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Lamento ver gente à direita achar que tudo isto é normal (ensaio de Pedro Mexia)

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Trump é um populista que fala para os descamisados da globalização, mas isso tanto define um Trump como uma Le Pen, que é de direita, um Iglesias, que é de esquerda, ou um Grillo, que não é de esquerda nem de direita. Mas Trump é incomparável, escreve Pedro Mexia no segundo dos cinco ensaios que estamos a publicar esta semana sobre o Presidente dos Estados Unidos. Nos próximos dias escrevem Ricardo Costa, Daniel Oliveira e Clara Ferreira Alves

Dizem os anti-anti-Trump que não se pode comparar Trump a Hitler, como têm feito os seus críticos mais insensatos. Claro que não pode. Não se pode comparar ninguém a Hitler, ninguém que não tenha praticado genocídios. Trump é demagogo, desonesto, autoritário, xenófobo, e vive bem com apoiantes violentos, mas isso não faz dele um Hitler. Não se pode comparar, têm-nos dito. E têm razão. O problema é esse: não se pode comparar Trump com ninguém, ou pelo menos com nenhum Presidente de que nos lembremos, porque nenhum era tão inexperiente, tão incompetente, tão descabido para a função. Trump é incomparável. Demasiado mau para ser verdade, é a verdade a que temos direito desde uma aziaga madrugada de Novembro.

Quase tão mau como comparar Trump a Hitler é defender que Trump é um Presidente normal, igual a outros, bons ou maus. Ou que não é normal mas deve ser “normalizado”. Trump não é normal nem deve ser normalizado porque não se trata de uma figura com um ideário político definido, que usou uma linguagem extremada durante a campanha eleitoral como homem do espectáculo que é, mas que depois se encheu de “gravitas”e bom senso. Não foi isso que aconteceu. Trump-presidente é tão estapafúrdio como Trump-candidato, e muito mais perigoso. É aliás isso, a ameaça que advém do poder, que o distingue dos seus críticos mais insuportáveis, os quais, sendo insuportáveis, são articulistas ou cantores ou celebridades, não são o Presidente da única potência mundial.

De resto, que ideias tem o homem? Já foi Democrata e Republicano, faz questão de dizer que não é conservador, mudou de discurso várias vezes em várias matérias, da guerra aos costumes, tem noções infantis sobre a política internacional (como “acabar com o terrorismo” ou “resolver a questão israelo-árabe”). Sabemos que é um populista que fala para os descamisados da globalização, mas isso tanto define um Trump como uma Le Pen, que é de direita, um Iglesias, que é de esquerda, ou um Grillo, que não é de esquerda nem de direita.

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Sabemos que tem um fraquinho por déspotas, e que acha a tortura aceitável. Sabemos que acredita em teorias da conspiração, que incentiva paranóias e inventonas. Sabemos que é a encarnação mais recente dos demónios da direita americana: o isolacionismo, o autarcismo, o racismo, embora tenha sido até agora o único porta-voz dessas ideias que triunfou numa eleição nacional, depois de uma década na qual o Grand Old Party se viu desfigurado com o basismo do Tea Party e o facciosismo da Fox News, que são o Occupy e o “Monde Diplomatique” dos cábulas.

As ideias de Trump, aquelas que conhecemos, são más ou assustadoras. Mas o que é verdadeiramente tóxico é o seu discurso, a sua personalidade, o seu destempero, os tweets de madrugada, lamentáveis como os de um adolescente frustrado. Como candidato e depois como Presidente, Trump insultou um herói de guerra, a família de um soldado morto no cumprimento do dever, um juiz por ser hispânico, outro juiz a quem chamou “suposto juiz”, os serviços secretos, um jornalista por ser deficiente, a imprensa em geral, os mexicanos, metade do eleitorado inglês, os muçulmanos, diversos actores. E o elenco não é exaustivo.

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Algumas destas frases surgiram como tiradas ocasionais, em comícios, em 140 caracteres, em momentos de maus fígados. Outras são recorrentes, formam um padrão, e já se concretizaram em acções executivas, por exemplo a decisão de suspender os vistos de cidadãos de países suspeitos de promover o terrorismo.

