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Luaty Beirão continua a temer pela própria vida

Luís Barra

Em Bruxelas para falar da situação de Angola perante os deputados europeus, o ativista defende a presença de observadores internacionais nas eleições deste ano

Christiana Martins

Christiana Martins

em Bruxelas

Jornalista

“O meu nome é Luaty Beirão, cidadão angolano e também cidadão português” . Foi assim que o ativista começou a sua declaração perante os eurodeputados da Subcomissão dos Direitos Humanos, esta quinta-feira, em Bruxelas.

Chegou, de vermelho e acompanhado pela eurodeputada Marisa Matias, e aos jornalistas portugueses disse vir alertar a opinião pública para as mortes aos contestatários do regime de José Eduardo dos Santos. Luaty Beirão disse então que "em ano de eleições, há espaço para mais tensão, perseguições políticas e pressões que podem acabar em mortes".

“Eu continuo a temer pela minha segurança pessoal, mas o que é que a gente há de fazer? Enquanto estamos vivos, temos que saber lidar com esse medo e a cada passo temos de avaliar se o medo nos domina ou se nós o controlamos”, disse aos jornalistas presentes na capital belga.

Questionado sobre a possibilidade de a União Europeia enviar observadores internacionais para acompanharem as anunciadas eleições presidenciais, Luaty não mescondeu que isso seria desejável. "A UE parece disposta a fazê-lo, mas tem de haver um convite do Governo angolano, o que não aconteceu". Sublinhou que o regime diz que a democracia angolana está suficientemente madura para que tal medida não seja necessária, mas Luaty Beirão discorda e diz ser necessário o acompanhamento internacional.

Diz ainda continuar a temer pela própria vida e segurança pessoal, mas promete resistir: "Enquanto estamos vivos, temos de lidar com esse medo." Para concluir: "Enquanto não deixarmos que a alma se amesquinhe, vale à pena continuar a falar."

No discurso aos poucos presentes, Luaty Beirão lembrou sempre a sua dupla cidadania e pediu que fosse feita pressão do Parlamento Europeu sobre Portugal na utilização de dinheiros que possam não ter origens legais. "Às vezes, a Justiça portuguesa não parece tão independente assim", disse sobre a fiscalização da entrada de dinheiros angolanos na Europa, usando Portugal como porta de entrada para a a Europa, em resposta às perguntas da audiência.

No final, acabou por agradecer a Marisa Matias e Ana Gomes. E deixou um aviso: "Amanhã, preparem-se par um editorial no 'Jornal de Angola', a dizer que somos todos terroristas."

Luaty Beirão foi um dos 17 ativistas detidos em junho de 2015 por estarem juntos a ler e a debater o conteúdo do livro de Gene Sharp "Da Ditadura à Democracia", tendo sobrevivido a duas greves da fome, uma das quais de 36 dias.

Os jovens foram condenados a penas de prisão efetiva entre dois anos e três meses e oito anos e seis meses, por atos preparatórios para uma rebelião e associação de malfeitores e libertados a 29 de junho de 2016 por decisão do Tribunal Supremo, que deu provimento ao habeas corpus apresentado pela defesa, pedindo que aguardassem em liberdade o resultado dos recursos da sentença da primeira instância.

Foram depois abrangidos por uma amnistia, prevista numa lei aprovada pelo Parlamento angolano.

Em setembro de 2015, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução sobre os direitos humanos em Angola.

[Texto atualizado às 12h38]