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Faria de Oliveira: nem pressões do Governo nem créditos de favor na Caixa

Luís Barra

O antigo CEO e chairman da Caixa nega que tenham sido autorizados “créditos de favor” ou tenha sido pressionado pelo governo Sócrates. Defende continuação da operação em Espanha e justifica as imparidades com a crise de 2008

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Faria de Oliveira, ex-presidente do Conselho de Administração e CEO (entre 2008 e 2011) e chairman da Caixa Geral de Depósitos (2011-2013) defende, em toda a linha, as opções tomadas enquanto dirigiu o banco, atribuindo os maus resultados desse período à grande crise financeira de 2008. O ex-responsável defendeu a opção estratégica de apostar fortemente em Espanha, explicou o disparar das imparidades da Caixa com a crise financeira internacional e negou que o banco tenha atribuído crédito por critérios de “favor”. “

“Em termos de ex-presidente da CGD, não sei o que é um crédito de favor”, respondeu secamente, quando foi questionado sobre essa matéria pelo deputado do PS João Paulo Correia.

Mais tarde, João Almeida, do CDS, tentou aprofundar o tema, levantando a questão das eventuais pressões do Governo, no tempo de José Sócrates, para que a Caixa aprovasse financiamentos relacionados com prioridades políticas. “Nunca tive [pressões]”, garantiu Faria de Oliveira. Mas reconheceu que havia “sensibilização” por parte do Governo em relação a determinados projetos. Nomeadamente feita pelo ministro da Economia, tendo em conta o que era considerado como um “projeto relevante”.

“É uma questão de sensibilização, que é normal e acontecerá sempre. Quando o banco é público esse tipo de diálogo tem ainda mais razão de ser”, disse o ex-presidente da Caixa. Porém, “nunca houve nenhuma indicação específica para conduzir uma decisão que fosse pressão. sensibilização sim”.

O deputado do CDS apontou a estranheza de uma série de “coincidências” entre opções políticas do Governo e financiamentos da Caixa - e deu exemplos como a Pescanova, o grupo Lena, ou Vale do Lobo -, mas Faria de Oliveira não saiu da sua”pressão não, “sensibilização sim”.

Luís Barra

A culpa foi da crise

O banqueiro lembrou que “2007 foi um ano de glória para o sistema bancário” e que entrou em funções no ano seguinte, quando começou a crise do subprime. Faria de Oliveira contou aos deputados que antes de se sentirem os efeitos dessa crise, propôs que fossem reforçadas as provisões do banco. O Governo de então recusou. “A resposta que eu tive foi que a Caixa estava completamente provisionada, que não podia ter provisões genéricas, que essa operação seria considerada reservas ocultas. A Caixa estava numa situação extremamente forte”.

Foi no contexto da crise pós-2008 que Faria de Oliveira explicou, por um lado, a quebra dos lucros e, por outro, o aumento das imparidades que o banco registou a partir daí. “As imparidades resultam principalmente deste fator, é de longe o fator que tem maior peso”, explicou aos deputados da comissão parlamentar de inquérito (CPI) à Caixa, referindo a crise do subprime. Apesar disso, sublinhou que “vivemos durante o meu mandato um período de gravíssima crise financeira internacional em que a banca portuguesa teve uma resiliência notável entre 2008-2010”.

Porém, acrescentou que o resgate financeiro da troika agravou a situação: com a paragem do investimento público, “todo o conjunto de empresas que trabalhavam com bens não transacionáveis viram-se com o mercado nacional praticamente estagnado e as empresas não aguentaram”.

Luís Barra

O problema não foi Espanha

Faria de Oliveira frisou que enquanto foi CEO do banco público manteve sempre “reuniões frequentes com o acionista”, através do ministro das Finanças [Teixeira dos Santos] e o secretário de Estado das Finanças, com quem manteve “um diálogo intenso sobre principais preocupações e principais projetos”, tendo sido delineado como principal objetivo da CGD “assegurar o financiamento da economia”.

Era esse, por exemplo, o racional de um projeto que ficou pelo caminho: “Por decisões de natureza política surgiu interesse desenvolver banco de investimento em Angola e Moçambique”, mas “esse projeto teve de ser interrompido em função da crise que aconteceu”.

O financiamento às empresas portuguesas foi também a grande justificação para a aposta em Espanha. “Tinha toda a lógica ter uma presença da banca portuguesa em Espanha”, explicou Faria de Oliveira, explicando que o mercado foi sempre muito lucrativo para a Caixa até final de 2010, quando a “bolha imobiliária em Espanha rebentou”. Mesmo depois disso, o responsável refere que o Banco Caixa Geral teve apenas 2 anos de prejuízo, e que a partir de 2014 tem retorno “francamente positivo”.

“Não faz sentido que não haja um banco português disponível para apoiar empresas portuguesas em Espanha”, defende Faria de Oliveira, assegurando aos deputados que “não foi a operação de criação do Banco Caixa Geral que provocou qualquer tipo de dano grave à Caixa.”