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Com Marcelo, 
o populismo é de centro

Jose Carlos Carvalho

Na era dos populismos radicais, Marcelo arrisca o populismo moderado. É a falar com o povo que conta manter-se em alta

Sempre que faz discursos contra os populismos (e fez vários), Marcelo Rebelo de Sousa soma aos populismos os radicalismos. Não o faz por acaso. Marcelo sabe que, consigo, a função presidencial é, antes de mais, um exercício populista. Só que, moderado e ao centro. Nunca para crispar ou dividir. Sempre (diz, desde o primeiro dia, a cartilha marcelista) para fazer pontes, sarar feridas e somar energias.

Uma coisa é certa: embora tenha batido todos os recordes em Belém nas audiências que concede a partidos, empresários, associações, banqueiros, sindicatos e afins, com divulgação prévia ou à margem da sua agenda oficial, o grande interlocutor do atual Presidente é o povo na rua. É essa a imagem mais marcante que fica deste Chefe de Estado. E não é certo que as frases mais marcantes que deixa e que mais vão moldando a sua imagem saiam dos seus discursos oficiais. Muitos dos flashs que se lhe colam à pele são dos contactos de rua. A imagem do Presidente descalço, em calções, a sair da praia depois de um banho gelado, é rara. Populismo, diz (mesmo no PSD, seu partido de sempre) quem não gosta. Mas vai continuar a ser assim.

Há dias, numa escola de Cascais, quando já tinha sido aconselhado a deitar água fria na agenda e a conter-se na exposição pública, o Presidente resolveu explicar-se. E não anunciou nenhum recuo. Pelo contrário. “O Presidente da República tem que estar próximo de todos os portugueses. Faz parte da função presidencial chegar a todos”, afirmou, “o Presidente tem que estar nos sítios, tem que ir o mais possível onde puder ir”. Ou seja, a promessa é ir mais, falar mais, abraçar mais, tocar mais. Uma espécie de “Presidente de todos os portugueses” lido à letra e puxado ao extremo.

PR monárquico?

A explicar este rumo estão duas coisas: a tendência natural de Marcelo Rebelo de Sousa (um comunicativo informal); e a certeza de que só a proximidade máxima das pessoas e a correspondente e confirmada subida nos índices de popularidade lhe garantirão, no futuro, um poder real e consistente para intervir de forma mais dura, quando, e se, for caso disso.

No primeiro ano de mandato, Marcelo foi cordato. Deixou avisos — ao Governo, sobretudo sobre a necessidade de acautelar as políticas económicas para pôr o país a crescer, e à oposição, sobre a necessidade de apresentar uma alternativa forte e clara. Mas nunca divergiu claramente, nem de Costa nem de Passos Coelho nem de nenhum outro líder partidário. Pelo contrário, tentou pacificar todos com todos e ele próprio com todos. Mas não é provável que consiga viver cinco anos assim. Se o clima social e político se complicar, o Presidente conta com os lucros que acumulou junto dos eleitores para, então sim, solitário, assumir o papel de gestor de crises.

Com crise ou sem ela, quem mais priva com Marcelo sublinha, no entanto, que ele tem “um entendimento da função presidencial que é mais monárquica”. É esse entendimento que o leva a pensar que “tem que colaborar com o Governo seja ele qual for”, por entender que “ser contra é a negação da função presidencial”. “Ele não é um Presidente que queira irritar os Governos ou as oposições, quer sobretudo ajudar a melhorar a imagem do país e assumir um populismo, chique, de centro, e à portuguesa”.

Quem conhece Marcelo do PPD-PSD antecipa que o “PR monárquico” não deixou de saber fazer sangue e que, se mais à frente tiver que coabitar com um Governo de maioria absoluta, facilmente assumirá o papel de contra poder.

O próprio Marcelo sinalizou poder ir por aí quando, ainda em campanha, confessou ver em Mário Soares uma inspiração. Deixou que aparecessem autocolantes a plagiar a frase símbolo da campanha soarista — Marcelo é fixe — e chegou a afirmar ao Expresso em plena campanha eleitoral: “No fundo, isto é uma campanha à Soares.” Se assim for, depois de um primeiro mandato a somar apoios á esquerda e à direita, Marcelo Rebelo de Sousa passará, sobretudo se tiver pela frente um Governo maioritário, para o lado da oposição.

Mas como Marcelo é diferente em quase tudo, os seus mais próximos conselheiros aconselham calma. “Ninguém consegue puxar para o seu lado este Presidente — toda a gente chega a ele facilmente, mas ninguém o consegue fechar num dos lados. Dito isto, o rei é Marcelo.” Aguardam-se as cenas dos próximos capítulos.

[Texto original publicado no Expresso de dia 21 de janeiro de 2017]