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Cavaco admitiu que Sócrates quisesse controlar a TVI

António Pedro Ferreira

No seu livro de memórias, Cavaco Silva dedica um capítulo a José Sócrates e à comunicação social. E assume ter admitido que o então PM pensasse “em formas de aumentar a sua influência” sobre os media, numa referência indireta ao alegado plano de controlo da TVI, do “DN” e do “JN”

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

É um capítulo que descreve as queixas (sucessivas) do então primeiro-ministro sobre a comunicação social, nas suas audiências semanais com o Presidente da República, sobretudo a partir de abril de 2007, quando José Sócrates se vê confrontado pelos jornais com dúvidas sobre a sua licenciatura pela Universidade Independente.

No livro "Quinta-feira e outros dias", que é lançado esta quinta-feira, Cavaco Silva confessa que não o surpreenderam "as dificuldades de relacionamento [de Sócrates] com os media", na medida em que, nessa área, "a sua atitude era diametralmente oposta à minha": enquanto ele, Cavaco, cultivava o distanciamento dos jornalistas, Sócrates "contactava-os diretamente e procurava influenciá-los".

O ex-Presidente assume que, "em geral", manifestou "alguma compreensão": "Disse-lhe que compreendia a sua indignação (...) quando era PM também tinha sido vitima de campanhas orquestradas na comunicação social". E admite que, mais ou menos a meio do primeiro mandato de Sócrates, ele próprio se deu conta de "uma viragem na comunicação social: o Governo, que antes era louvado, passou a ser abertamente atacado".

São várias as referências à "fúria e antipatia" de Sócrates em relação à comunicação social. O PM dizia-se "alvo de ataques". O PR tentava "acalmá-lo", recordava-lhe a necessidade de "serenidade" na resolução dos verdadeiros problemas do país.

Em fevereiro de 2010, perante a divulgação de escutas telefónicas no âmbito do processo Face Oculta que davam a entender que existia um plano de controlo da TVI, do "Diário de Notícias" e do "Jornal de Notícias") por parte do primeiro-ministro, Cavaco conta que Sócrates lhe negou a existência de qualquer plano "e condenou veementemente" a divulgação das escutas.

"Tratou-se de uma reunião em que o PM, apesar dos seus esforços de contenção, não conseguiu deixar de manifestar a sua ira em relação a certos jornais, o que já tinha, aliás, acontecido noutras ocasiões".

O que levou Cavaco a deduzir que talvez não fosse assim tão descabida a hipótese de Sócrates querer controlar alguns: "Foi por esse motivo – e pelas informações que me chegavam de que o PM protestava violentamente junto dos jornalistas que sobre ele publicavam notícias negativas – que não descartei a possibilidade de ele pensar em formas de aumentar a sua influência sobre os meios de comunicação social".

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