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A morte e Mário Soares, do humor à confiança

joão carlos santos

Quinta e última das pequenas histórias que esta semana dedicámos a Mário Soares. Hoje veremos como o Presidente brincava com a sua própria morte e com a sua condição de andarilho laico, embora tenha sido ele a estar na primeira linha da defesa da Igreja Católica quando esta foi atacada durante o PREC com a ocupação da Rádio Renascença

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

Sabem qual é a diferença entre Deus e Mário Soares? – eis uma pergunta que deixava o Presidente sempre bem disposto. A resposta era: Deus está em toda a parte e Mário Soares já esteve.

Viajador incansável, um dia numa viagem atribulada (na qual aliás se riu enormemente de uma anedota que Miguel Sousa Tavares lhe contou quando sobrevoávamos a Ásia e que por ele a contar amanhã na sua crónica não a vou revelar), demos a volta ao mundo. Ao sair de Frankfurt com destino a Banguecoque um raio atingiu o avião, houve um poço de ar e foi um sarilho entre os passageiros, o que aliás obrigou o médico que o acompanhava, Daniel de Matos, a trabalho redobrado. Ao aterrar-se em Banguecoque Soares achou que toda a gente estava com ar de ter dormido mal. Salvo erro, foi também o Miguel que lhe disse que o avião parecia um pandemónio e que tínhamos apanhado um susto dos grandes. Responde Soares, com um sorriso:

- Ó Miguel, tinha medo que o avião caísse? Comigo cá dentro?

Este era Mário Soares, simultaneamente positivo e desafiante, sem nunca mostrar medo do que quer que fosse. Brincando com qualquer situação. Do mesmo modo que se lançava ao mar e nadava para longe, tão longe que os elementos da segurança temiam por ele (pois não tinham conhecimentos de natação e, se calhar, nem fôlego, para tais distâncias), gritando-lhe, implorando-lhe que voltasse para trás e ele fazendo ouvidos de mercador…

“Quanto e se eu morrer”

Era o homem que, sabendo-se mortal como todos, gostava, por brincadeira, de citar a frase “Quanto e se eu morrer”. Adorava também uma anedota sobre ele próprio que estes dias recordei com um seu assessor. A história é mais ou menos assim (e sublinho que é uma anedota, antes que a confusão de quem lê a correr pense que foi algo verdadeiro).

Soares pede aos assessores que explorem a hipótese de, quando morrer, ser trasladado para o Santo Sepulcro. Os assessores, claro, perante tão estranho pedido, dizem que tal é impossível. Mas Soares insiste: não devemos desistir assim, têm de ir a Jerusalém e perguntar.

Os assessores lá vão e regressam com a resposta esperada: É impossível, senhor Presidente, eles nem levam a proposta a sério. Riram-se na nossa cara.

Mas Soares não se dá por vencido. Por acaso, interroga, disseram que isto era para ser uma operação secreta e que envolvia um pagamento generoso para as obras que eles entendessem? Não, os assessores não tinham falado de contrapartidas. Veem? Interroga Soares, fizeram mal o trabalho, têm de voltar lá e colocar estas contrapartidas.

Os assessores voltam a Jerusalém e no regresso trazem novidades. De facto, senhor Presidente, eles aceitam com duas condições. Soares saboreia o triunfo e pergunta que condições.

- A primeira é ficar tudo no segredo mais secreto.

- Claro, concorda o Presidente. Nem eu pensava de outra forma. E a segunda?

- A segunda é que tem de doar 100 milhões de dólares!

E aí Soares fica estarrecido e responde:

- O quê? 100 milhões por apenas três dias?

Saber rir de si próprio

Estas histórias, como se imagina, dão elas próprias uma imagem caricatural de Mário Soares. Porém, ao querer divulgá-las e relatar como ele próprio as gostava de ouvir, faço, do meu ponto de vista, a maior homenagem a um grande homem. Na verdade, só quem se sabe rir de si próprio, das suas idiossincrasias, dos seus defeitos, das suas manias, pode ter aspirações à única imortalidade que se conhece: a de ficar na História.

Obrigado, Mário Soares.

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