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Política

Fazenda alerta para possíveis “condicionamentos em série” de Marcelo ao Governo

José Caria

Dirigente do BE considera que Marcelo Rebelo de Sousa “usa o cargo para influenciar a governação e para ter uma participação política ativa em paralelo com os partidos”, que essa tendência “vai acentuar-se” e que será “adverso a qualquer solução de um futuro Governo de esquerda”

O dirigente e ex-deputado do Bloco de Esquerda Luís Fazenda defende que o primeiro ano de Marcelo Rebelo de Sousa em Belém revela que o Presidente "usa o cargo para influenciar a governação e para ter uma participação política ativa em paralelo com os partidos", que essa tendência "vai acentuar-se" e que esse cenário pode levantar problemas. "A questão que se põe é a dos condicionamentos em série a um Governo minoritário que depende de partidos à sua esquerda na Assembleia da República. O caso da TSU, um verdadeiro bónus aos patrões, e que foi pretendido, inspirado e enaltecido por Marcelo, prova esta tese e anuncia mais casos", argumentou Fazenda num artigo de opinião publicado no site Esquerda.net.

Recordando que Marcelo "partilha com a direita, donde é oriundo, e com os socialistas, os designados 'compromissos internacionais'", Luís Fazenda diz que Marcelo "é em si próprio, um fator de neutralização de qualquer reivindicação junto à NATO, UE, FMI" e que irá servir de tampão ao Governo "para qualquer tentação de renegociar a dívida pública ou de alterar regras económicas no quadro europeu".

"As competências do Presidente da República estão claramente descritas na Constituição da República Portuguesa. Não consta nela uma espécie de poder executivo a meias com o Governo. Note-se que o executivo, feliz com a coabitação, assume essa cumplicidade em áreas como o sistema financeiro, banco a banco, fiscalização de riqueza, ou acordos sociais à moda do patronato, entre outras. Ora, o procedimento de um primeiro-ministro sombra não é uma mera crítica, mas um facto. Não foi certamente um lapso o Presidente comparar-se com a atividade pública de Merkel, essa sim chefe de governo, numa entrevista televisiva", criticou o dirigente bloquista, antes de acusar Marcelo de pretender impedir alternativas a PS e PSD na governação do país.

"O projeto marcelista, embrulhado na retórica de afastar a crispação, é o desejo de regresso à alternância dos partidos ao centro, a saudade dos liberais europeístas. Na essência, o Presidente das piadas, não nos acha piada nenhuma e é adverso a qualquer solução de um futuro governo de esquerda", escreve Fazenda, sustentando esta perspetiva nas palavras desta semana de Marcelo sobre a necessidade de os partidos não criarem impasses na vida política do país. "Aliás, dirigiu-se esta terça-feira ao Bloco de Esquerda, em termos que não lhe competem, exigindo que não cause impasses ao Governo e a "ele", pois claro. Agora que muita gente acha Marcelo um parente de serviço, convém chamar a atenção de que, por mais que o Presidente fale de estabilidade do atual Governo, não o faz de borla...", conclui Fazenda.