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“Inventona” das escutas provocou a “reunião mais difícil” de Cavaco com Sócrates

Nuno Fox

Antigo Presidente da República revela no seu novo livro que o caso espoletado nas vésperas das legislativas de 2009 levou o diálogo “a azedar” durante uma reunião com Sócrates. “Quando se exaltou ao ponto de subir o tom de voz, interrompi-o e chamei-o à ordem”

A informação fazia capa do "Público" a 18 de agosto de 2009. "Presidência suspeita estar a ser vigiada pelo Governo". Estávamos a pouco mais de um mês das eleições legislativas e o tema acabaria por tornar-se incontornável em toda a campanha. Mas para Cavaco, numa primeira fase - e em gozo de férias no Algarve - o primeiro contacto com a notícia não lhe fixou a atenção.

"Bastava ler o texto para perceber que se tratava de um título absurdo, reflexo do gosto de alguns jornalistas pela intriga e pela criação de factos políticos, uma historieta de verão para atrair leitores. Em três anos e meio de mandato, nunca tinha ouvido falar em suspeitas de a Presidência estar a ser vigiada por quem quer que fosse", recorda Cavaco no livro "Quinta-feira e outros dias", hoje publicado.

Na base da história do "Público" estavam suspeitas alimentadas por dirigentes socialistas sobre o envolvimento de elementos da Casa Civil na elaboração do programa do PSD. Na resposta aos jornalistas, o assessor de imprensa em Belém, Fernando Lima, acabaria por dar a respostra que sustentou a tese avançada pelo "Público". "Como é que os dirigentes do PS sabem o que fazem ou não fazem os assessores do Presidente. Será que estão a ser vigiados?".

Para Cavaco Silva, foi "uma resposta banal para 'despachar' jornalista" e à qual "só uma ânsia desmedida por fabricar um facto político" poderia levar ao título do "Público". Mas Cavaco reconhece agora que esse foi o gatilho para "uma intriga política insidiosa, criada e alimentada por sectores do PS com a participação ativa de alguns órgãos de comunicação social", com o objetivo, segundo Cavaco, de o envolver na campanha eleitoral das legislativas que se realizavam em finais de Setembro.

"Primeiro, tinha sido a alegada participação de assessores do Presidente na elaboração do programa eleitoral do PSD. depois a "inventona" das escutas do Palácio de Belém por parte do Governo. Por outro lado, tinha-se tornado claro que o aparelho de propaganda do PS atuava em conluio com certa imprensa", escreve o antigo Presidente da República, recordando que a exposição de que acabou por ser alvo o seu assessor Fernando Lima "a propósito da 'inventona' das escutas do palácio de Belém, para além de pessoalmente incómoda para o próprio, tornou-se um problema para o exercício das suas funções". Por isso considerou "aconselhável proceder a uma alteração no elenco da Casa Civil, não prescindindo, no entanto, da colaboração daquele assessor".

Esgotado o período de férias, e com o tema das escutas a alimentar parte significativa da campanha eleitoral, Cavaco tem a pimeira reunião com Sócrates a 16 de setembro. E não correu bem.

"Esta foi, sem dúvida, a reunião mais difícil que tive com o PM José Sócrates. O diálogo chegou a azedar e quando se exaltou ao ponto de subir o tom de voz, interrompi-o e chamei-o à ordem, dizendo-lhe que não estava a falar com membros do seu gabinete ou do seu Governo, mas sim com o Presidente da República e que, se não era capaz de manter a compostura, o melhor era dar por finda a audiência", resume Cavaco, recordando que "o primeiro-ministro tentou argumentar que não tinha nada a ver com as declarações de dirigentes socialistas". "Mas pela cara que lhe fiz, deve ter percebido que a minha ingenuidade não ia a esse ponto".

Depois da reunião, Cavaco Silva lembra que se manteve em silêncio até às eleições. Mas tinha já tomado a decisão de fazer uma declaração ao país depois das legislativas, "uma vez que alguns sectores do PS e certa comunicação social haviam claramente ultrapassado os limites do tolerável e da decência na intriga política que desenvolveram".

"Fi-lo em 29 de setembro, dois dias após as eleições, repondo a verdade e partilhando com os portugueses, em público, a minha interpretação, sem que alguma vez a ela eu me tivesse referido, direta ou indiretamente. Sobre algo que não existiu em termos factuais, agentes políticos, comentadores e analistas produziram - o que não deixa de ser curioso - dezenas e dezenas de declarações".

No livro, Cavaco não lembra, porém, que nessa declaração ao país admitiu ter procurado saber junto de "várias entidades com responsabilidades na área da segurança" se havia problemas em Belém. "Fiquei a saber que existem vulnerabilidades e pedi que se estudasse a forma de as reduzir", declarou ao país na altura.

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