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Bagão Félix, Idália Serrão e Mota Soares comoveram-se no cinema com o absurdo na Segurança Social

No cinema. Bagão Félix (CDS), ex-ministro da Segurança Social, e Idália Serrão (PS), ex-secretária de Estado adjunta de Vieira da Silva e de Helena André no Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social e Pedro Mota Soares (CDS), ex-ministro da Segurança Social, aceitaram o convite do Expresso para verem “I, Daniel Blake”, o filme em que o homem é derrotado pela Segurança Social, pelo Estado, pelo absurdo

tiago miranda

“I, Daniel Blake”, de Ken Loach, mostra a luta de um homem contra o absurdo da máquina burocrática e a falta de humanidade dos serviços do Estado. É uma experiência cinematográfica que nos sacode o coração: Daniel Blake é um herói simples que nos comove enquanto perde a batalha contra a Segurança Social. Juntámos três ex-governantes que tiveram esta pasta em Portugal, fomos ao cinema com eles e o resultado é de leitura obrigatória. “Todos os dirigentes políticos, autoridades, funcionários de serviços públicos e de serviços que têm uma relação muito forte com a população deviam ser obrigados a ver este filme”

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

A ficção termina, as luzes acendem-se e um jovem aproxima-se de Pedro Mota Soares e diz-lhe “é assim, não é?, longa vida à economia de mercado e ao Estado e os pobres que se esforcem um bocadinho mais, não é?”. O antigo ministro da Segurança Social responde-lhe meio surpreendido, “olhe que não é só isso, é mais, mais do que isso”, mas a resposta fica por ali, perde-se no passo apressado que se impõe na saída da sala de cinema. Aquele cidadão em particular não tem oportunidade para debater com o político, mas a jornalista terá. Antes disso rebobina-se o filme e perto de 30 pessoas começam a ouvir uma voz no escuro.

É Daniel Blake, um viúvo britânico de 59 anos que acabou de sofrer um ataque cardíaco e que por indicação médica deixou de trabalhar. Ao telefone, obrigado a responder a uma série de perguntas genéricas, Daniel tenta expor o problema que o afeta para conseguir obter uma pensão de invalidez, mas do outro lado da linha a voz que o interpela pede-lhe que não saia do guião e se limite a responder ao que é solicitado. Segundo António Bagão Félix, é logo ali que se percebe a aridez de um sistema de ação social baseado num guião abstrato com “regras impessoais e impassíveis aos problemas das pessoas”.

“O outsourcing é uma prática absolutamente correta, mas muitas vezes não funciona e pode ser cruel. Existe, mas não deveria existir. No filme percebe-se logo que aquela voz do atendimento foi contratada por outra empresa”, explica o antigo ministro da Segurança Social no Governo de Durão Barroso entre 2002 e 2004.

Mais recente na posição de ministro mas igualmente de acordo, Pedro Mota Soares acrescenta: “O filme está cheio de símbolos. O começo é muito marcante, sem imagens, um homem a tentar falar da sua vida, dos seus problemas, e todos nós já sentimos essa dificuldade num serviço público. Não é uma falta de solidariedade do Estado, é mais do que isso: é uma falta de humanidade nos serviços. O que falha não é a construção do sistema, não é isso que está em causa, mas sim a prática do sistema. É a máquina que falha e no call center é preciso estar gente formada que conheça bem o sistema, que é grande e complexo”.

Não é por acaso que o realizador nos deixa às escuras a ouvir aquele diálogo e Idália Serrão, antiga secretária-adjunta de Vieira da Silva e de Helena André no Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, interrompe para reforçar algo em que os três políticos concordam: “Na Segurança Social, a dimensão humana tem de ser trabalhada. O atendimento não se faz apenas da aplicação de formulários, faz-se de homens e de mulheres vocacionados para atender pessoas e não se pode retirar - como tem acontecido - recursos humanos e mandá-los para processos de requalificação quando eles são tão necessários no atendimento”.

Na sala de cinema, Bagão Félix está sentado entre Idália e Mota Soares e vê “I, Daniel Blake” pela terceira vez. O ponto de partida é uma voz no escuro mas depressa surge um rosto e uma vida - Daniel é carpinteiro e o lápis e a sua velha caixa de ferramentas hão de acompanhá-lo até ao fim, até mesmo quando tiver de vender tudo para poder comer. “Agora que vi o filme pela terceira vez, encontrei ainda mais pormenores. Por exemplo, os pequenos peixes de madeira num dos últimos planos do filme, só agora é que os vi”, diz Bagão Félix, cinéfilo assumido. “Este é o primeiro filme neorrealista que vejo no século XXI. Já não é o pós-guerra, é diferente” e o facto de ser o primeiro filme que o personagem principal faz (Daniel Blake é Dave Johns, comediante inglês natural de Newcastle, onde o filme foi rodado) “dá muita força à vida do filme”.

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Ao longo de cem minutos, o realizador Ken Loach apresenta um cidadão que ainda está longe da reforma, mas também não está a começar uma carreira. Daniel Blake tenta receber os benefícios do Estado que lhe permitam subsistir, mas vê-se enredado numa burocracia complexa, desumana e injusta.

Apesar do esforço para provar a sua incapacidade (os médicos não o deixam trabalhar), Daniel não encontra forma de alcançar a pensão de invalidez e por isso os serviços sugerem que recorra ao subsídio de desemprego, o que virá a revelar-se um caminho de formulários e regras igualmente difíceis de cumprir. Pelo meio será sempre ameaçado de “sanções” que podem atrasar os pagamentos durante anos. Ou seja, como sobreviver sem poder trabalhar e sem quaisquer rendimentos?

