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Marcelo em cinco passos: à atenção do Governo e do PSD

As revelações sobre Costa, o que pensa do PSD, os impasses na política e um tabu. A primeira entrevista do Presidente que fala todos os dias tem guião para as esquerdas. E para Passos

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

Foi a primeira entrevista desde que ganhou as eleições presidenciais. Amigo de Costa, vigilante da oposição, pacificador da sociedade, Marcelo Rebelo de Sousa já pensa na reeleição. O que quis o Presidente dizer-nos?

As revelações sobre Costa

Foi uma entrevista de forte apoio ao Governo, mas também de algumas revelações sobre António Costa que fez questão de sublinhar. Na SIC, Marcelo explicou que o primeiro-ministro queria fixar "unilateralmente" o aumento do salário mínimo nacional e que foi por sua pressão que fez esforços para um acordo de concertação social em torno desta matéria. O acordo estás prestes a rebentar por uma coligação de vontades do BE, PCP e PSD, mas o Presidente não desiste. Quer plano B, quer que se mantenha um acordo de longo prazo entre patronato e sindicatos. Outra revelação? Sobre a polémica da declaração de interesses dos gestores da CGD ser pública ou não e que levou à demissão de Anónio Domingues, Marcelo foi taxativo. Assumiu que em algum momento ele próprio ou mesmo o primeiro-ministro tiveram dúvidas sobre isso. "E falámos 'n' vezes sobre isso", sublinhou. Surpreendente, no mínimo. Mas fica o apoio, o cuidado nas críticas que quase não existiram ao Governo socialista, o desejo de que dure a legislatura toda.

Esquerdas devem fortalecer Governo

Assumiu que um dos grandes objetivos, como se sabia, do seu mandato era a pacificação e a pedagogia para que a solução de Governo de Costa, que derrubou ao fim de um mês o Governo de Passos no Parlamento, pudesse ser aceite. Contou que a pergunta que mais vezes lhe fizeram no início de 2016 era a de quando iria convocar eleições. Segundo Marcelo, a interrogação vinha mesmo de governantes e investidores estrangeiros ("Se os bolcheviques já tomaram conta do Palácio de Inverno"). Com o tempo, a dúvida dissipou-se. Sem querer comentar as matérias que mais dividem os partidos da geringonça e como "otimista realista" que diz ser, o Presidente prefere ver o lado positivo de todas as situações. E, por isso, destacou as matérias de política externa, a defesa, as questões orçamentais e a saúde. "Não se pode ser fixista e pensar que há impasses sistemáticos", insistiu.
Deixou, porém, um alerta: "O Governo deve ser forte e isso não depende do Presidente, mas dos parceiros do Governo".

Apesar de tudo, um PSD estável

Marcelo fugiu a falar diretamente sobre o PSD, o partido que liderou entre 1996 e 1999, e sobre Pedro Passos Coelho. Não quis comentar se o PSD fazia bem em adotar a nova política de se aliar ao PCP e BE quando estes quiserem reverter medidas do Governo no Parlamento. Mas deixou um desabafo que pode dizer tudo sobre como está a ver essa estratégia: "Não sejamos pessimistas".
O Presidente quer estabilidade, estabilidade no Governo, nos partidos e nas lideranças. Passos pode confiar, então, que Marcelo não o quer empurrar para fora da presidência do PSD. Aliás, pela primeira vez, disse que gostava que a liderança do PSD se mantivesse intacta durante toda a legislatura. "É fundamental ter uma oposição muito forte, que seja alternativa. É sempre preferível ter dois termos de alternativa. O pior para um Presidente é se um deles não correr bem e não ter um termo alternativo", ficou o alerta.
Não se percebeu, porém, como acha que o bloco Governo e o bloco oposição se podem entender, numa altura em que a crispação política voltou com força.

Marcelo por Marcelo

Talvez um pouco desconfortável com a ideia de que as pessoas podem vir a cansar-se da sua hiperatividade, Marcelo tratou de explicar por que se move Marcelo. "O Presidente quer prevenir conflitos, intervindo, estabilizando. É o preço da intervenção estabilizadora", explicou. Esta foi uma das explicações. Mas há outra, no fundo, Marcelo não esconde a sua apetência pelo poder não apenas moderador mas executivo, ao comparar-se com o Presidente Obama, a chanceler Merkel e Theresa May, a primeira-ministra britânica. "Eles também falam todos os dias". Uma nota que esconde a verdade?
Certo é que Marcelo já pensa na recandidatura e tinha mesmo na ponta da língua a resposta para essa pergunta. Gostava que o sistema eleitoral permitisse um só mandato presidencial e seis ou sete anos. Como não há, vai dizer até setembro de 2020, se tenciona candidatar-se. Se contarmos os meses, não é muito longe da distância que Cavaco se impôs a si próprio em 1995 quando criou o grande tabu da política portuguesa.

À espera da Economia

Continua a ser a grande preocupação. "Veremos se o caminho alternativo correspondeu às expetativas", avisou, lembrando vários discursos deste quase um ano de mandato. No da posse, vincou as diferenças do modelo de crescimento de Centeno para o de Vítor Gaspar. Mais recentemente, como frisou, "exigi na minha mensagem de Ano Novo uma reflexão séria para haja um crescimento muito maior", disse.

Mas, mais uma vez, assumiu-se como aliado do Governo em resolver os problemas da banca e elogiou o défice do ano passado que, pelas suas contas, ainda pode ficar em 2,2%, abaixo do valor histórico anunciado na semana passada por Costa, no meio do turbilhão da TSU.