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Câmara de Lisboa: o retrato impiedoso do candidato da CDU

A POSTOS! João Ferreira no anúncio da sua recandidatura à capital: o atual vereador traça um quadro negro da cidade

marcos borga

João Ferreira não deixa pedra sobre pedra no balanço que faz da década de gestão socialista de Lisboa (aliás, com o tempo de Santana e de Carmona, são 16 anos, um período de “negociatas” e de primado dos “interesses particulares”). Quem pensava que o clima da “geringonça” amenizaria o ímpeto comunista nas próximas autárquicas, enganou-se. No palco de Lisboa, os socialistas e a direita de braço dado voltaram ao discurso do PCP

Ao contrário da férrea pontualidade comunista, a apresentação do candidato da CDU à Câmara de Lisboa (o atual vereador e eurodeputado João Ferreira), feita na manhã desta quinta-feira, nos Paços do Concelho, começou com 15 minutos de atraso. Um eventual caso de adesão do PCP à proverbial tolerância nacional com o cumprimento de horários, mas o que seguiu mostrou que as transigências se ficaram por aí.

A cerca de nove meses das próximas autárquicas, os comunistas fazem um balanço demolidor da gestão socialista da cidade, tornando até indistintas as marcas cunhadas pelo PS (desde 2007, quando António Costa venceu as eleições intercalares) das deixadas pela direita. Esta gestão de Lisboa teve lugar nos seis anos anteriores, depois de Pedro Santana Lopes ter destronado João Soares, em 2001, e passou ainda pela conturbada liderança de Carmona Rodrigues.

São duros os termos da avaliação de João Ferreira: “[São] 16 anos de políticas de urbanismo que deixaram a cidade à mercê do especulador. Acentuou-se a segregação social”, disse o candidato, que falou na Sala do Arquivo da Câmara de Lisboa. Falando ainda da mais de década e meia em que “se alargou o fosso social” (uma ideia repetida pelo candidato), “o solo da cidade foi fonte de negócios e rendas para alguns, poucos, e não — como podia e devia acontecer — uma fonte de riqueza e de usufruto em benefício de todos”.

Uma cidade mais desigual

Logo de seguida, sintetizaria João Ferreira: “[Em Lisboa] aumentou a desigualdade no acesso à habitação, ao emprego, à mobilidade, aos serviços pública, à cultura e ao lazer”.

APRESENTAÇÃO. João Madeira (Intervenção Democrática), Cláudia Madeira (Verdes), Gonçalo Tomé (responsável do PCP em Lisboa) e Sara Ramos (JCP), ao lado de João Ferreira, no tiro de partida da candidatura da CDU à capital

APRESENTAÇÃO. João Madeira (Intervenção Democrática), Cláudia Madeira (Verdes), Gonçalo Tomé (responsável do PCP em Lisboa) e Sara Ramos (JCP), ao lado de João Ferreira, no tiro de partida da candidatura da CDU à capital

marcos borga

Se os acordos dos partidos de esquerda assinados em novembro de 2015 implicaram uma suavização das críticas recíprocas entre os signatários dos documentos (apesar de manterem divergências assumidas, umas pontuais, outras permanentes), o tiro de partida da candidatura da CDU a Lisboa vem pôr fim a esse hiato ditado pela evolução da política nacional após as últimas eleições legislativas.

No caso dos comunistas, em Lisboa, a escolha que se coloca é entre a candidatura encabeçada por João Ferreira e os partidos à direita do PCP. “A alternância PS/PSD-CDS não é, nunca foi, algo a que os lisboetas se tenham de resignar”, apelou o candidato, de 38 anos. É a segunda candidatura de Ferreira a Lisboa. Em 2013, o também eurodeputado (está no Parlamento Europeu desde 2009) duplicou o número de vereadores do PCP (passou a ter dois) e chegou aos 9,85% de votos.

“O fecho de um ciclo”

A aposta dos comunistas para a Câmara da capital espera que as eleições signifiquem “o fecho de um ciclo”, corporizado pelas lideranças do PSD-CDS e depois do PS. ”Dezasseis anos depois, a opção é entre mais do mesmo ou o início dum novo ciclo: de mudança, de desenvolvimento, de progresso”, promete João Ferreira, que se diz disposto a “assumir todas as responsabilidades, incluindo naturalmente a Presidência da Câmara Municipal”.

E o “mais do mesmo” na expressão dos comunistas é a radiografia de uma cidade com uma “perniciosa dependência da monocultura do turismo”, a sobreposição dos “interesses particulares“ ao “interesse coletivo” — neste ponto, Ferreira elencou os casos do Capitólio, do Pavilhão Carlos Lopes, edifícios no Terreiro do Paço, zonas da frente ribeirinha e de Monsanto, e terrenos do aeroporto e na Colina de Santana, onde serão desativados vários hospitais. Ou ainda, a “mais simbólica negociata que marcou estes 16 anos”, o caso Bragaparques, no rescaldo do qual a autarquia poderá ter de pagar à empresa (a decisão de um tribunal ainda não transitou em julgado) 138 milhões de euros. Um montante que é, disse João Ferreira,, “mais de cinco vezes o que a Câmara gastou, ao longo de todo o último mandato, em intervenções no conjunto dos mais de 70 bairros municipais da cidade”.

De resto, “as dificuldades no acesso à habitação expulsaram da cidade centenas de milhar de jovens”; “degradou-se a atividade económica, com a falência de milhares de pequenas e médias empresas”; “o transporte público chegou a uma situação deplorável, especialmente o Metro e a Carris”; “os problemas do trânsito e do estacionamento acentuaram-se”; “o desmembramento e esvaziamento de serviços municipais essenciais e o desinvestimento noutros (...) pioraram a qualidade dos serviços”, foi disparando João Ferreira, entre outros alvos.

Os “alicerces” da CDU

Para mudar a face da capital, a candidatura comunista puxa dos galões de “primeira força no plano autárquico na Área Metropolitana de Lisboa” e do “impulso progressista” do seu “imenso património” no poder local.

E para uma “futura governação da cidade” (objetivo em relação ao qual a CDU parte de uma base de votação abaixo dos 10%), o projeto que João Ferreira lidera tem os principais alicerces bem sinalizados: prevalência do interesse público sobre os interesses privados; uma “nova política habitação” que impeça a saída dos que nasceram e vivem na cidade; “a recuperação da vocação produtiva da cidade”; a melhoria dos transportes públicos, cuja política deve ser “integrada” e numa “escala metropolitana”; e a criação de serviços públicos de qualidade, em áreas como a cultura e o lazer.