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O Presidente que não quer ser biografado

O ex- Presidente António Ramalho Eanes numa ação de campanha do PRD

RUI OCHOA

Eanes fez esta quarta-feira 82 anos e não quis assistir à apresentação de um novo livro sobre o seu papel na História de Portugal. Ao contrário dos também ex-Presidentes Mário Soares e Jorge Sampaio, recusa entrevistas ou contributos para obras desta natureza. É uma rara forma de ser, numa época em que são muitos os que querem dar a sua versão dos acontecimentos

“Não posso impedir ninguém de escrever sobre mim, mas não colaboro”. Ao longo das três últimas décadas, António Ramalho Eanes recusou propostas de jornalistas e investigadores que o quiseram ouvir para escreverem sobre ele em forma de livro. A resposta terá sido invariavelmente a mesma − o mesmo é dizer, não contem com depoimentos ou entrevistas. Candidatos a biógrafos ou a outro tipo de trabalhos viram-se assim privados do testemunho oral ou escrito do homem que foi o primeiro Presidente eleito da Democracia portuguesa.

Uma das raras exceções que Eanes abriu foram as três entrevistas que deu para a fotobiografia publicada pelo Museu da Presidência − no final do segundo mandato de Jorge Sampaio − e só o fez por terem sido editadas fotobiografias de todos os ex-Presidentes da República e do PR em exercício.

Na opinião dos politólogos António Costa Pinto e André Freire, é uma pena que assim seja porque o testemunho de Eanes “seria de extrema utilidade”. Costa Pinto lembra que “memórias, biografias ‘induzidas’, entrevistas biográficas, etc.”, podem ser um “excelente repositório para memória futura. O General Eanes não em sido muito pródigo nessa matéria e até agora têm sido mais os relatos dos seus próximos, militares e civis, que têm ‘escrito’ a história da sua Presidência. Muitos ex-membros do MFA deixaram uma ‘historia oral’ da sua vida no Centro 25 de Abril da Universidade de Coimbra, mas o General Eanes não” o fez.

Ramalho Eanes com o retrato oficial de PR em fundo

Ramalho Eanes com o retrato oficial de PR em fundo

ARQUIVO EXPRESSO

“Do ponto de vista da construção da história é desejável que os protagonistas sejam ouvidos, por historiadores e jornalistas. É uma maneira de deixar a sua versão dos acontecimentos para a posterioridade e de se defenderem de eventuais interpretações” que não coincidam com as suas, diz o investigador André Freire ao Expresso.

Eanes teria muito que contar e testemunhar se quisesse: Esteve no 25 de Abril de 1974, no 25 de Novembro de 1975, foi o primeiro PR eleito, o seu nome está ligado à fundação do Partido Renovador Democrático que teve sucesso eleitoral nas legislativas de 1985, doutorou-se na Universidade de Navarra já depois de ter deixado de ser Presidente, recusou ser promovido a Marechal e não aceitou cerca de um milhão de euros em retroativos, entre muitos outros acontecimentos e atitudes. Não o faz, por uma determinação dificilmente entendível nos meios civis.

“Provavelmente a sua matriz militar, que nunca se transformou num político profissional, é responsável por essa economia de palavras”, diz António Costa Pinto: “Não é apenas sobre o 25 de Novembro e outros acontecimentos marcantes de 1975, mas sobretudo da sua presidência, das tensões com os partidos, da fundação do PRD, ou seja no fundo sobre a primeira etapa do nosso semipresidencialismo” que o general poderia falar, na opinião de Costa Pinto. É também porque de “uma forma ou de outra a ‘história’ vai-se fazer mas a memória dos próprios, sempre obviamente ‘filtrada’, é muito importante” para a narrativa e interpretação dos factos.

A vida civil do general Eanes

A vida civil do general Eanes

RUI OCHOA

Quando fez 80 anos, a mulher e os filhos, ofereceram-lhe o único exemplar do livro “Olhar o Futuro”, feito de propósito para o simbólico aniversário, com a ajuda de Zita Seabra que − para além de dirigir uma editora comercial − faz livros por encomenda e por medida. Eanes gostou de ver alguns dos seus discursos e intervenções sob a forma de livro, olhou para a prenda como uma brincadeira da família e da sua chefe de Gabinete, e deu o assunto por encerrado.

A opinião de Zita Seabra foi diferente e achou que seria um desperdício do trabalho de todos se o livro não chegasse ao público: “A vida política de uma pessoa só existe se existir um livro”, disse Zita ao Expresso nessa altura. Por isso tratou de convencer Manuela Eanes a persuadir o marido - homem avesso à exposição pública - a autorizar a publicação das 538 páginas de discursos e intervenções. O livro “Olhar o Futuro” chegou às bancas três meses depois do dia de aniversário do general: História Nacional, Política Internacional, Temas Militares, Cultura, Portugal, Ação e Reflexão Nacional , Ética e Moral e, por último, Gestão e Estratégia, são os temas abordados em oito capítulos.

Dois anos depois, a editora Âncora, apresenta o segundo volume de “O General Ramalho Eanes e História Recente de Portugal”, da autoria de Manuel Vieira Pinto, um ex-aluno do Colégio Militar que quis transformar a reforma num espaço de investigação produtiva: “Gosto de escrever sobre pessoas que não conheço pessoalmente, e não lhes pergunto nada. Só faço investigação documental, porque acho que se confrontadas, essas pessoas nunca diriam a verdade toda. Ou melhor, contariam a sua verdade”, disse o autor ao Expresso. “Encontrei-me uma vez com o general Ramalho Eanes, que me recebeu a pedido do coordenador da coleção Fim do Império onde estes dois volumes foram publicados. E este encontro foi para lhe comunicar que estava a trabalhar nos livros”, acrescentou Vieira Pinto.

Capa do 2º volume do livro de Manuel Vieira Pinto, da coleção Fim do Império da Âncora Editora

Capa do 2º volume do livro de Manuel Vieira Pinto, da coleção Fim do Império da Âncora Editora

DR

As cerca de 300 páginas do novo livro sobre Ramalho Eanes foram apresentadas esta quarta-feira, dia do 82º aniversário do general, no Museu do Combatente, pelo embaixador Francisco Henriques da Silva e por Sílvia Torres. É o 26º volume da coleção “Fim do Império”, uma iniciativa da Liga dos Combatentes, da Câmara Municipal de Oeiras e da Comissão Portuguesa de História Militar.

Fiel a si próprio, e à sua régia vontade de deixar o tempo e os documentos falarem sobre a sua ação na história recente do país, o ex-Presidente que em tempos idos frequentou os três primeiros anos do curso de Psicologia não compareceu no lançamento.

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