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Soares foi da Maçonaria? Sim e não…

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Quarta de cinco histórias sobre a vida de Mário Soares. Hoje sobre a sua relação com a Maçonaria e da sua Maçonaria com a nossa Maçonaria e da sua pessoa com os nossos maçons, de como ele se entediava de morte com tudo isso e de como alguém pagou por ele as quotas em atraso

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

Soares foi da Maçonaria? Sem dúvida? E foi maçon? Sobre esta segunda pergunta a doutrina divide-se. Há os que pensam que basta ter sido iniciado numa Loja Maçónica para se ser maçon; e há os que pensam que ser maçon é ter uma vivência e uma permanência na maçonaria, não apenas ter sido iniciado. Digamos, em linguagem mais corrente, que Mário Soares é como aquelas pessoas que são batizadas, mas não são praticantes.

No fundo, qual é a história?

Que Soares estava rodeado de maçons em Portugal (dos poucos que sobreviveram ao decreto que a extinguiu em 1935 e trabalharam clandestinamente) é claríssimo. No entanto, foi preciso esperar pelo ano de 1972, tinha Mário Soares 47 anos, a caminho dos 48, para que o convencessem a entrar na organização. Esse papel coube a Atilano dos Reis Ambrósio, que usava o pseudónimo literário de Jorge Reis e tem como romance mais famoso “Matai-vos uns aos outros”. Reis vivia em Paris, onde aliás faleceu há pouco mais de um ano, estando enterrado no cemitério do Père Lachaise, mas mantinha uma casa em Cascais. Militante do PCP nos anos 40, como Soares, exilou-se em Paris depois de se desligar do PCP e entrou na Grande Loja de França, a mais ritualística e rigorosa que pratica o Rito Escocês Antigo e Aceite e o Rito Escocês Retificado. Foi para uma Loja do Rito Escocês Antigo e Aceite que Reis levou Soares: Les Compagnons Ardents, na qual foi recebido como Aprendiz e, depois, elevado a Companheiro, ainda antes do 25 de Abril.

O percurso de Jorge Reis afastá-lo-ia, mais tarde, de Soares. Aquele tinha uma amizade que chegava à veneração a Vasco Gonçalves, primeiro-ministro pró-comunista de quatro governos do PREC (1974-1975), contra o qual Soares mobilizava todo o país e, em especial, os socialistas.

“Era muito maçador...”

Durante a sua permanência na Grande Loja de França Mário Soares convidou a entrar um amigo, que havia de ser seu ministro da Cultura – António Coimbra Martins, atualmente à beira de fazer 90 anos. Porém, a sua própria adesão aos ideais e rituais maçónicos nunca foram entusiasmados. “Era muito maçador e não correspondia a nada do que eu pensava ser”, disse-me um dia. “Mas não tenho nada contra os maçons, a começar pelo meu filho e por ti, que também és”.

E sou. É sabido. Por isso posso continuar a história com algum conhecimento.

Após o 25 de Abril e por interferência de outras pessoas, que nada tinham a ver diretamente com Soares, a Grande Loja de França (GLDF) foi fundamental no restabelecimento ritualístico e organizativo do Grande Oriente Lusitano. Curiosamente, o tempo encarregou-se de tornar o GOL mais próximo do Grande Oriente de França (GODF) do que da GLDF, mas Soares jamais teve a ver com o GODF. Por seu lado, o GOL manteve sempre relações com as duas organizações francesas.

Com 39 anos de clandestinidade, quase todos eles dirigidos por Luís Rebordão (1937-1975), após o afastamento do último Grão-Mestre do GOL não clandestino, Norton de Matos, foram-se perdendo práticas ritualísticas e simbólicas. Rebordão, que conta, mais tarde, com o apoio do médico Dias Amado (também ligado a Soares) e ainda de outros maçons ilustres como Álvaro de Athayde (o cirurgião de Salazar) ou Adelino da Palma Carlos (o primeiro primeiro-ministro depois do 25 de Abril), entre outros, passa o testemunho justamente a Dias Amado (1975-1981) que consegue o apoio da GLDF para refazer os rituais, nomeadamente nas iniciações e nas passagens a Mestre que, devido à complexidade das respetivas cerimónias, eram difíceis ou impossíveis de realizar em clandestinidade, utilizando-se, nessa altura, sobretudo as chamadas ‘passagens administrativas’ (ou seja, sem provas e sem ritual).

Soares, um “Companheiro adormecido”

Porém, na altura, o ‘Companheiro’ Soares já se desligara totalmente da organização estando, como se diz na Maçonaria, ‘adormecido’. O contacto só volta a ser estabelecido nos anos 90, quando era Presidente da República. A determinada altura, a GLDF decide entregar-lhe uma medalha e, simultaneamente, aumentar o seu grau administrativamente para o 4º do Rito Escocês Antigo e Aceite (o primeiro dos altos graus escoceses, o que tornou Soares numa espécie de Mestre Maçon honorário). A decisão e a carta que a acompanhava foi do Grão-Mestre da GLDF da época, Jean-Louis Mandinaud, que a fez chegar a Portugal via uma Loja do GOL que tinha particulares relações com aquela organização maçónica francesa.

Soares recebeu, então a carta e a medalha, que lhe foram entregues por Luís Nunes de Almeida, juiz do Tribunal Constitucional, e presidente da loja contactada pelos franceses, acompanhado do então Grão-Mestre do GOL, João Rosado Correia, que fora ministro do Equipamento Social do governo do Bloco Central, chefiado por Soares.

Além da medalha, havia uma pequena dívida a pagar à GLDF. Mas Soares nunca soube dessa parte. Nunes de Almeida, abriu os cordões à bolsa e pagou-a – gesto que foi do conhecimento de pouca gente.

Não sei se esta verdade é incómoda, desmente ou confirma preconceitos, desilude quem acreditou em mitos ou qualquer outra coisa. Sei que este foi o percurso de um homem, que apesar de achar as reuniões da Maçonaria entediantes, no essencial, procedeu de acordo com os seus valores.

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