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Trump, um ensaio (de porrada)

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As batalhas do feminismo e a emancipação das mulheres no mercado de trabalho, do casamento e do pensamento afinal não liquidaram “Eu, Donald J. Trump”. No último dos cinco ensaios sobre Donald Trump e a sua presidência que estamos a publicar esta semana, Clara Ferreira Alves partilha o conhecimento sobre o Presidente que “só o género autoriza” e analisa “aquele” olhar de “Eu, Donald J. Trump” para as mulheres

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

Depois dos meus colegas homens terem escrito sobre Trump, cabe-me, enquanto mulher, partilhar o conhecimento que só o género autoriza. Mulher. Algumas mulheres gostam de Trump. Il faut de tout pour faire um monde. Muitas, mesmo muitas mulheres, não gostam de Trump. Ou, como ele diz, “Eu, Donald J. Trump”. Este “Eu, Donald J. Trump” conhecemo-lo cedo. Assim que saímos da infância e entrámos na adolescência foi-nos apresentado.

Talvez tenha sido o pai ou o tio de uma amiga da escola. Quando nos via entrar espalmava a mão na própria perna com vigor e apresentava-se, eu sou o pai, ou o tio, rolando um olho lúbrico. Um olhar de peixe morto numa face escarlate. Não era um olhar paternal. Este tipo de pai é o que se gaba de ter uma filha boa e com um bom rabo. Ou, como disse Eu, Donald J. Trump sobre a filha Ivanka, a piece of ass. Se não fosse minha filha andava com ela…. Eheheh. A mais engraçada das meninas recebia atenção e a pungência de um interesse, então como vão as notas, o que quer ser quando crescer, etc., enquanto o avaliador ignorava as outras. American Beauty.

A América tinha de ter feito um filme sobre isto, é um clássico.

Trump com a filha Ivanka

Trump com a filha Ivanka

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Talvez tenha sido um professor, ou um explicador de uma disciplina dura, que subitamente confessava a disponibilidade para explicações suplementares e passava a mão ao de leve sobre a mão da lolita para corrigir a equação. Muitos destes professores nutriam uma versão pecaminosa de puppy love, amor de cachorrinho. Proibido na mesma pelos códigos penais. A relação de poder era dominante mas a menina sentia sempre que a culpa era sua, especialmente quando a atração era mútua (acontece), sentimento que a acompanharia ao longo da vida. O que é que eu terei feito de mal? Decerto fiz alguma coisa. Outro clássico, a culpa das lolitas.

Talvez tenha sido um patrão ou um colega de trabalho. Com o correr dos anos, a menina foi cedendo o lugar à mulher e o caso não mudou de figura. A jovem mulher à procura de emprego sabia que para o Eu, Donald J. Trump, havia uma diferença entre a mulher feia e a mulher bonita e que muitos homens (não todos, nem sequer a maioria, felizmente) não a deixariam esquecer o imenso pormenor. A mulher bonita teria de demonstrar dez vezes mais que a mulher feia a sua competência e inteligência porque aquele olhar, Eu, Donald J. Trump, aquele olhar dizia mais ou menos isto, pela minha parte estou amplamente servido, vou ser meigo, o lugar é seu desde que não me apareça grávida. As palavras eram outras, eram as da condescendência. “Sabe que há muitas candidatas ao posto, mas gosto do seu estilo e da sua frontalidade. Vou dar-lhe uma hipótese.” A mulher feia entrava para trabalhar. A bonita para ser trabalhada.

Trump e a mulher, Melania

Trump e a mulher, Melania

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A tal hipótese era dada com um sorriso magnânimo denunciado no olhar predador. É um olhar de viés, de frente ou pelas traseiras das mulheres bonitas. Um olhar que começa no meio do corpo, sede da frontalidade, e desce pelas pernas antes de subir à testa ou à nuca. Mais tarde, numa tertúlia de machos, a misoginia seria trocada em miúdos. “Tem um bom corpo mas uma cara (tromba, para os mais expeditos) de meter medo. Só com um saco na cabeça… Eheheh.” Nestas tertúlias de tipos do tipo Eu, Donald J. Trump (não todos os homens, nem sequer a maioria, felizmente) a equivalência de uma mulher profissional a um coiro era uma sentença salarial.

A doutrina politicamente correta (tem os seus usos), as batalhas do feminismo e a emancipação das mulheres no mercado de trabalho, do casamento e do pensamento, e não apenas no da carne a peso, a reforma compulsiva do machismo, pareciam ter liquidado Eu, Donald J. Trump. Não liquidaram

A mulher casada não escapava. Pelo contrário, atiçava o Eu, Donald J Trump, ele mesmo casado e coberto por esse manto de respeitabilidade. Aqui entra a imortal e presidencial frase, I grab them by the pussy. E alguns faziam mesmo isso, grabbed them by the pussy. E alguns pensavam, como este Eu, Donald J. Trump pensa, quando se é rico e famoso pode fazer-se tudo porque elas gostam. O problema é este. Não gostam. Eu, Donald J. Trump nunca percebeu isso, e acabou a tentar seduzir a presa casada, a do vídeo do Hollywood Access que custou a cabeça de um dos membros inferiores da família Bush, numa loja de mobiliário. Foi recusado. Eheheh.

