do tempo, as mulheres desempenharem mais tarefas em casa que os homens. No que diz respeito à conciliação, as mulheres dedicam mais tempo a tarefas como tomar conta da casa, dos filhos, de pessoas dependentes, do que os homens. E isso significa que as mulheres têm menos tempo disponível para poderem, por exemplo, frequentar formações extra, para participarem em reuniões e isto explica algumas ausências das mulheres nos cargos de topo, mas também na vida político-partidária. É o que se passa entre a base e o topo que explica. Lembro-me de uma frase que uma embaixadora usou numa conferência: ‘Em Portugal nunca há problema com a partilha do trabalho, com a partilha do poder a história já é outra’. E é isso que nós verificamos: por um lado, as estruturas patriarcais, por outro lado, toda a questão da dupla jornada e a conciliação da vida pessoal e profissional que agarra as mulheres mais ao fim da tabela da distribuição do poder. E permite aos homens escalar a escada corporativa mais depressa que as mulheres.

Ainda é difícil ser feminista?
Sim, por várias razões. Ainda no outro dia fui ler os resultados do World Economic Forum, que diz que nas tendências atuais vamos precisar de 82 anos para atingir a paridade... Acho que isto é impossível de acolher. É insustentável, significa que nem as minhas filhas vão viver num mundo de paridade. Isto devia dar logo um argumento às mulheres no sentido de que é preciso lutar politicamente, ser ativista nestas matérias. Embora não nos faltem os números, e o caminho traçado, continuamos a ter a ideia de que o feminismo ou é uma espécie de sinal invertido ou continuamos com a ideia de que ser feminista é algo irrelevante, que não há uma agenda por trás desta maneira de ver o mundo e de tentar corrigir estas discriminações. Lido muitas vezes com pessoas que acham que quando me afirmo feminista, das duas uma: ou sou uma perigosa radical que quer inverter a ordem social e substituir o patriarcado por um matriarcado (quando eu digo, por brincadeira, que o feminismo é só assumir que as mulheres são seres humanos e têm de estar em igualdade com os homens); e outros que consideram que é uma atitude irrelevante porque não traz mudança social positiva. Isto é muito difícil. Numa nota muito pessoal, não estava à espera que em pleno séc. XXI, em 2017, ainda fosse preciso convencer mulheres e homens de que o feminismo é uma agenda de igualdade e que beneficia ambos os sexos porque permite que partilhem direitos mas também deveres e obrigações. Ainda recentemente, na minha universidade, um Presidente da República de centro-direita [Marcelo Rebelo de Sousa] disse que é feminista - isso ajudou a normalizar. Mesmo assim, é uma mensagem que, apesar de estar mais normalizada, ainda não é possível que esta mensagem seja discutida com a tranquilidade e assertividade que ela merece.

marcos borga

As quotas podem retirar o mérito?
Mesmo quando estamos a escolher para preencher critérios de paridade impostos, estamos a escolher os melhores. Não precisamos de escolher as pessoas que não têm mérito. E sempre afirmei publicamente que não sentia o meu mérito em nada beliscado, por exemplo, quando estive deputada e o estive porque havia uma política de paridade que se traduzia num patamar mínimo de representação para cada um dos géneros. No debate parlamentar sobre a paridade, mais do que uma questão de fundo vai estar em debate uma questão de estilo. Ou seja, o PSD e o CDS na legislatura anterior, pela mão da secretária de Estado Teresa Morais, quebraram muita pedra nesta matéria. Os primeiros planos de igualdade entre as empresas foram lançados por esse Governo, a introdução do tema na concertação social foi lançado por esse Governo, houve várias resoluções do Conselho de Ministros que recomendavam que as empresas do Estado e participadas pelo Estado tivessem uma representação de massa critica mínima de 30% de mulheres nos conselhos de administração. O que prova que não é uma questão de esquerda. É uma questão de Direitos Humanos, de boa gestão da coisa pública, do país. É uma diferença de estilo, porque no fim da legislatura anterior o Governo do PSD e do CDS tinha negociado com as empresas cotadas em bolsa um compromisso de que elas teriam, até 2018, de introduzir voluntariamente uma maior representação de mulheres nos seus conselhos de administração, os 33% que são pedidos, o que este Governo está a fazer de forma legislativa. Mas é até mais conservador do que era o anterior, porque o que estava previsto era se até 2018 não o fizessem, então avançar-se-ia com uma lei de paridade. Na prática, deixa que as empresas cotadas em bolsa a partir de janeiro de 2018 façam 20% e só a partir de 2020 é que têm de ter os 33%. É uma questão de estilo: ou permitir que o façam de forma voluntária e só depois avançar com legislação ou avançar já com legislação, o que a mim não me choca, porque sempre defendi que estas matérias se devem defender com medidas legislativas. Dá-se mais dignidade, é uma matéria suficientemente importante para ser tratada pelos nossos representantes e ao mesmo tempo de provocar mudança social.

Sendo uma questão de Direitos Humanos, porque é que a igualdade é uma bandeira da esquerda?
Há uma questão quase fundacional, no sentido de estes temas terem sido trazidos para a agenda política por movimentos com grandes preocupações sociais. E esses movimentos foram sempre percebidos como estando unicamente ligados à esquerda. Estiveram ligados à esquerda, mas também ao centro e ao centro direita. Se nós olharmos para a Europa, por exemplo, que é o nosso lugar de pertença natural, podemos ver que o centro-direita teve sempre muitos instrumentos, quer legislativos quer de representação política, que foram exemplos disso. A primeira mulher presidente da Assembleia da República era do PSD, assim como a primeira presidente de um partido, a primeira vez que tivemos uma ministra das Finanças, a da administração interna, uma secretária de Estado da Defesa, pastas que são consideradas masculinas. Temos muitas provas que as questões do feminismo e da paridade não são de esquerda nem de direita. Tradicionalmente, a esquerda tem uma facilidade em trabalhar e comunicar estas matérias. Isso serve, muitas vezes com muita justiça, para que sintamos que a esquerda foi pioneira nessas matérias quando, na realidade, há uma grande distribuição das boas práticas por todos os partidos políticos.

“Não é tão fácil, muitas vezes, ser feminista e ser de direita, porque durante muito tempo passou a ser considerado que quem era feminista era de esquerda ”

“Não é tão fácil, muitas vezes, ser feminista e ser de direita, porque durante muito tempo passou a ser considerado que quem era feminista era de esquerda ”

marcos borga

Porque é que é possível ser feminista e de direita?
É possível ser feminista em qualquer quadrante político. A direita sendo, muitas vezes, considerada como uma área política que não gosta de grandes intervenções do Estado, prefere tê-lo fora da economia, fora das relações sociais, isso faz com que seja mais sensível à questão do mérito, da valorização pessoal e, nessas matérias, não há nenhum impedimento de que se seja feminista, pelo contrário. Não é tão fácil, muitas vezes, ser feminista e ser de direita, porque durante muito tempo passou a ser considerado que quem era feminista era de esquerda e isso não facilitou o trabalho a algumas feministas de direita, que eram muitas vezes mal percebidas e vistas como pouco alinhadas com o seu partido político. Mas claro que é possível, porque uma feminista é alguém que acredita na igualdade de oportunidades entre homens e mulheres.