Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

A ignorância eurocêntrica sobre Trump (ensaio de Henrique Raposo)

reuters

Trump não é conservador, republicano ou federalista, é um “confederado” sulista à imagem do fundador do Partido Democrata, escreve Henrique Raposo no primeiro de cinco ensaios sobre o Presidente do EUA que vamos publicar nos próximos dias. Os ensaios seguintes são assinados por Pedro Mexia, Ricardo Costa, Daniel Oliveira e Clara Ferreira Alves

O que se pode aproveitar do Sul?

Os europeus costumam dizer que os americanos são incultos em relação à Europa e ao resto do mundo. O inverso também é verdade. Na Europa, Trump tem sido comparado a Hitler, Putin, Le Pen. Esta comparação revela ignorância eurocêntrica.

Trump não é fascista ou autocrático no sentido europeu; é apenas um populista da velha tradição sulista do seu próprio país. Como tenho escrito aqui no Expresso Diário, Trump e a grande rebelião do Tea Party representam uma invasão do Partido Republicano pelo antigo e original Partido Democrata. Trump não é conservador, republicano ou federalista, é um “confederado” sulista à imagem de Andrew Jackson, o fundador do Partido Democrata.

As divisões esquerda-direita nos EUA não se fizeram na linha religiosa ou na linha capitalista. Nos EUA, todos defendem o cristianismo e o capitalismo. A divisão foi estabelecida noutras linhas, a saber: federalismo “versus” maior autonomia dos estados; abertura comercial e cosmopolita “versus” ruralismo, isto é, sociedade (gesellschaft) “versus” comunidade (gemeinschaft). Logo na fundação, a “direita” federalista de Hamilton e Adams contestou a “esquerda” de Jefferson.

Os federalistas queriam uma união federal com centralidade jurídica (Supremo Tribunal) e financeira (Banco central), e aspiravam a uma América industrial, comercial, marítima, aberta ao exterior, e ligada aos valores universais. É por isso que os federalistas já tinham uma atitude crítica em relação à escravatura. À luz do direito natural, Hamilton e os Adams consideravam a escravatura como uma ofensa moral inaceitável.

reuters

Do lado oposto, o esclavagista Jefferson recusava o federalismo forte, defendia uma mera confederação de estados sem autoridade central e federal, sem Supremo ou Banco central; o objetivo era a perpetuação daquele idílio rural parado num tempo de cavalheiros e senhoras. Claro que este idílio era suportado pela escravatura – um pormenor. Ao fundar o Partido Democrata, em 1828, Andrew Jackson corporizou este espírito sulista, que rebentaria na sucessão antiLincoln.

A guerra civil americana foi assim a confirmação de um choque latente desde a fundação: de um lado, a América yankee de Lincoln, uma América urbana, industrial, comercial, assente na ideia de estado de direito e de direito natural – a sociedade (gesellschaft); do outro lado, a América sulista de Jefferson Davis, uma América ruralista, agrária e esclavagista, uma América com medo do exterior, com medo das grandes cidades e defensora das pequenas comunidades compostas não pelo abstrato “cidadão”, mas sim por vizinhos e amigos – a comunidade (gemeinschaft). E aqui, sim, pode-se falar em semelhanças entre este sulismo hoje representado por Trump e os nacionalismos europeus.

reuters

Tal como escreveu Harry Jaffa, um dos grandes historiadores americanos, os confederados americanos defenderam no século XIX aquilo que os nacionalismos europeus defenderiam no século XX: uma conceção de república exclusivista e nacionalista, uma república pensada enquanto império do homem branco e apenas para o homem branco, uma república que desconsiderava o direito natural, visto que considerava que apenas a força demonstrada na História permitia a validação moral de um costume. Nesta perspetiva relativista, a escravatura não era um mal, porque era desejada muito democraticamente pela maioria das populações dos estados do sul.

A primeira América era representada pelo Partido Republicano criado por Lincoln. A segunda América era representada pelo Partido Democrata. Apesar de derrotado na guerra, este partido continuaria a ser o representante do sul. Durante um século inteirinho (1865-1964), o Partido Democrata continuou a ser o partido deste nacionalismo sulista. Sim, o Partido Democrata foi o partido da segregação. Claro que tudo isto foi levado com o vento assim que Lyndon Johnson (democrata) assinou a lei dos direitos civis (1964). Quando assinou aquele documento, Johnson sabia que estava a entregar o bastião do seu partido (o sul) ao outro lado. E assim foi.

