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Sócrates e Cavaco: da lua de mel à lua de fel

Sócrates e Cavaco quando ainda havia trocas mútuas de elogios

ANA BAIÃO

Cavaco começou rendido ao “reformismo” de José Sócrates (para grande ira do PSD). E acabou a pedir “um sobressalto cívico” contra “a década perdida”. “Nunca vi um Presidente terminar tão só”, vingou-se o ex-PM. O Expresso Diário revisita o gráfico de uma relação sempre a cair na véspera do lançamento do livro de Cavaco sobre a sua coabitação com Sócrates

Os que criticam Marcelo Rebelo de Sousa acusando-o de andar com o Governo socialista ao colo vão relativizar tal facto se revisitarem o que foi a lua de mel entre Cavaco Silva e José Sócrates. Três meses depois de ter tomado posse, em março de 2006, Cavaco Silva aproveitava o seu primeiro Roteiro da Ciência para deixar um rasgadíssimo elogio àquela que era a principal bandeira do Governo socialista à época: “Portugal tem vindo a fazer a aposta correta. É o choque tecnológico”. O Presidente da República foi mais longe e classificou, pouco tempo depois de chegar a Belém, o Executivo socrático de “reformista”, um dos maiores elogios que se pode fazer a um Governo. As campainhas não tardaram a soar no PSD.

Em julho de 2006, levava o Presidente quatro meses de vida quando o Povo Livre, jornal oficial dos sociais-democratas, escreveu um editorial intitulado “Cavaco e Sócrates pedalam para o mesmo lado”. Cavaco Silva era acusado de ter “uma atitude complacente com o Governo” e questionava-se: “Será que é a posição que um PR deve assumir?”

Luís Marques Mendes, à época líder do PSD, soava as estopinhas para se afirmar neste quadro que Marcelo Rebelo de Sousa, então comentador na RTP, havia de classificar como “de apoio do PR à governação de Sócrates”. Confrontado com a pergunta de Maria Flor Pedroso, a jornalista que na altura acompanhava “As escolhas de Marcelo”, “Cavaco está a validar as políticas do Governo?”, o professor respondeu o que toda a gente via: “Claramente. Na economia, nas finanças, na justiça. Na segurança social, queria um acordo com o PSD, não houve acordo e Cavaco deixou de falar nisso. É evidente que isto cria problemas para a oposição”.

joão carlos santos

A mania do TGV

Há uma matéria em que Cavaco Silva sempre se manteve renitente (e que, três anos depois, haveria de ser uma bandeira da sua amiga Manuela Ferreira Leite nas legislativas que disputou com José Sócrates), a saber, as grandes obras públicas. O Presidente mostrou muito cedo ter reservas à opção do Executivo socialista, que queria avançar com o TGV. Mas no primeiro ano do seu primeiro mandato foi globalmente cooperante com o Governo, a quem elogiou as reformas e com quem chegou a dizer estar a viver uma “cooperação silenciosa”.

Ao fim de um ano, as coisas começaram a mudar. Na mensagem de Ano Novo de 2007, o PR marca distância e começa a fazer exigências: “É muito importante que em 2007 se registem progressos claros em pelo menos três grandes domínios: desenvolvimento económico, educação e justiça”. Os portugueses “exigem realizações concretas e o PR acompanha-os nessa exigência de resultados”. Cavaco começava a distanciar-se do estilo do primeiro-ministro e pede pés na terra. Mas a parceria ainda é altamente funcional.

Em outubro, são rasgados os elogios presidenciais ao Governo pelo “resultado histórico” da presidência portuguesa da União Europeia. E em novembro de 2007, numa visita ao Chile, o Presidente elogia as “reformas profundas” do Governo de Lisboa.

Só no arranque do 2º ano do mandato, em janeiro de 2008, Cavaco Silva dá mais um passo nos avisos a Sócrates: o desemprego “é preocupante”, há que acautelar os mais desfavorecidos, é preciso travar a confiança excessiva,“e encarar as críticas como um estímulo” (Sócrates odiava críticas).

