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Os repentes do Furacão Liberdade

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Terceira das cinco histórias sobre a vida de Mário Soares. Hoje sobre a sua liberdade e o modo descontraído de fazer campanha

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

Há inúmeras histórias para contar. Desde a distração que o levou a quase beijar um cauteleiro, à imprecação acerca do sindicalista que lhe chamou todos os nomes, passando pelo desperdício da peixeira que lhe atirou com um peixe à cara ou pela confusão entre as diversas terras que se chamam Oliveira.

Mas há só uma constante: ele era um furacão político desconcertante e nunca se desconcertava. Tinha uma liberdade interior que o impedia de ser politicamente correto e que fazia corar homens contidos como Cavaco; analisava os outros com um humor que, porventura, hoje seria considerado excessivo, mas que para ele, que aprendera com os velhos, não tinha outro significado senão a piada. “O senhor primeiro-ministro não se vai intrometer na vida sexual dos diplomatas, pois não?” – Perguntou ele uma vez a um atónito Cavaco Silva. E Cavaco, claro que não queria intrometer-se, apenas queria manter uma certa disciplina talvez demasiado conventual para Soares. Mas este diálogo, que foi um dos primeiros não políticos entre os dois homens de Estado, marca bem a diferença entre eles.

Aos gritos na praia, a chamar pela mulher

Dizer que Soares é um homem da liberdade não dá, por vezes, a dimensão da liberdade que ele aplicava a si próprio. Era capaz de chamar pela sua mulher, em plena praia, com enormes gritos, como qualquer pescador, quando já era Presidente: “Ó Maria de Jesus! Onde vais com tanta pressa?”. E depois comentava – “Aquela mulher vai sempre num passo impossível!”. Essa liberdade pessoal, que o levou a abandonar a liderança do partido, quando estava na oposição, porque, estando a fazer a barba e a ouvir o general Eanes, se convenceu que o não podia apoiar para a reeleição presidencial, ao contrário da grande maioria do PS, diz tudo sobre ele. A sua liberdade era total – pessoal e socialmente. Não era convencional, como alguém referiu estes dias (penso que foi D. Duarte de Bragança) era um homem que sabia unir a elite intelectual e cultural do país, ao povo mais chão, à cultura popular. Algo que raros conseguem.

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Em Faro, distraído com um grupo de crianças que o rodeavam e que ele levantava ligeiramente do chão para beijar, puxou um cauteleiro, um anão pouco mais alto mas muito mais pesado do que os miúdos. Largou-o com uma exclamação que não posso precisar, mas do estilo “O que é isto?”.

Uma descompostura à peixeira

Em Almada, no auge do ‘Bloco Central’, quando o PCP organizava romarias sobre os salários em atraso, a fome, os despedimentos e o custo de vida e lhe chamava reacionário todos os dias, uma vendedora atirou-lhe com um peixe à cara. Ele voltou-se para ela e à medida que limpava a cara com um lenço, deu-lhe a descompostura da vida: “Diz que há fome e é assim que desperdiça a comida? Tenha vergonha”.

No Tramagal, aquando da primeira volta, ainda antes da paulada da Marinha Grande, não tinha mais de 30 ou 50 pessoas à espera, um simpatizante do PCP foi atrás dele a gritar: “paga o que deves, filho da puta, os salários em atraso, malandro, fascista, paga o que deves!”. Soares avança para o palco, que salvo erro estava montado numa camioneta de caixa aberta. Sobe e o homem continua lá atrás “paga o que deves, cabrão, salários em atraso” e mais uma série de imprecações. Soares olha para o lado à procura de alguém e encontra um segurança ou um assessor a quem diz relativamente baixo: mandem calar esse filho da puta! Azar seu, o microfone estava aberto e ouviu-se no largo onde estava montado o comício.

Porém, ele continuou como se nada fosse, confiante de que iria ganhar, porque a esquerda precisava de ser moderada e não aquela que apoiava Zenha, como o PCP e o PRD, ou Pintasilgo, muitos independentes e esquerdistas. E ganhou. Não sei se devido à coragem mostrada na Marinha Grande, quando diz ao seu mandatário: “Era o que faltava não poder andar livremente no meu país”, ou se porque o povo percebeu que só a moderação uniria e acabaria a transformação de Portugal num país normal, como ele queria.

Como sair em grande de uma gafe

Numa das terras chamadas Oliveira (não sei se de Frades, se de Azeméis, se do Bairro), Soares que vinha a dormir no carro, como era costume, acordou subiu ao palco e gritou “Amigos de…” e enganou-se no nome da terra, o que lhe valeu uma vaia, digamos que amigável. Ensaiou outra vez: Amigos de… e de novo errou. Até que o mandatário subiu ao palco e lhe disse o nome exato. Nunca se descompôs: “Muitas oliveiras tem este país, todas com muitos amigos, à exceção do Oliveira Salazar que destruiu etc. etc.” dando uma volta para chegar ao ponto que lhe interessava: a colagem de Freitas a Salazar. Estávamos já na segunda volta, o PCP abandonara a provocação e passara a apoiar Soares, depois de Álvaro Cunhal recomendar que tapassem a cara do candidato com uma mão e votassem com a outra.

Em Pias, no Alentejo, onde cheguei antes de Soares, para fazer a cobertura da campanha, estava reunida muita gente enquanto um homem com um megafone gritava “Fascismo nunca mais!”. Perguntei-lhe quantos votos teria Soares naquela terra. E responde-me ele, que era o líder local do PCP: “Todos! Só se algum do PS falhar”.

E Soares prosseguiu o seu caminho, que vinha de sondagens com cerca de oito por cento à vitória. Um mês depois de ter ganho, quase todo o país era soarista. Na sua reeleição até Cavaco Silva o apoiou. Freitas tornou-se seu amigo, toda a classe política se dava com ele. Portugal era, finalmente um país normal. No qual as divergências podiam ser discutidas sem dramatismo. Algo, na minha modesta opinião, que ultimamente tem faltado. Mas talvez Marcelo saiba reconstruir esse laço entre o povo e os políticos; entre os intelectuais e o povo chão.

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