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República Centro-Africana: 28 capacetes azuis mortos em três anos. Os Comandos estão a chegar

QUARTEL-PORTUGUÊS. Os militares portugueses (160) ficarão instalados junto ao aeroporto de Bangui, capital da República Centro Africana, onde em 2015 (últimos dados disponíveis) residiam quase 800 mil pessoas

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127 militares portugueses viajaram na madrugada desta terça-feira para a República Centro-Africana, um país tomado de assalto por uma guerra civil desde dezembro de 2012. Levaram consigo dezenas de veículos e armamento para, ao serviços das Nações Unidas, desbravar os caminhos da paz

Carlos Abreu

Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

infografia

Infografico

Deixam para trás um país à mercê de uma massa de ar polar mas terão de enfrentar uma máxima de 38 graus. Coisa pouca a comparar com o ambiente de insegurança que assola a República Centro-Africana onde aterram esta terça-feira os militares portugueses, com especial destaque para os comandos, que vão apoiar a Missão Integrada Multidimensional de Estabilização das Nações Unidas, a Minusca.

Ocuparão as instalações deixadas vagas por militares franceses em outubro, junto ao aeroporto da capital, Bangui, constituindo-se como força de reação rápida da componente militar da Minusca podendo intervir em qualquer região do país durante um ano, renovável por idêntico período.

De acordo com a informação entregue aos jornalistas pelo Estado-Maior do Exército, esta força, composta por 160 militares, dos quais 90 são Comandos (na próxima madrugada seguem 127 que permaneciam em Portugal), foi treinada e equipada para executar operações de combate, patrulhas de segurança, vigilância e reconhecimento de área, proteção de infraestruturas ou áreas sensíveis, proteção de entidades ou forças, escoltar colunas de viaturas e executar operações de cerco e busca. O destacamento português integra ainda quatro controladores aéreos avançados da Força Aérea para dirigir, no solo, ações de aeronaves em apoio aéreo próximo e helicópteros de ataque.

Os restantes 66 militares estão distribuídos pelo destacamento de apoio (constituído por especialistas nas áreas dos serviços, transmissões, apoio sanitário, manutenção, entre outras, parte dos quais já se encontram na tórrida Bangui), mas também pelo comando da força portuguesa (a cargo do tenente-coronel Musa Paulino, de 42 anos) e pelo Estado-Maior da Minusca (comandada pelo tenente-general senegalês Balla Keïta).

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Para cumprir as missões que lhes forem entregues pelo general Balla Keïta – que terão, genericamente, como principal objetivo “contribuir para a estabilização da segurança e controlo do território da RCA por parte da autoridade do Estado” – os Comandos portugueses terão ao seu dispor diversos tipos de viaturas e armamento.

Entre as dezenas de viaturas que seguiram por via aérea para Bangui, destacam-se os Land Rover Defender 130 TD4X4, designados por Commando Assault Vehicle (CAV), e as High Mobility Multipurpose Wheeled Vehicle (HMMWV). No gigantesco Antonov 124 fretado pela ONU para o efeito, estão ainda a ser transportados entre Lisboa e a capital da RCA os clássicos Unimog, de transporte geral, e diversos atrelados de campanha (cozinha, padaria, lavandaria, banhos, latrina, tanque de água). Em matéria de armamento, da listagem dada a conhecer constam a eterna espingarda automática G-3 (7,62mm), a metralhadora ligeira H&K MG4 (5.56mm) e a metralhadora pesada Browning M2 (12,7mm) que poderá ser montada nos CAV e nos HMMWV.

E quanto é que tudo isto vai custar? 12 milhões de euros por ano, disse ao Expresso fonte oficial do gabinete do ministro da Defesa (20% da dotação para as Forças Nacionais Destacadas em 2017 que é de 58 milhões de euros).

Azeredo Lopes, na Serra da Carregueira, com os Comandos que viajaram para a RCA

Azeredo Lopes, na Serra da Carregueira, com os Comandos que viajaram para a RCA

António Cotrim / Lusa

Na noite segunda-feira, o ministro da Defesa foi ao Regimento de Comandos, na Serra da Carregueira, para se despedir dos 127 militares que pelas 5 horas desta terça-feira descolaram de Figo Maduro, o aeródromo militar de Lisboa. Amanhã, quarta-feira, dia 18, pelas 9h, o governante deverá dar conta aos deputados da Comissão de Defesa Nacional das eventuais alterações no nível de risco a que estão sujeitos os militares portugueses. Avançaram com este pedido de audição os deputados João Rebelo (CDS-PP) e Bruno Vitorino (PSD) depois de ter sido noticiado um relatório do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) que desaconselharia, por razões de segurança, o envio de militares portugueses para um país onde não teríamos interesses estratégicos.

Quatro anos de guerra

A Guerra Civil grassa na República Centro-Africana desde há quatro anos. Foi em dezembro de 2012 que começou o conflito entre a coligação rebelde Séléka, que reúne vários grupos muçulmanos, e o Governo do então Presidente François Bozizé. Os Séléka (que significa “união” em idioma sango) acusavam o chefe de Estado de não honrar acordos de paz assinados em 2007 e 2011. A França e a União Europeia enviaram soldados para a República Centro-Africana em 2013.

Apesar de apoiado por tropas do Chade, Gabão, Camarões, Angola, África do Sul, República Democrática do Congo e Congo-Brazzaville, Bozizé foi derrotado (não sem antes se ter disposto a aceitar um Governo de unidade nacional e um acordo de cessar-fogo que não durou) e fugiu do país, permitindo que o líder dos revoltados, Michel Djotodia, se proclamasse Presidente. Acabaria reconhecido a título transitório pela comunidade internacional, enquanto o seu antecessor era acusado de crimes contra a Humanidade e incitamento ao genocídio. Djotodia demitiu-se em 2014, tendo sido substituído por Catherine Samba-Panza, à época autarca da capital, Bangui, e vista como neutra na guerra.

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Em junho desse ano houve um cessar-fogo, mediado pelo Congo, de novo efémero. Há quem defenda a divisão do país para criar dois Estados, um cristão e outro muçulmano, face à eternização do conflito entre os muçulmanos Séléka e as milícias antibalaka, de tendência cristã. Em 2015, uma conferência de reconciliação nacional também não resolveu o conflito. Em outubro do ano passado, a violência ressurgiu e a França anunciou o fim da sua missão de manutenção da paz.

Há relatos da Amnistia Internacional sobre massacres de civis, utilização de crianças-soldados, violações, torturas, assassínios extrajudiciais e desaparecimentos forçados. As armas circulam pelo país, vindas de todas as partes do mundo, segundo um relatório feito para a União Europeia pelo Britain Conflict Armament Research Group. O documento informa que é mais barato comprar uma granada de mão do que uma Coca-Cola. Reina a anarquia e os mortos cifram-se aos milhares, embora não haja valores fiáveis. A guerra civil terá já gerado mais de 700 mil deslocados internos e quase 300 mil refugiados.