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Harpreet recebeu Costa e antes Soares: “Tinha o body language de um homem feliz”

“Nunca tinha a cara cold. O body language era de um homem feliz.” Em 1992, Soares encantou a Índia e Harpreet Singh Aurora. O agora responsável pelo departamento de imprensa do Centro Cultural Português de Nova Deli, que hoje acompanha António Costa na visita de Estado à Índia, tinha 22 anos, acabara de ser recrutado para a embaixada portuguesa e recorda um homem humilde e disponível

Helena Pereira

Helena Pereira

enviada a Ahmedabad (Índia)

Editora de Política

A viagem de Mário Soares à Índia ficou conhecida para sempre em Portugal pela imagem do casal presidencial de turbante cor de laranja em cima de um elefante, em Jaipur. Na memória de Harpreet Singh Aurora ficou muito mais do que isso.

“Estava sempre a dizer adeus mesmo quando ia no carro. Qualquer pessoa podia ir ter com ele e conversar e nunca o víamos com cara cold, mas sempre com ar disponível, o ar de quem estava muito feliz de estar aqui. Era o que dizia o seu body language. Era tudo muito fácil. Sabe quando it flows?”, recorda este indiano ao Expresso, falando português, uma língua que domina bem, embora às vezes misture com o inglês, ou pela tradução não lhe vir imediatamente à cabeça ou por achar que a palavra inglesa corresponde melhor ao sentido do que quer exprimir.

Harpreet Singh Aurora tinha 22 anos quando acompanhou a visita à Índia do então Presidente da República Mário Soares. Acompanhou, tal como faz hoje na visita de António Costa ao país, a delegação de jornalistas portugueses que cobria a visita oficial. Tinha acabado de começar a trabalhar no Centro Cultural Português, na Ring Road, inaugurado meses antes pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Durão Barroso.

“O Presidente Mário Soares foi muito bem-vindo. Não foi um fake welcome, foi warming. E receberam-no de braços abertos e não foi por ser o Presidente de Portugal, mas foi por ser o Mário Soares, por ser aquela pessoa. As ruas estavam cheias e as pessoas com bandeiras de Portugal e da Índia”, prossegue Harpreet, atualmente com 46 anos, responsável pela área de imprensa e cultura do Centro Cultural Português em Nova Deli, referindo-se em especial à parte do programa de Goa.

Na altura, frisa, havia várias organizações de amizade com Portugal que costumavam fazer eventos sobre Portugal e vários jornais, como “O Heraldo”, “Gomantak Times” e “Navhind Times”, que acompanhavam frequentemente o noticiário português. “Estavam cheios de artigos para nós recortarmos, tínhamos que fazer o press cliping em Nova Deli, porque ainda não havia consulado em Goa.”

“Houve uma grande receção à comunidade portuguesa no Hotel Cidade de Goa. A dra. Maria de Jesus Barroso ficou maravilhada com a pintura sobre a chegada de Vasco da Gama à Índia na entrada do hotel”, recorda. “Sempre tinha ouvido falar de Mário Soares, que era o pai da democracia de Portugal, do seu papel na revolução, ok, mas quando encontramos a pessoa percebemos que não é só uma personalidade forte politicamente, mas estava sempre disponível, entendia o que o povo quer. Nheru também era assim disponível”, acrescenta.

“Há 25 anos era outra Índia”

Este indiano sikh diz que o país também mudou muito em 25 anos e é agora mais aberto. Na altura, aquela visita foi uma lufada de ar fresco. “Goa olhou para ele com esperança. A economia não estava muito aberta. Agora, a Índia is shinning. A juventude tem profissões para cumprir os seus sonhos neste país. Há 25 anos era outra Índia”, considera.

Harpreet S. Aurora estudou Estudos Espanhóis na Universidade Jawaharlal Nehru, que descreve como a Oxford da Ásia. Pouco tempo depois estudou português em Macau com uma bolsa da Fundação Oriente. E foi meses depois disso que conheceu Mário Soares. A visita do Presidente à Índia, entre 23 de janeiro e 4 de fevereiro de 1992, foi preparada com a ajuda do escritor e então embaixador na Índia Álvaro Guerra. Não houve qualquer contestação a esta visita, a primeira de um representante português desde o 25 de Abril de 1974. O único protesto significativo contra os portugueses ocorreu em 2010 quando a Freedom Fighters Association of Goa (FFAG) organizou uma manifestação contra a atracagem do navio Sagres em Goa, no âmbito das comemorações dos 500 anos da descoberta do caminho marítimo para a Índia. Os nacionalistas queixaram-se que o Estado de Goa estava a “patrocinar” os colonialistas.

Goa vai ser precisamente a reta final da visita de António Costa, que começou no sábado e decorre até esta quinta-feira, e que não foi interrompida depois da morte do ex-Presidente da República Mário Soares. É já hoje à noite que o primeiro-ministro, filho de um goês católico, Orlando da Costa, aterra em Goa, onde tem programa oficial quarta e quinta-feira, cumprindo assim toda a agenda, apesar de estar a ser criticado em Lisboa, entre camaradas socialistas, por não ter ido ao funeral do ex-Presidente.

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