FOTO RAFAEL MARCHANTE / REUTERS

Do Estatuto dos Açores às escutas

Mas é no verão de 2008 que Cavaco se mostra pela primeira vez profundamente desagradado com o Governo quando, em pleno agosto, interrompe as férias dos portugueses para fazer uma declaração ao país sobre o estatuto dos Açores. O Presidente era contra restrições dos poderes dos órgãos de soberania, tinha avisado José Sócrates, mas o PS/Açores, liderado à época por Carlos César, foi mais forte e o decreto seguiu como Cavaco não queria. A teimosia do PM deixou marcas, o PR vetou o diploma, mas continuou a cooperar no essencial. No final do ano, quando a direita - PSD e CDS - já antevia Portugal próximo da recessão, Cavaco Silva era ainda cauteloso: “Os números (do INE) não são muito positivos mas não são surpreendentes”. O PR ainda evitava antever o pior.

A viragem acontece no ano de 2009. Manuela Ferreira Leite, velha amiga do Presidente, liderava o PSD e preparava-se para defrontar José Sócrates com uma agenda de ataque frontal à política de obras públicas do Governo socialista e Cavaco coincide neste ponto: há muito que tentava travar o TGV e congratula-se quando Sócrates adia uma decisão. O clima de suspeição entre os dois lados da barricada agrava-se e no verão, a um mês da campanha eleitoral das legislativas começar, rebenta uma bomba: o jornal “Público” noticia que a Casa Civil das Presidência está sob escuta e o Presidente não desmente.

“Disparates de verão”, contra-ataca José Sócrates. Cavaco diz que não comenta “para não desviar as atenções dos problemas”. O seu foco estava cada vez mais nos “problemas” e o PS explora as ligações entre Cavaco e Ferreira Leite, que inundou o país com um cartaz a pedir “Verdade” sobre o estado da pátria.

reuters

Com o caso das escutas a inundar a campanha eleitoral, o Presidente da República adia uma comunicação sobre o assunto para depois das eleições e do lado socialista Manuel Alegre e Mário Soares entram em cena para ajudar Sócrates, que ganha as eleições. Mas o tiro do Presidente sobre o caso das escutas seguia dentro de momentos.

Cavaco Silva fala ao país e declara guerra ao Governo antes de nomear o primeiro-ministro reeleito. Diz-se vítima de “graves manipulações”, confirma que no seu sistema de email “existem vulnerabilidades” e acusa o PS de estar na origem de tudo com a tentativa de “puxar o Presidente para a luta política-partidária, encostando-o ao PSD”. Cavaco ainda afasta o assessor de Belém, que o DN entretanto revelou ter sido a fonte do “Público”. E os politólogos tentam adivinhar o futuro: o relacionamento Cavaco/Sócrates será difícil mas possível.

O sobressalto cívico

Nas sondagens, Cavaco é o grande perdedor: em outubro, um mês após as legislativas ganhas por Sócrates, o Presidente tem pela primeira vez avaliação negativa (9,6), uma coisa histórica. E a sua prioridade passa a ser trabalhar para a reeleição nas presidenciais de 2011.

Não foi difícil: o PS dividiu-se entre Soares e Manuel Alegre e Cavaco Silva ganhou. Mas nada serviu para desanuviar o clima entre PR e Governo. O discurso de posse de Cavaco foi um discurso de rutura com o estilo de governação socialista quando Portugal estava já à beira de uma séria crise financeira. “Não podemos correr o risco de prosseguir políticas públicas baseadas no instinto ou no mero voluntarismo. Não podemos privilegiar investimentos que não temos condições para financiar. É preciso um sobressalto cívico que faça despertar os cidadãos”, afirmou o PR.

RAFAEL MARCHANTE / REUTERS

Cavaco Silva assumia assim a oposição frontal ao estilo de governação socrático. O primeiro-ministro foi ao Parlamento e ainda contra-atacou: “Um Presidente é tão mais forte quanto mais isento for”. Mas o clima de rutura entre ambos é quase total e em abril, quando depois de muito resistir, José Sócrates avança, forçado pelo seu ministro das Finanças, com o pedido de ajuda externa do país já à beira da bancarrota, Cavaco nem sequer é informado sobre o pacote de medidas de austeridade negociadas por Teixeira dos Santos. Coisa rara num assunto de tamanha relevância.

Apesar de nunca mais recuperar nas sondagens, Cavaco Silva conseguiu deixar a sua família política no Governo. Mas a vingança de José Sócrates acabaria por chegar. Em 2015, já ex-primeiro-ministro e a aguardar a acusação no processo em que é arguido e que o levou à prisão, Sócrates não perdoou: “Nunca vi um Presidente terminar tão só”.