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Trump ‘andou’ por Braga

LUCILIA MONTEIRO

Durante dois dias, 40 especialistas e investigadores oriundos de 15 países reuniram-se para debater, na Universidade do Minho, a Mentira e Hipocrisia na Política e Vida Moral ao longo dos tempos. Na era da ‘Pós-Verdade’, a escolha do uso da mentira na política como tema não podia ser mais atual. Trump, paladino da banalização da mentira à revelia dos factos, ‘andou’ por Braga

Isabel Paulo

Isabel Paulo

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Jornalista

Lucília Monteiro

Lucília Monteiro

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Quando há cerca de um ano o Grupo de Teoria Política do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho (CEHUM) elegeu o uso da mentira e da hipocrisia na política como tema central do colóquio anual 'História da Filosofia Moral e Política', realizado no Campus de Gualtar, em Braga, quinta e sexta-feira, não adivinhava que o termo 'pós-verdade' seria escolhido como a palavra do ano 2016.

“Não sabíamos que a pós-verdade' iria dominar o comentário político, como veio a acontecer, mas já se pressentia que o recurso a informação enganadora na política estava em ascensão nas redes sociais com consequências imprevisíveis”, sustenta Pedro Martins. Após dois dias de intervenções e debates intensos, o investigador do curso de Filosofia e da CEHUM refere que a conclusão geral do colóquio aponta para “algo de novo na mentira política, assente em argumentos que contrariam factos científicos comprovados, como é o caso do aquecimento global, negado por Donald Trump”, afirma o docente.

Ao Expresso, após o encerramento do colóquio que trouxe a Braga especialistas em ciência política de países como a Índia, Venezuela, Turquia ou EUA, o coordenador da iniciativa evocou a intervenção de Ruth W. Grant, investigadora e professora da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, que sustentou a tese sw que a maior diferença do uso da mentira na campanha eleitoral americana residiu na sua banalização “à prova de factos”, a par da aceitação dos políticos que mentem, mesmo quando apanhados em falso. A guerra em curso contra os factos, a que aludiu Barack Obama no discurso de despedida na passada semana.

LUCILIA MONTEIRO

Embora o colóquio tivesse um ponto de partida mais filosófico sobre a mentira e a hipocrisia e o seu uso e abuso em diferentes contextos históricos, no auge da pós-verdade e do descrédito da campanha eleitoral nos EUA, o triunfo Donald Trump pairou como uma assombração bem real ao longo dos dois dias no Campus de Gualtar.

Pedro Martins aponta ainda como segunda mensagem da intervenção da investigadora norte-americana e docente da Universidade de Duke a aceitação dos políticos que mentem, mesmo apanhados em falso, “situação preocupante no sentido em não se sabe como lidar e lutar ela”. “Se a retórica, a demagogia e hipocrisia são inseparáveis da atividade política desde a democracia ateniense, a mentira é mais grave e deve ser combatida”, diz, embora lembre que a temática do uso da mentira na política não é pacífica, estudada e abordada por grandes filósofos, de Platão a Kant, de Rousseau a Maquiavel ou Max Weber.

Em tempos de crise mente-se mais

As relações entre a astúcia, a hipocrisia e a moral na política nunca foram transparentes nem lineares, mas o investigador italiano Giuseppe Ballacci frisa que é nos tempos de crise que se mente mais, quer para conquistar o poder, como para o manter, mesmo em regimes democráticos em que o que mais conta é agradar aos eleitores. “O uso da mentira como fenómeno de manipulação tem tendência a crescer e a encontrar eco numa época de novos populismos, de política dura, em que a verdade é usada para se conseguir um fim próximo ou imediato”, defende Ballacci..

LUCILIA MONTEIRO

O investigador, que integra há seis ano o Grupo de Teoria Política da UMinho, não tem dúvidas de que “quanto maior é o conflito e mais polarizadas são as opiniões mais difícil é chegar a uma verdade comum, à realidade factual”, acrescenta, sobretudo, quando o acesso global à internet potencia a difusão sem barreiras ou fronteiras numa sociedade “que atravessa clivagens profundas”.

Ballacci sustenta a propósito a polémica suscitada pelo seu conterrâneo Umberto Eco, quando afirmou ter sido um equívoco pensar-se que a internet seria um espaço para partilhar e difundir conhecimento: “O que aconteceu na realidade foi dar lugar a que multidões de gente imbecil pudesse falar no espaço público.” O docente da UMinho não vai tão longe, mas não deixa de conceder alguma razão a Eco, ”quando é notório que a multiplicação não é sinónimo de melhor informação”.

“Com as redes sociais, há um apelo cada vez maior à emoção, no sentido mais negativo, incitando-se através de meias verdades ou dados fictícios o cidadão a criar grupos de amigos contra os inimigos”, refere.

A tese da polarização entre grupos - “eles, o inimigo, e nós, os amigos” - foi de resto defendida no decurso do colóquio por José Luis Ventura-Medina, da Universidade Central da Venezuela, na sua intervenção, “Mentiras e Populismo: O que a Europa pode aprender com a revolução venezuelana”.

Ventura-Medina lembrou que o candidato Hugo Chávez afirmou em 1998 que Cuba era uma ditadura, mas em 2002 “Fidel era seu irmão e Cuba uma democracia, porque era eleito. Na sua última campanha disse que tinha curado o cancro e poucos meses depois morreu. Chávez mentiu e não perdeu o apoio popular”, referiu em Braga, concluindo que as pessoas partem da premissa de que os políticos mentem, sem que isso afete a sua popularidade. “Recordam-se que Clinton disse que não tinha mantido relações sexuais extraconjugais? Não aconteceu nada, nem perdeu popularidade”, referiu o docente.

Apesar de todos os perigos da internet e do presságio que as redes sociais irão matar o jornalismo clássico, Pedro Martins defende que nem tudo é mau na era do digital, já que as mesmas ferramentas que facilitam a publicação de notícias falsas também permitem um maior escrutínio, uma das causas do descrédito das elites políticas. “O jornalismo perdeu parte da sua autoridade junto dos leitores, mas julgo que será insubstituível, porque pressupõe uma ética no tratamento com as fontes e imparcialidade que não existe nas redes sociais, uma realidade recente sobre as quais não se pode ter uma atitude fechada. Será necessário algum distanciamento para ser feita uma análise mais profunda”, conclui o coordenador do colóquio.

À questão se Donald Trump é uma espécie de Príncipe de “Maquiavel” da era das redes sociais, Giuseppe Ballacci responde que “isso seria dar demasiada importância ao Presidente dos EUA como político e pensador e retirar mérito a um dos grandes pensadores da política”. “Maquiavélico é uma certa caricatura de maquiavelismo, daí que se possa dizer que Trump é maquiavélico”. O investigador da UMinho observa, contudo, que Trump está “a jogar muito bem” com os medos e ceticismos da sociedade americana e ocidental, em crise de confiança no presente e futuro. “Para Trump, na política o importante é o resultado imediato, os cálculos instrumentais para conseguir um fim de um dia para outro”.