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Eleições na CIP 
e na UGT abrem críticas internas

Carlos Silva, secretário-geral da UGT

NUNO FOX / Lusa

Carlos Silva e António Saraiva preparam novo mandato, mas crise da TSU abre feridas antigas

Os líderes da UGT e da Confederação da Indústria estão a braços com dois desafios simultâneos: conseguirem segurar o acordo de Concertação Social que acabaram de assinar e aguentar as críticas internas que começam a surgir. Em vésperas de novas eleições, António Saraiva e Carlos Silva confiam numa reeleição, mas com risco de perder apoios internos.

Há três anos, António Saraiva conseguiu entrar no segundo mandato à frente da CIP com 81% dos votos. Isto apesar de, nas vésperas das eleições, os quatro ex-presidentes da Confederação da Indústria se terem unido nas críticas ao novo dirigente por Saraiva ter subscrito o Manifesto dos 70, que apelava à necessidade de reestruturar a dívida portuguesa. O quadro tende a repetir-se agora. As eleições dos novos corpos dirigentes da CIP ocorrem no próximo mês e já Ferraz da Costa, o antigo presidente da organização, vem a público arrasar o acordo de Concertação Social, assinado esta semana pelos parceiros sociais, e que aceita o aumento do salário mínimo em troca de uma redução da TSU.

Num artigo publicado no Caderno de Economia (ver pág. 36), Ferraz da Costa explica como o acordo foi “arrancado a ferros” junto das confederações patronais, pela simples razão de que “para as empresas a redução da TSU é temporária e o aumento de salários tem efeitos perversos por largos anos”. Aliás, o crescimento do salário mínimo “tem efeitos de arrastamento sobre o nível salarial geral”, numa altura em que os vencimentos “já estão a aumentar acima do crescimento do produto e a produtividade está a diminuir”.

No artigo não se menciona sequer o nome de António Saraiva, mas a crítica acerta-lhe em cheio. O líder da CIP teve uma papel central como mediador e negociador de bastidores para alinhavar o acordo de Concertação e, por isso, a quebra do compromisso pode ter um efeito de ricochete. Além disso, sem a compensação direta de uma baixa da TSU, as empresas podem ter de suportar sozinhas o aumento do salário mínimo até aos €600. O que não estava previsto.

UGT decide em março

Para a UGT a decisão da liderança já tem data marcada: 25 e 26 de março, no Porto. Carlos Silva resistiu a entrar na corrida a um segundo mandato, não escondendo o “desgaste” e o “cansaço” que a gestão da central sindical lhe acarretou. Nos primeiros anos à frente da UGT enfrentou críticas diretas do antigo dirigente sindical, Torres Couto, e uma vaga de críticos internos a quem desafiou a “saírem da toca”.

Só em outubro, Carlos Silva aceitou dar, de novo, o corpo às balas. “Eu preferia não ser candidato, mas uma coisa é a minha preferência e outra coisa é a realidade e eu não viro costas à luta”, disse no final do congresso da tendência socialista da UGT que lhe deu força para se recandidatar. Mas os problemas internos não desapareceram e mesmo os equilíbrios internos com os sociais-democratas tendem a agravar-se com o atual problema da TSU a resolver no Parlamento contra o acordo assinado na Concertação.

Carlos Silva garante que tem sentido o apoio da direção da central sindical. “Estamos unidos e coesos”, afirmou ao Expresso. Mas a pressão para uma mudança de posição exercida sobre Pedro Passos Coelho “criou uma situação complicada para os sindicalistas sociais-democratas”, assume o próprio líder da UGT. O tempo pode agravar as feridas. “Se o PSD mantiver esta posição de força podemos ter problemas internos”, acrescentou.