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A bicada a Costa, o erro que Cavaco confessa e o que não faria a Sócrates

As peças do puzzle sobre a coabitação entre o ex-Presidente Cavaco Silva e José Sócrates começam a ser reveladas pelo livro “Quinta-Feira e Outros Dias”, já nas bancas. Se neste primeiro volume o ex-primeiro-ministro não é poupado, o atual também não

Luísa Meireles

Luísa Meireles

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Redatora Principal

ilustração tiago pereira santos

Se o primeiro-ministro António Costa pensava que neste livro ia ficar de fora e que o o alvo seria a coabitação de Cavaco Silva com José Sócrates, desengane-se. A obra de memórias que o ex-Presidente lançou esta quinta-feira termina, como numa boa telenovela, com a antecipação do que está para vir num segundo volume: a decisão de o atual líder do PS romper “com a tradição de 40 anos do seu partido” e fazer um entendimento com BE e PCP. “Essa é uma história que não faz parte deste volume”, remata, ao terminar o seu livro “Quinta-feira e outros dias”.

Ao longo da obra, são várias as “bicadas” que o ex-Presidente lança à política seguida pelo chefe do Executivo que foi obrigado a empossar, a contragosto, em novembro de 2015. Segundo escreve a respeito do resultado eleitoral de 4 de outubro de 2015, só teve consciência que o líder do PS já estava a trabalhar num entendimento de Governo com o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda “no fim do dia seguinte ao das eleições”. E cita, a propósito, a declaração na noite das eleições de António Costa, “no mínimo bastante habilidosa e equívoca”, de que o PS não iria contribuir para maiorias negativas não suscetíveis de gerar alternativas credíveis de Governo.

MARCOS BORGA

Para Cavaco Silva, durante esse período manteve deliberadamente o seu programa, nomeadamente a realização de duas jornadas do Roteiro para uma Economia Dinâmica, embora tenha passado a ser “mais contido” quanto às perspetivas da economia portuguesa nos seus contactos com os empresários.

“Deliberadamente, decidi não mencionar as grandes preocupações que, em relação à hipótese de um Governo do PS apoiado pela extrema-esquerda, me tinham sido transmitidas pelas confederações patronais, pela UGT, pelos presidentes dos maiores bancos e por economistas que ouvira a propósito da formação do novo Governo”, escreve o ex-Presidente a terminar o seu livro de 600 páginas.

Elogio ao contrário

Antes disso, porém, o tema do entendimento à esquerda do PS é aflorado várias vezes e até num sentido elogioso para José Sócrates, alvo principal deste livro. Apesar das profundas discordâncias políticas e pessoais que o ex-Presidente assume ter tido em relação ao homem com quem conviveu durante cinco anos, reconhece que “ele nunca se deixou capturar pelo PCP ou pelo BE”. “Sempre o vi bem consciente de que o caminho defendido por esses partidos seria desastroso para Portugal e para os portugueses”, reitera, a páginas tantas.

RUI OCHOA

Cavaco Silva mostra manter hoje a mesma opinião que tinha nas vésperas da tomada de posse do atual governo. Para ele, aqueles partidos querem implementar um “modelo leninista” que “só tem gerado miséria e totalitarismo”.

O seu veredicto é, aliás, arrasador. E transcreva-se: “A experiência mostra que se o primeiro-ministro [Sócrates] tivesse ido por aí, a herança deixada pelos governos a que presidiu teria sido muito pior. Se o PCP e o BE tivessem tido influência nas decisões, promovendo a estatização da sociedade, a correção dos desequilíbrios económicos e financeiro teria sido igualmente inevitável, mas muito mais penosa”.

E conclui: “A verdade é que não existe na Europa, nem tão pouco no mundo, qualquer país que seja desenvolvido e que registe um caminho de sucesso tendo partidos da extrema-esquerda a determinar a condição da política económica”.

2009: Cavaco confessa o erro...

Noutro passo, a propósito da formação do Governo subsequente às eleições de 2009, Cavaco revela que avisou Sócrates que, devido à vitória sem minoria do PS, seria útil negociar um acordo de incidência parlamentar com o PSD e o CDS, ideia que mereceu a concordância do então primeiro-ministro indigitado, que lhe disse que “iria negociar com o PSD de peito aberto”.

tiago miranda

No final dessa mesma reunião, escreve Cavaco Silva, Sócrates manifestou-se muito satisfeito, tendo-lhe mesmo comunicado que ia abrir uma exceção e falar aos jornalistas, dizendo-lhe que tinha tido uma boa conversa com o Presidente da República.

“Foi um erro que cometi”, confessa o ex-Presidente, tendo em mente o que se passaria seis anos mais tarde. “Deveria ter sido eu a comunicar aos portugueses que tinha autorizado o líder do PS a desenvolver diligências informais para a formação de um Governo estável e coerente e estabelecer uma linha divisória que, na tradição do PS desde 1974, excluísse um Executivo apoiado pelo PCP e pelo BE.”

...e não teria demitido Sócrates em 2011

TIAGO MIRANDA

Outra revelação surpreendente do livro de Cavaco Silva é a de que, apesar de tudo o que Sócrates fizera, provavelmente não o teria demitido se ele não o tivesse feito, porque considera que um Presidente não pode demitir um PM por perda de confiança ou discordância política.

“É por isso muito provável que, se o primeiro-ministro não tivesse apresentado a demissão, eu não tivesse dissolvido a Assembleia da República naquele momento”, escreve, assinalando que era à Assembleia da República que competiria aprovar uma moção de censura se entendesse que o Governo devia ser demitido.

E acrescenta: “É provável que esperasse para ver como enfrentaria o Governo a grave situação em que o país se encontrava e como iriam reagir os partidos da oposição após rejeitarem o PEC 4”.

O ex-Presidente adianta depois: “É provável que, só no caso de completa inércia do Parlamento, fugindo os deputados às suas responsabilidades, ou de agravamento acelerado da situação financeira do país, revelando o Governo incapacidade de a controlar, viesse a concluir que o Executivo já não reunia as condições para se manter em funções e tomasse a iniciativa de dissolver a Assembleia da República”.