É no meio desse dilema que Daniel conhece Katie, uma jovem londrina com poucos estudos que acaba de ser realojada pelo Estado em Newcastle com dois filhos ainda pequenos e que precisa de ajuda financeira para poder sobreviver e alimentar a família enquanto procura emprego. Ambos terão de recorrer à ajuda do banco alimentar e no meio de uma situação de desespero tornam-se o pilar de esperança um do outro.

Tiago Miranda

“Todo este filme é simbólico. Estamos dentro da narrativa, porque já vimos isto muito perto de nós. Já vimos tender para a privatização da Segurança Social e reconhecemos um Estado que maltrata os seus cidadãos que sempre foram leais para com ele, porque sempre fizeram os seus descontos e foram solidários com o Estado esperando que quando chegasse a sua hora o Estado também fosse solidário com eles”, realça a antiga secretária de Estado do PS. Para Idália Serrão, o momento mais marcante do filme há de ser a última fala de Daniel Blake - sentado na sala de espera, vê por uma porta entreaberta dois membros da junta médica que dali a pouco hão de ouvi-lo para avaliar o seu caso e diz: “É engraçado, estas pessoas têm a minha vida nas mãos”.

“Fui secretária de Estado com dois ministros e lembro-me que, com o ministro Vieira da Silva, de vez em quando pegávamos em cartas que a Segurança Social tinha enviado para casa de algum familiar nosso e reuníamos a equipa toda. Tentávamos descodificar e não era fácil para nós que estamos dentro do meio, que conhecemos o jargão, que temos formação que nos permite descodificar aquelas cartas. Não percebíamos logo o que queriam de nós”, admite a atual secretária da mesa da Assembleia da República.

E Bagão Félix acrescenta: “Olhe que eu, quando recebi a carta com a explicação detalhada do cálculo da minha pensão de velhice, andei umas horas a tentar perceber tudo”. E Mota Soares responde-lhe: “Só o nome da carta da pensão de velhice é todo um programa”.

Concordam em uníssono: a burocracia na Segurança Social, que se sente em Portugal como noutros países, sofre de uma densidade informativa que é muito difícil de apreender pelas pessoas comuns. E, portanto, a simplificação, a leveza - não a ligeireza, frisa Bagão Félix - dos regulamentos são um objetivo a prosseguir. “Qualquer um de nós tentou resolver isso. Os sistemas são muito difíceis de compreender. E só serão justos se forem simples de aplicar, de controlar e simples de solicitar”, diz o atual comentador do jornal “Público”.

É preciso reformar a linguagem da SS e de outros serviços? Sim, sim, sim, dizem todos a uma só voz. E assumem: este filme ensina-nos que nada se pode fazer se não estiver em primeiro lugar a dignidade da pessoa. A usurpação dos direitos básicos dos cidadãos é uma ideia muito presente. Daniel Blake não quer caridade. Sempre pagou impostos, sempre contribuiu para o Estado, logo tem direito à proteção social. Segundo Idália Serrão, é nessa ideia que faz a ponte com o sistema português: “Aqui temos subsídio de desemprego, temos um rendimento de reinserção social, enfim, toda uma panóplia de prestações sociais que podem e devem ser solidárias com as pessoas no momento em que elas precisam da solidariedade do Estado”.

E é neste ponto que temos de pedir desculpa ao leitor que ainda não viu o filme (salte este parágrafo se quiser evitar um spoiler fundamental): Daniel Blake morre antes de conseguir resolver o seu problema com o Estado. O coração não aguenta e, minutos antes de ser ouvido pela junta médica, cai inanimado no chão. O ecrã há de ir a negro para aparecer de novo, desta vez no momento do funeral, “que decorre às 09h por ser o horário mais barato, a hora fúnebre dos pobres”, mas para Katie, que viu Daniel morrer por causa do stress que a burocracia do Estado lhe causou, Blake não era um homem pobre, mas sim uma vítima de um sistema cada vez mais complexo, tecnológico, desumano e difícil de entender (e ela lê durante o funeral um papel que ele tinha no bolso para dar aos médicos: “O meu nome é Daniel Blake, sou um homem, não sou um cão, não sou um cliente, não sou um número. Exijo os meus direitos. Exijo que vocês me tratem com respeito. Eu, Daniel Blake, sou um cidadão, nada mais, nada menos”).

Como é que se pode evitar um desfecho destes na vida real? Bagão Félix considera que seria necessário responder a duas condições: a qualificação dos recursos humanos, com muita formação nos serviços de ação social, e não fazer política “só para o dia seguinte”. Mota Soares concorda: “É importante estarmos fora da máquina, fora da pressão da máquina, para vermos as coisas com os olhos dos cidadãos”.

Bagão Félix, que passou pela pasta da Segurança Social no início dos anos 80 como secretário de Estado e já no século XXI como ministro, adianta uma solução arrojada: “Uma pasta da segurança social com três ou quatro ministros que tivessem sido ministros anteriormente. Eu hoje identifico muito melhor os erros que cometi. Ganhei com a experiência, mas ganhei sobretudo com a boa distância. Vejo as coisas com outra latitude, não estou a decidir para o dia seguinte, com o stress do momento. O que se desperdiça de energia para responder a questões que não têm tanta importância…” E Idália Serrão interrompe para dizer que “são os pequenos poderes paralisantes que afetam o tempo que as decisões demoram a ser postas em prática”. “É o drama do decisor político”, prossegue. “É por isso que era tão importante que todos os políticos, autoridades, funcionários de serviços públicos e de serviços que têm uma relação muito forte com a população vissem este filme. Seria um marco importante. Há aqui lições para todos.” E há mesmo.

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