Desde Goldwater, o velho espírito sulista foi passando aos poucos para terreno republicano. Ou seja, os velhos inimigos de Lincoln foram colonizando aos poucos o Partido Republicano. Esta mudança chegou ao ponto em que é difícil recordar às pessoas que o Partido Republicano foi sempre o maior inimigo da escravatura e da segregação.

Durante meio século, foi possível manter esta improvável coligação entre os yankees tradicionais e os sulistas. Nixon, Reagan e Bush representaram essa quadratura do círculo. Mas, desde o início do século XXI, já eram claros os indícios de incompatibilidade entre a eterna rebelião sulista e o espírito republicano clássico. A antecâmara de Trump, o Tea Party, representava esta rutura na coligação, pois era inequívoco na linguagem de quase guerra civil contra a terrível Washington DC, a usurpadora. Trump e a tal Alt-Right são apenas o passo final desta longa caminhada. A Alt-Right é a negação da direita clássica americana, de Hamilton a Reagan, passando por Lincoln e Teddy Roosevelt; “Alt-Right” é um nome novo para uma causa antiga, o sulismo confederado que volta a falar em secessão.

reuters

E agora? Como é que se pode evitar o desastre? Como é que se pode travar esta crescente bola de neve que namora abertamente com a secessão? Julgo que a resposta está em perceber as diferença entre as causas ilegítimas e as causas legítimas deste movimento popular. Portanto, a pergunta fundamental talvez seja esta: o que se pode aproveitar deste regresso do sul?

Neste sentido, importa dizer que é falacioso afirmar que todos os votantes de Trump são “racistas”, tal como é falacioso e tremendamente intolerante afirmar que o sul de 2017 continua a sonhar com o império racista. Muitas das pessoas que votaram Trump e que compõem esta revolta jacksoniana não são racistas, estão é fartas de um fenómeno que simboliza a América contemporânea – o politicamente correto. Esta narrativa sacralizou uma miríade de comunidades “minoritárias” (os negros, os gays, os transgénero, os hispânicos, os muçulmanos, os nativos) e, ao mesmo tempo, diabolizou a comunidade branca e cristã.

reuters

Hoje em dia, gozar ou criticar negros ou gays nos EUA significa cair nas mãos da censura politicamente correta, que vai desde despedimentos a boicotes. Gozar com o branco cristão é a única piada que não tem custo. Odiar o branco cristão é o único “racismo” aceitável. Como tem dito Walter Russell Mead, um dos historiadores que melhor conhece a revolta jacksoniana, as pessoas fartaram-se desta cultura, porque muitas vezes são acusadas de “racistas” só porque revelam orgulho nas suas raízes brancas e europeias. Isto não é aceitável.

Moral da história? Parece-me que a domesticação deste jacksonianismo 2.0 implica separar o trigo do joio, implica perceber o que é aceitável e o que é inaceitável no meio desta revolta. O excesso de comunidade (gemeinschaft) não é aceitável, isto é, não se pode aceitar a defesa de uma América nacionalista, exclusivamente branca e a namorar com a secessão. Mas já é aceitável a crítica que os jacksonianos moderados fazem ao excesso de sociedade (gesellschaft), isto é, pode-se e deve-se aceitar as críticas ao politicamente correto multiculturalista que passou a última geração a destruir o conceito de pátria e a herança branca, europeia, cristã e até iluminista. É fundamental compreender este ponto, porque a fusão entre sociedade (gesellschaft) e comunidade (gemeinschaft) é a chave do patriotismo liberal que evita em simultâneo os excessos do globalismo e os excessos do tribalismo. Que Deus nos ajude nos trabalhos que desta fusão.

  • Lamento ver gente à direita achar que tudo isto é normal (ensaio de Pedro Mexia)

    Trump é um populista que fala para os descamisados da globalização, mas isso tanto define um Trump como uma Le Pen, que é de direita, um Iglesias, que é de esquerda, ou um Grillo, que não é de esquerda nem de direita. Mas Trump é incomparável, escreve Pedro Mexia no segundo dos cinco ensaios que estamos a publicar esta semana sobre o Presidente dos Estados Unidos. Nos próximos dias escrevem Ricardo Costa, Daniel Oliveira e Clara Ferreira Alves