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César ‘agarra’ deputado dissidente

Domingos Pereira

“Estranho” ou “contraditório”, mas o PS não se zanga com deputado Domingos Pereira, que entregou o cartão de militante

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

Um deputado pode zangar-se com o partido, entregar o cartão de militante e continuar na bancada parlamentar como se nada tivesse acontecido e sem que ninguém o tente empurrar para fora? Pode, se esse deputado fizer falta para o delicado equilíbrio da ‘geringonça’. É precisamente isso que está a acontecer com Domingos Pereira, um deputado desconhecido para a esmagadora maioria das pessoas e que esta semana assumiu que não quer mais ser do PS.

Ora, o PS tem atualmente 86 deputados e, nos casos em que o PCP se abstém, precisa do apoio do BE e do PAN para reunir uma maioria superior à da direita toda junta: 108 contra 107 deputados. Todos os seus deputados são, por isso, muito preciosos.

Ao Expresso, Domingos Pereira já assumiu que tenciona respeitar a disciplina de voto e que não vai ter “atitudes revanchistas”. Ou seja, não passa a deputado independente o que seria natural (o mandato é da pessoa que o ocupa e não do partido e, portanto, nunca lhe pode ser retirado). E promete votar sempre como o PS mandar.

“Pode ser estranho ou contraditório mas vai ser mesmo assim”, afirmou ao Expresso fonte da bancada do PS. “Ninguém vai forçar nada”, é a convicção, ou seja, a direção do grupo parlamentar não tem interesse em hostilizar o deputado rebelde, classificado como tendo um low profile e “sem agenda própria”. Como lembra fonte socialista, Pereira ficará numa situação idêntica a deputados independentes como Helena Roseta ou Paulo Trigo Pereira.

A trégua acenada ao deputado rebelde não é inocente, antes uma bandeira de conveniência numa altura em que a geometria incerta no Parlamento é cada vez mais variável com o PSD a juntar-se à esquerda em alianças imprevisíveis. O divórcio amigável deverá ficar selado terça-feira, dia em que o deputado se reunirá com Carlos César, depois de conversações telefónicas na sequência da renuncia à liderança da concelhia de Barcelos e do avanço “quase certo” à corrida independente à Câmara local.

“Voluntariamente não deixo o grupo do PS, mas acatarei a vontade do partido”, afiança Domingos Pereira. Escudado “num vasto leque de apoiantes”, o socialista com 30 anos de militância deve apresentar “em breve” uma lista concorrente à recandidatura de Miguel Costa Gomes, imposta pela Comissão Política Nacional contra a vontade da concelhia. “Custa-me entregar o cartão, mas não aceito que uma orientação estratégica do secretário-geral, se sobreponha aos estatutos e desrespeite os órgão locais”, sustenta o até agora líder da concelhia de Barcelos.

Outras novelas do Minho

Para o ex-vereador da Câmara de Barcelos, a quem o atual presidente retirou todos os pelouros em junho após a concelhia ter votado por maioria o deputado como o próximo candidato autárquico, a regra levado a congresso de reconduzir os autarcas em exercício “não tem sentido” nenhum. “Basta que um candidato ganhe uma vez para se perpetuar no lugar até ao limite. Mais vale o PS mandar para férias as concelhias e centralizar tudo em Lisboa”.

O primeiro dissidente do PS prevê que não será o único dos revoltosos “antimoção centralista”, dado o partido ter avocado também o processo autárquico em Fafe. “Não avocou, abocou”, afirma José Ribeiro, líder da concelhia de Fafe, que ameaça levar ao Conselho de Jurisdição do PS a recandidatura do atual presidente da Câmara, Raul Cunha. “Foi ele próprio que se colocou de fora da corrida, quando disse que se fosse eu o eleito na concelhia e não o seu nº 2 na Câmara, Pompeu Martins, não se recandidataria”, lembra José Ribeiro.

Em dezembro, a concelhia escolheu como candidato, por 90% dos votos, Antero Barbosa, rejeitado pelo PS nacional. José Ribeiro diz-se vítima de “um ajuste de contas político” por ter apoiado Seguro contra António Costa nas primárias. “O que o PS está a fazer parece coisa do tempo da outra senhora. É a ditadura lisboeta contra a democracia local”, conclui. Fonte da Distrital de Braga antecipa uma “hecatombe no Minho” em outubro, adivinhando novos focos de tensão que poderão ditar “candidaturas alternativas em Amares ou Vizela”.