Excepto, é claro, a insuspeita Arábia Saudita, ou os países árabes nos quais Trump tem negócios. Acrescente-se aliás que só os negócios de Trump, dos quais não vai abdicar, ou não vai abdicar de verdade, são uma incompatibilidade clamorosa com o cargo que ocupa, um conflito de interesses que faz corar de vergonha um Berlusconi, o homem que, à direita, inaugurou a moda dos líderes inacreditáveis, sem projecto e sem maneiras.

Não culpo o eleitorado. O eleitorado não queria mais dinastias Bush e Clinton. O eleitorado, ou uma boa parte dele, sente o chão a fugir debaixo dos pés. Compreendo isso, e sou adepto de que se “normalizem” os eleitores, que têm as suas razões, algumas das quais atendíveis. O que não aceito é a pusilanimidade dos eleitos. E parece-me que há qualquer coisa de errado num partido que candidata um homem como John McCain e, oito anos depois, nomeia Trump. Foram as bases, bem sabemos, contra as elites. Foram os cidadãos da América profunda, os descontentes com o politicamente correcto, os do colarinho azul, as maiorias que se sentem minoritárias, foram esses e outros, mas esses de certeza.

O povo Republicano decidiu assim, está decidido, mas que princípios têm os dirigentes Republicanos que depois do que disseram contra Trump o aceitaram como se nada fosse? Não me refiro às tristíssimas figuras dos Christies ou Giulianis, mas a pessoas como o candidato republicano em 2012, Mitt Romney, que chegou a escrever: “Hoje, há um combate entre o Trumpismo e o Republicanismo. Através das declarações premeditadas do seu líder, Trump ficou associado ao racismo, à misoginia, à intolerância, à xenofobia, à vulgaridade e, mais recentemente, a ameaças e violências.” Hoje sabemos que o Presidente-Trump não se distingue do candidato-Trump, e que aquilo que era desgostante é agora perigoso.

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Lamento ver gente à direita achar que tudo isto é normal, ou a mostrar alguma simpatia por Trump, esse direitista sem super-ego, quanto mais não seja porque “chateia a esquerda”, argumento de uma notável elevação intelectual. Mas fiquei satisfeito com o facto de os intelectuais conservadores terem sido uma das únicas forças organizadas à direita a fazer campanha contra Trump: William Kristol, David Brooks, George Will, Charles Krauthammer, Robert Kagan, Ross Douthat, e outros, denunciaram Trump meses a fio. Talvez porque não têm nada a perder, porque não estão dependentes dos eleitores zangados, porque podem defender sem coacção as ideias em que acreditam, ideias que Trump despreza, incluindo algumas das que estão inscritas na Constituição Americana.

Em Fevereiro de 2016, a “National Review”, a mais importante revista conservadora americana, deu à estampa um número temático que logo na capa anunciava: “Against Trump.” Um ano depois, não há razão para mudar de manchete.

Pedro Mexia escreve de acordo com a antiga ortografia

  • A ignorância eurocêntrica sobre Trump (ensaio de Henrique Raposo)

    Trump não é conservador, republicano ou federalista, é um “confederado” sulista à imagem do fundador do Partido Democrata, escreve Henrique Raposo no primeiro de cinco ensaios sobre o Presidente do EUA que vamos publicar nos próximos dias. Os ensaios seguintes são assinados por Pedro Mexia, Ricardo Costa, Daniel Oliveira e Clara Ferreira Alves

  • Trump, Dilma e a desgraça dos impeachments (ensaio de Ricardo Costa)

    O sistema foi capturado por um populista perigoso, mas fê-lo pelo voto popular. Que saia pela mesma porta e pela mesma mão é a única coisa que me parece desejável. Tudo o resto serão processos mais perigosos que o próprio Trump, escreve Ricardo Costa no ensaio sobre o Presidente dos Estados Unidos. Na quinta e na sexta-feira escrevem Daniel Oliveira e Clara Ferreira Alves