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Política

PCP perde terreno na Carris

Tiago Miranda

Municipalização deu azo a novo desafio parlamentar ao PS e alimentou a guerra entre sindicatos. A CGTP já não domina a empresa

“A CGTP tem maior representatividade, mas não tem o monopólio dos sindicatos e dos trabalhadores”. A frase é de Sérgio Monte, dirigente sindical da UGT e da Carris e resume bem o último episódio da guerra sindical, que se viveu esta semana. O grupo parlamentar comunista pediu a apreciação do decreto-lei que estabelece a municipalização da empresa de transportes, mas a maioria dos sindicatos da Carris ficou furiosa. Bateu com a porta de uma reunião com os deputados do PCP e mostrou que a CGTP já não manda ali. Curiosamente, o líder da Intersindical foi trabalhador da Carris e fez a sua carreira sindical nos transportes.

Foi um “dois em um”. O pedido de apreciação parlamentar do PCP abriu duas frentes de confronto: um político e outro sindical. Ambas serviram para marcação de terreno. Os comunistas mostraram, mais uma vez, que são diferentes do PS, apesar do apoio parlamentar que lhe concedem. Os sindicatos da UGT, por outro lado, aproveitaram a oportunidade para mostrar que, pelo menos numa empresa, têm mais força do que a CGTP.

Sinais dos tempos de combate político, os comunistas avançaram para o pedido de apreciação parlamentar do decreto-lei, sem avisar nem o Governo nem a bancada socialista. Depois da crise da TSU, era mais um pauzinho na engrenagem da ‘geringonça’. O líder comunista fez questão de desvalorizar o assunto. O PCP agirá “sem dramas”, disse Jerónimo de Sousa e, logo a seguir, João Oliveira prometia não avançar com o pedido de “cessão de vigência” do diploma — como o que levou ao chumbo da TSU — e contribuir para “reforço das medidas positivas e não de fragilização”.

A estratégia política do PCP passa agora “pela afirmação, pela criação de dificuldades para levar o PS a negociar matérias que julgava fechadas ou que nem sequer pensava em abrir”, disse ao Expresso fonte socialista. Só que, desta vez, os sindicalistas do PS contra-atacaram. Sérgio Monte foi o rosto das maiores críticas, acusando o PCP de “não querer ouvir os trabalhadores” e de tomar uma atitude “contraproducente”. O dirigente da UGT e do Sitra conseguiu, com o Sindicato dos Motoristas e do Pessoal de Tráfego da Carris (ambos independentes), acabar com a hegemonia da CGTP na empresa. A comissão de trabalhadores passou a integrar uma minoria comunista (dois elementos em 11) e a posição do PCP deu azo a uma prova de força, que mostra bem o estado de tensão entre as centrais sindicais (ver texto ao lado).

Na quinta-feira, a comissão de trabalhadores e cinco sindicatos da Carris aceitaram reunir com a bancada comunista no Parlamento. Meia hora depois, a CT e quatro sindicatos bateram com a porta, deixando apenas Fectrans e Strup (ambos da CGTP) a falar com os deputados do PCP. O recado ficou dado.