A evolução da educação e dos costumes parecia ter neutralizado Eu, Donald J. Trump, negociante de misses e concursos de beleza. Feiras de gado com chique. A doutrina politicamente correta (tem os seus usos), as batalhas do feminismo e a emancipação das mulheres no mercado de trabalho, do casamento e do pensamento, e não apenas no da carne a peso, a reforma compulsiva do machismo, pareciam ter liquidado Eu, Donald J. Trump. Não liquidaram. Ficámos agora a saber.

Já não precisamos de um irmão mais velho, mais alto e mais forte, a quem contamos a história a chorar e que, enervado, promete a Eu, Donald J. Trump um ensaio (de porrada). Somos capazes de lhe dar o ensaio (de porrada) nós mesmas. Eheheh. Mas não na Rússia. O amigo de Eu, Donald J. Trump, o garanhão Putin, acaba de legalizar a porrada nas mulheres.

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Vimo-lo atacar a candidata republicana Carly Fiorina por causa da sua tromba, um coiro não pode chegar à Casa Branca disse ele, e vimo-lo alçar a sombra dominante sobre Hillary Clinton, nas costas dela, fungando como um garanhão enfastiado. Hillary não podia ser despedida por ser um coiro, demasiado inteligente e poderosa por isso, e casada com um homem muito poderoso. Foi despedida por ser nasty. Nasty woman. Porque as mulheres que detestam tipos como Eu, Donald J. Trump, são sempre muito desagradáveis na opulência do seu desprezo pelas criaturas.

A novidade é que já não precisamos de um irmão mais velho, mais alto e mais forte, a quem contamos a história a chorar e que, enervado, promete a Eu, Donald J. Trump um ensaio (de porrada). Somos capazes de lhe dar o ensaio (de porrada) nós mesmas. Eheheh. Mas não na Rússia. O amigo de Eu, Donald J. Trump, o garanhão Putin, acaba de legalizar a porrada nas mulheres.

  • O espetáculo Trump segue dentro de momentos

    Ao final de 21 dias, Trump continua a ‘abalar o mundo livre’ (já vamos explicar) e a avançar com controversas promessas de campanha. A ordem que proíbe a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos continua suspensa sob a ordem de três juízes federais e contra a vontade do Presidente. O caso deverá seguir para o Supremo. Não é a única guerra que a administração já comprou mas é, para já, a mais bicuda. Os democratas e as grandes empresas já estão a olear as armas e a resistência está a ficar criativa

  • A ditadura do burburinho (ensaio de Daniel Oliveira)

    O confronto não pode ser entre a América “sofisticada” e a América “tacanha”. E não se pode centrar no burburinho que Trump vai criando. Ele alimenta-se do ressentimento dos desprezados e da espuma dos dias. Muitas coisas que chocam em Trump só são relevantes para os que o recusam, que continuam a falar para si mesmos, cavando um pouco mais o fosso que serve o Presidente. É na frustração da América abandonada, que ele prometeu ajudar e que obviamente trairá, que está a resposta a Trump. Daniel Oliveira assina o quarto dos cinco ensaios que estamos a publicar esta semana sobre o Presidente dos Estados Unidos. O último será assinado por Clara Ferreira Alves

  • Trump, Dilma e a desgraça dos impeachments (ensaio de Ricardo Costa)

    O sistema foi capturado por um populista perigoso, mas fê-lo pelo voto popular. Que saia pela mesma porta e pela mesma mão é a única coisa que me parece desejável. Tudo o resto serão processos mais perigosos que o próprio Trump, escreve Ricardo Costa no ensaio sobre o Presidente dos Estados Unidos. No Expresso Diário desta sexta-feira escreve Clara Ferreira Alves

  • Lamento ver gente à direita achar que tudo isto é normal (ensaio de Pedro Mexia)

    Trump é um populista que fala para os descamisados da globalização, mas isso tanto define um Trump como uma Le Pen, que é de direita, um Iglesias, que é de esquerda, ou um Grillo, que não é de esquerda nem de direita. Mas Trump é incomparável, escreve Pedro Mexia no segundo dos cinco ensaios que estamos a publicar esta semana sobre o Presidente dos Estados Unidos. Nos próximos dias escrevem Ricardo Costa, Daniel Oliveira e Clara Ferreira Alves

  • A ignorância eurocêntrica sobre Trump (ensaio de Henrique Raposo)

    Trump não é conservador, republicano ou federalista, é um “confederado” sulista à imagem do fundador do Partido Democrata, escreve Henrique Raposo no primeiro de cinco ensaios sobre o Presidente do EUA que vamos publicar nos próximos dias. Os ensaios seguintes são assinados por Pedro Mexia, Ricardo Costa, Daniel Oliveira e Clara Ferreira Alves