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Marcelo ao Expresso: “Um ano único. Além do que podia ter sonhado”

Rui Duarte Silva

Marcelo Rebelo de Sousa puxa pelo que correu bem no seu primeiro ano em Belém: “Guterres, o Euro, a Web Summit, o défice”

Marcelo Rebelo de Sousa já tinha prometido que seria um Presidente da República pragmático. Há um ano, quando no discurso de vitória na Faculdade de Direito de Lisboa declarou que “o povo é quem mais ordena”, o Presidente avisou: se o tempo é da esquerda, vamos a isso. Um ano após ter sido eleito, Marcelo avalia Marcelo em alta: “Foi um ano único”, afirmou ao Expresso.

Numa declaração a propósito do primeiro aniversário da sua eleição, que se assinala esta terça-feira, o Presidente da República diz que o ano “ultrapassou o que podia ter sonhado”. Mas mostra-se muito seletivo nos eventos que escolhe para ilustrar o sucesso: “Um ano único por causa de António Guterres, por causa do Euro, por causa da Web Summit e por causa do défice.” Marcelo deixa para o fim o que verdadeiramente dependeu do Governo das esquerdas. Ao fim de um ano de parceria (quase) imaculada com António Costa, o Presidente da República mantém-se solidário com o Executivo mas protege-se mais.

Voltando ao discurso de vitória de há um ano é fácil perceber porquê. “Temos que ser capazes de crescer de forma sustentada”, era a frase no topo do caderno de encargos que Marcelo Rebelo de Sousa apresentou na altura ao país. A seguir vinha “gerar emprego, corrigir injustiças sociais que a crise agravou, e fazer tudo isto sem comprometer a solidez financeira”. Com Portugal a sair da lista dos maus alunos da Europa por défice excessivo, o Presidente congratula-se com o sucesso das políticas orçamentais do Governo e omite o resto. O seu lema mantém-se: puxar pelo que correu bem e ajudar no que correu pior.

Descomplicar

Quando Marcelo chegou, estava tudo muito tenso e o Presidente ajudou a desdramatizar o inesperado xadrez político que deixara a esquerda no poder e a direita em estado de choque. Pôs-se ao lado do primeiro-ministro e deixou que este se colasse a ele, apostado em mostrar que Governo legítimo é Governo legítimo e todos têm que se adaptar. O PSD começou por engolir em seco mas foi-se adaptando. E Marcelo, descontraído, afável, próximo e positivo foi, simultaneamente, dando força a António Costa e amaciando Pedro Passos Coelho (dois encontros a sós num ano não é mau, face ao ponto de partida). Por azar, na hora de apagar as velas pelo seu primeiro aniversário em Belém, Marcelo vê o clima PSD/PS crispar-se como nunca. O segundo ano promete.

Portugal no mundo

Na frente externa, o Presidente da República foi ativíssimo. Fez 20 deslocações ao estrangeiro, sempre a puxar pelo país. Foi à Alemanha falar com Merkel quando se temia sanções a Portugal. Foi ao Parlamento Europeu puxar pela “Europa solidária”, foi a Paris proclamar, perante uma plateia de emigrantes, que “a França é um grande país mas nós somos melhores”, foi a Moçambique selar laços com a sua “segunda pátria”, foi à América Latina vender o mercado português, foi a Nova Iorque fazer campanha por Guterres
na ONU. O rosto mais visível da política externa portuguesa neste último ano foi o de Marcelo Rebelo de Sousa. O Governo, para já, não se queixa.

“Noção do fundamental”

Fazer de conta que não dá pelo que corre pior é um truque deste Presidente. Mesmo quando perde guerras em que se envolve. Foi assim nos contratos de associação na Educação, foi assim nos salários dos administradores da Caixa Geral de Depósitos, foi assim no fecho da Cornucópia, foi assim no acordo de concertação social que acaba de estoirar. Marcelo envolve-se em quase tudo, ao lado do Governo ou pressionando o Governo, e quando corre mal é rápido e hábil a sair de cena. “O que tinha a fazer sobre esta matéria, está feito”, afirmou esta semana sobre o acordo de concertação (o Governo que encontre a solução). A arte de desdramatizar ajuda a subir nas sondagens e faz com que a imagem de um país descrispado vá passando. Na semana passada, na receção de Ano Novo ao corpo diplomático, Marcelo ouviu do núncio apostólico: “A eleição de V. Exa. logrou o objetivo declarado de fazer sair o país do clima de crise, ajudando os portugueses a afirmar o seu amor-próprio, a sua sabedoria, resistência e a tão importante noção do fundamental”. Chega?

Marcos Borga

E os consensos?

Promover consensos foi neste ano um (quase) ato falhado do novo Presidente. Conseguiu pôr de pé um acordo de concertação social de que foi peça-chave mas, além deste mesmo estar por um fio, Marcelo não conseguiu qualquer aproximação PS/PSD, seja na Justiça, na Saúde, na Educação, na Segurança Social, sistema político ou banca. O ano de 2017, com autárquicas, ainda não será de acordos. E a nova fase de Passos Coelho – guerra é guerra – não augura para o Presidente nada de bom.

A boa notícia é que Marcelo tem quatro anos pela frente. E um Congresso do PSD já em 2018.

[Texto original publicado no Expresso de dia 21 de janeiro de 2017]