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PR teme subida dos juros mas conta com Draghi

Marcelo admite que juros altos vieram para ficar e pede ao Governo de António Costa que façam “mais e melhor”

Marcelo Rebelo de Sousa está preocupado com a evolução dos juros da dívida e a melhor prova disso é que, na última semana, quer fosse à entrada de encontros com sem-abrigo quer fosse à saída de uma visita à Casa Pia de Lisboa, todos os momentos e locais foram oportunos para o Presidente da República abordar o assunto, sempre para desdramatizar a situação do país face aos mercados.

Vista de Belém, a evolução dos juros da dívida portuguesa não tenderá a melhorar — “os juros a 10 anos dificilmente descerão abaixo dos 3,5%, mas também nunca subirão acima dos 4,5, 5%”, anteciparam ao Expresso. E Marcelo “não precisa de falar com Mario Draghi para perceber como é que eles estão a ler a situação”. Ao que o Expresso apurou, o Presidente confia que o Banco Central Europeu nunca vai ajudar muito, mas também não vai deixar que o país entre em descontrolo.

“Se os juros se aproximarem dos 5%, eles intervirão”, é a convicção do Presidente da República partilhada pelo primeiro-ministro. Fontes portuguesas em Bruxelas concordam: “As regras do BCE mudaram e estão hoje mais apertadas, mas continua a haver uma grande flexibilidade. E como neste momento ninguém quer chatices, as regras vão-se dobrando”. O facto de o atual programa de compra de dívida pelo BCE terminar no final do ano também não é relevado — “o BCE é sempre flexível e o programa pode voltar a ser prorrogado”, afirmam fontes oficiais. A convicção nos bastidores do Governo, Presidência e mesmo em Bruxelas é que até às eleições alemãs de outubro (decisivas para se perceber o que vai ser a Europa e, depois, o que se faz à dívida), nada se precipitará. Cá dentro, as previsões do líder do PSD de que o Diabo pode vir aí continuarão precipitadas.

“Não há razões para alarme”, afirmou o Presidente da República quando Portugal pagou juros de 4,227% numa emissão a 10 anos. Na altura, Marcelo assumiu estar “a acompanhar a situação” e explicou o seu otimismo com o facto de a inflação, que há um ano era de 0%, estar agora entre 06% e 1%. “Regra geral, afirmou o Presidente, quando a inflação aumenta os investidores tendem a exigir retornos mais elevados para investirem”. O que Marcelo não referiu foi o facto de outros países que viveram crises — Espanha, Irlanda ou mesmo a Grécia — terem, apesar da inflação, os seus juros a descer, enquanto Portugal viu, como Marques Mendes ilustrou no seu último comentário na SIC, os juros da sua dívida de longo prazo crescer 43% no último ano.

As razões para o Presidente “dourar a pílula” são explicadas por fonte próxima: “O PR está a fazer o que qualquer Presidente da República tem de fazer: se vê riscos de a casa arder não vai atear o fogo”. Se o país continua frágil, se a consolidação do sistema financeiro precisa de meses para se afirmar, o crescimento da economia permanece frouxo e a maioria que governa o país depende de equilíbrios instáveis, o que Marcelo Rebelo de Sousa está a fazer é a “segurar as pontas” e a passar a mensagem certa para os investidores, enquanto espicaça o Governo para que faça “mais e melhor” (é este o seu novo slogan) o que, no imediato, significa medidas de apoio ao crescimento.

“O Governo inscreveu no orçamento para este ano um crescimento de 1,6, mas há hipóteses de se ficar em 1,7 ou 1,8”, antecipam em Belém. A confirmar-se, a dívida calculada em percentagem do PIB começa a descer. E se o nervosismo dos mercados se deve em grande parte à incerteza de fatores externos como as eleições em França e na Alemanha, a convicção do PR é que Espanha e Irlanda veem os seus juros a descer porque “o problema dos mercados é o crescimento”. Quando pede a Costa “mais e melhor”, Marcelo está a pensar que há meses pede ao Executivo: “É preciso crescer”.

Se o crescimento reanimar — e os últimos números antecipam uma melhoria da economia europeia, com destaque para Alemanha e Espanha com quem Portugal mantém as principais trocas comerciais — a situação melhora. Marcelo, que um dia chamou a Costa um “otimista irritante” e que já é tratado no PSD como “otimista irritante II”, até veio dizer esta semana que “a trajetória (do Governo) está certa, falta fazer mais e melhor”. É o tudo por tudo para o PR evitar ter de gerir uma crise.

Remodelação 
para acautelar os mercados

Em sintonia, António Costa traduziu a sua preocupação com a frente externa, nomeadamente com o rating e os juros da dívida, com uma minirremodelação nas Finanças que teve como objetivo reforçar os poderes de Mourinho Félix, o braço-direito do ministro, e libertá-lo para se dedicar às duas grandes prioridades desta pasta: a dívida pública e a estabilização do sistema financeiro.

O próprio comunicado das Finanças assume isso: “É essencial completar a estabilização do sistema financeiro, intensificar o trabalho com os participantes nos mercados e agências de notificação” e “com a Comissão Europeia”. Para a pasta do Tesouro foi nomeado um novo secretário de Estado, Álvaro Novo, que assim (e num momento em que as Finanças estão mais arrumadas) liberta Mourinho Félix para as questões que mais angustiam o chefe do Governo.