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Trump, Dilma e a desgraça dos impeachments (ensaio de Ricardo Costa)

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O sistema foi capturado por um populista perigoso, mas fê-lo pelo voto popular. Que saia pela mesma porta e pela mesma mão é a única coisa que me parece desejável. Tudo o resto serão processos mais perigosos que o próprio Trump, escreve Ricardo Costa no ensaio sobre o Presidente dos Estados Unidos. No Expresso Diário desta sexta-feira escreve Clara Ferreira Alves

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Primeiro foi a ideia de que, depois de chegar à Casa Branca, Donald Trump ficaria outro. Depois, a aposta (ou o desejo) de que o sistema conseguiria normalizar ou neutralizar o novo Presidente. Agora, a nova moda é a de que Trump será alvo de um impeachment. As duas primeiras ideias já morreram, a última espero que morra depressa.

Não digo isto por gostar de ver Trump durante quatro anos na Casa Branca, mas porque depois de ser eleito deve mesmo lá ficar até ao fim. Uma saída por via judicial ou aparentada seria o fim do mundo: Trump não acredita no sistema, não o leva a sério, ganhou por fazer troça dele e tem milhões de seguidores que pensam o mesmo. Uma saída por via de um impeachment seria uma tragédia para a América, uma ferida aberta entre legalistas e hordas antissistema, entre os que defendem a Constituição e os adeptos das teorias da conspiração, entre duas ou mais Américas. Seria o caminho para uma guerra civil (metafórica, espero) de que o sistema dificilmente recuperaria.

A única hipótese para uma saída destas seria alguma ilegalidade chocante, sem margem para dúvidas, ou um confronto demasiado absurdo com a estrutura militar, serviços de informação ou as câmaras legislativas. Duvido que isso aconteça: Trump pisa o risco muitas vezes e nunca deixará de o fazer, mas dificilmente será apanhado numa armadilha que leve à sua própria destituição e o Partido Republicano acabará por defendê-lo. Não porque goste de Donald Trump ou o respeite, mas porque é a melhor arma para mudar algumas coisas na América.

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Basta ver como os senadores e congressistas se têm comportado nos últimos dias. E, sobretudo, espreitar as suas agendas políticas - estruturais ou mais casuísticas - e ver como muitas vezes coincidem com as de Trump. Não gostam do estilo nem da pessoa, mas aproveitam a onda para o que lhes der jeito. Depois se vê o resto. E esse resto é uma destituição? Volto à minha opinião: espero que não.

Quando ouço tanta gente a desejar um impeachment, lembro-me do que aconteceu recentemente no Brasil. Não há mais nada que ligue Dilma Roussef a Trump, exceto a vontade cega de os deitar abaixo. Num caso como no outro convém que não se esqueçam do que vem a seguir. Em relação a Dilma, já lá vamos, há pouco a fazer. Mas no caso de Trump convém pensar muito bem. O que seriam os EUA depois de um tumulto que levasse à destituição de um Presidente desta natureza e com este estilo? A verdade é que, goste-se ou não, o sistema deixou-se capturar por Donald Trump e agora é seu refém. Mas o quebrar deste processos dramático deve ser feito em eleições.

Foi isso que os brasileiros anti-Dilma, anti-Lula e anti-PT não perceberam. Aproveitaram o mar de corrupção e incompetência em que o Partido dos Trabalhadores se transformou para virarem o jogo. Esqueceram-se que, ao contrário do que tinha acontecido no impeachment de Collor de Mello, Dilma Roussef não estava acusada de nada nem sequer era suspeita. Usaram um princípio orçamental para proceder à defenestração. E com isso abanaram os fundamentos do sistema político brasileiro de forma imprevisível.

Dilma era uma política capturada por um partido corrupto e quase sem capacidade de ação no início do seu segundo mandato. Era uma sombra do seu passado e um triste exemplo de impotência, incompetência e falta de soluções. Mas era Presidente, legitimamente eleita e sem nada contra si. Remover um Presidente sem ser em eleições é um erro grave, que o Brasil paga hoje e pagará por muito tempo.

