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Os “homens 
do Presidente” solitário

Marcelo é solitário e indomável. O marcelismo não existe. E Belém é, sobretudo, ele próprio. Mas há vozes que contam

Marcelo Rebelo de Sousa é um Presidente da República diferente e um primeiro sinal disso é a quase invisibilidade da sua equipa em Belém. Tirando Paulo Magalhães, o assessor de imprensa que, por isso mesmo, tem maior exposição pública, não se ouvem nem se fala dos restantes colaboradores de Marcelo. Belém é, sobretudo, ele próprio. E foi o próprio quem disse que não há fontes no palácio: “A única fonte sou eu.”

Ao contrário do que acontecia com anteriores chefes de Estado, quando, por exemplo, Alfredo Barroso fazia política pura e dura a partir da Casa Civil do então Presidente Mário Soares, o atual chefe da Casa Civil de Marcelo, é o cúmulo da descrição. Fernando Frutuoso de Melo é uma peça-chave na Presidência mas com um estatuto que faz dele mais um diretor-geral ou megachefe de gabinete do que um conselheiro político do Presidente. “Frutuoso de Melo é de um enorme bom senso e competência”, reconhece quem sabe. Organiza, distribui trabalho, coordena as várias assessorias, mas não entra na política pura.

Em boa verdade, mesmo os assessores políticos que Marcelo escolheu — António Araújo, que esteve com Cavaco, e Paulo Sande, especialista em questões europeias — não são da política dura. O Presidente reúne-se com todos uma vez por mês, ouve todos, fala regularmente com todos e telefona muito. Maria João Ruela é peça-chave a montar as ene iniciativas do Presidente nas áreas sociais. Isabel Alçada idem na Educação e Pedro Mexia na Cultura. José Augusto Duarte é vital na frente diplomática e Hélder Reis muito ouvido nas matérias orçamentais. Mas, no essencial, é Marcelo quem assessora Marcelo. Mesmo nas matérias jurídicas, como catedrático de Direito, o Presidente pensa por si.

Por natureza, sendo “uma mistura de um lobo solitário com uma personalidade indomável” (como o caracteriza um amigo), Marcelo não tem propriamente uma corte. Nem no Palácio nem fora dele. Mas há quatro vozes que o Presidente ouve regularmente. Tão regularmente que é raro o dia (ou a noite, altas horas) em que não falam.

Rita Cabral, namorada do Presidente há muitos anos, professora de Direito e que, diz quem conhece, “pensa muito bem”, é uma das vozes que Marcelo não dispensa. As outras são o velho amigo João Amaral, ex-jornalista e atual gestor na Associação Portuguesa de Editores e Livreiros; João Silveira Botelho, que está com Leonor Beleza (outra grande amiga) na administração da Fundação Champalimaud e que é lido no grupo como um caso de “inteligência superior”; e Marques Mendes, que foi líder parlamentar do PSD quando Marcelo liderou o partido, foi escolhido para conselheiro de Estado e continua a falar quase dia sim, dia sim, com Marcelo.

Nenhum deles quer falar deste papel de “homem do Presidente”, mas nenhum nega integrar o grupo. Todos são, muitas vezes, surpreendidos pela hiperatividade e repentismo de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas nenhum desiste do seu posto. Porquê? Porque, confessa quem sabe, se é verdade que Marcelo tem pouca pachorra para ouvir quem não tenha argumentos verdadeiramente sustentados para lhe apresentar (“quando isso acontece ele finge que ouve mas está ausente”), também é verdade que a solidão do Presidente não implica que não goste de ouvir opiniões. Pede-as, aliás, nas questões mais difíceis ou quando tem que tomar decisões complexas. “Nas questões de fundo, ele gosta sempre de trocar impressões. E chega até a mudar de opinião”, relata um conselheiro muito próximo, que acrescenta: “Claro que o momento da decisão de um político é sempre um momento de solidão. Mas Marcelo nem é o maior exemplo de solidão na hora de decidir”.

Nas questões do dia a dia, aí sim, Marcelo é absolutamente indomável. Ativo e imaginativo, vira a agulha (muda a agenda) vezes sem conta, guiado pelo instinto, pelo que vai nos media, pelo que marca a hora.