Brasília é hoje liderada por um Presidente que está sempre à beira de ser indiciado, que já se desfez de meio governo por corrupção, apoiado por duas câmaras legislativas cheias de corruptos. Se tudo isto tivesse surgido por via eleitoral, era mau mas era a vontade popular e era o sistema a funcionar. Assim é apena uma triste ópera bufa que vai acabar muito mal. Joaquim Barbosa, o ex-Presidente do Supremo que julgou o Mensalão – e que é insuspeito de simpatias para com o PT – sempre chamou a atenção para isto: um sistema constitucional como o brasileiro tem vários pilares e o pilar Presidencial é fundamental. É um pilar que não pode ser abanado por razões circunstanciais ou de política corrente. Só mesmo por razões indiscutíveis, como era o caso de Collor ou, nos EUA, o de Nixon.

É por isto tudo que espero que Donald Trump só venha a cair em eleições. Nunca antes - e se tiver que fazer dois mandatos, que os faça. Vai ter boa parte da economia e toda a demagogia a seu favor. Vai ter, como já tem hoje, as emoções, a raiva, e muitos ódios do seu lado. Mas também parte do orgulho de que as nações são feitas.

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O que os partidos deviam fazer era criar alternativas sólidas e seguras, capazes de o desafiar em primárias e em eleições nacionais. Candidatos que não possam ser vistos como do sistema e preparados para combater a sua demagogia e de restaurar o orgulho e a identidade nacional sem ser pelas vias que Hillary Clinton erradamente trilhou. É um desafio enorme, mas essa é a superioridade absoluta das eleições democráticas: a de permitir que um demagogo antissistema as vença. Já aconteceu uma vez e só não se repetirá se partidos, candidatos, políticos e instituições começarem a trabalhar já.

Veja-se o que está a acontecer na disputa em torno da lei anti-imigração e refugiados. Aos tribunais o que é dos tribunais, às câmaras legislativas o que é das câmaras, ao Presidente o que é do Presidente. E ao povo o que é do povo. O sistema foi capturado por um populista perigoso, mas fê-lo pelo voto popular. Que saia pela mesma porta e pela mesma mão é a única coisa que me parece desejável. Tudo o resto serão processos mais perigosos que o próprio Trump.

  • Lamento ver gente à direita achar que tudo isto é normal (ensaio de Pedro Mexia)

    Trump é um populista que fala para os descamisados da globalização, mas isso tanto define um Trump como uma Le Pen, que é de direita, um Iglesias, que é de esquerda, ou um Grillo, que não é de esquerda nem de direita. Mas Trump é incomparável, escreve Pedro Mexia no segundo dos cinco ensaios que estamos a publicar esta semana sobre o Presidente dos Estados Unidos. Nos próximos dias escrevem Ricardo Costa, Daniel Oliveira e Clara Ferreira Alves

  • A ignorância eurocêntrica sobre Trump (ensaio de Henrique Raposo)

    Trump não é conservador, republicano ou federalista, é um “confederado” sulista à imagem do fundador do Partido Democrata, escreve Henrique Raposo no primeiro de cinco ensaios sobre o Presidente do EUA que vamos publicar nos próximos dias. Os ensaios seguintes são assinados por Pedro Mexia, Ricardo Costa, Daniel Oliveira e Clara Ferreira Alves

  • A ditadura do burburinho (ensaio de Daniel Oliveira)

    O confronto não pode ser entre a América “sofisticada” e a América “tacanha”. E não se pode centrar no burburinho que Trump vai criando. Ele alimenta-se do ressentimento dos desprezados e da espuma dos dias. Muitas coisas que chocam em Trump só são relevantes para os que o recusam, que continuam a falar para si mesmos, cavando um pouco mais o fosso que serve o Presidente. É na frustração da América abandonada, que ele prometeu ajudar e que obviamente trairá, que está a resposta a Trump. Daniel Oliveira assina o quarto dos cinco ensaios que estamos a publicar esta semana sobre o Presidente dos Estados Unidos. O último será assinado por Clara Ferreira Alves