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A mais loooooonga pergunta do mundo

PORTUGAL-GRÉCIA. Mário Soares com a ministra grega da Cultura Melina Mercouri

FOTO RUI OCHÔA

Segunda das cinco histórias que publicaremos sobre a vida de Mário Soares esta semana, sobre uma pergunta interminável e com duas traduções sucessivas

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

Estávamos em dezembro de 1988, porque estas histórias não hão de ser cronológicas. E se a de ontem foi sobre os anos difíceis que antecederam o 25 de Abril, esta é sobre o tempo em que Mário Soares era Presidente da República, de todos os portugueses, e até tinha uma boa cooperação com Cavaco Silva, que ganhara a sua primeira maioria absoluta no ano anterior.

A viagem de Estado à Grécia justificava-se por ser o país que havia entrado na CEE (atual União Europeia) pouco antes de Portugal e Espanha. O Presidente cumpria os seus deveres, encontrando-se com o Chefe do Estado helénico, na altura Christos Sartzetakis, do PASOK, que sucedera a Karamanlis da Nova Democracia, e com o primeiro-ministro Andreas Papandreu (pai do atual Panpandreu, Giorgios). Da visita, além da estada em Atenas e natural percurso pela Acrópole, fazia parte uma deslocação a Salónica.

Aqui começaram as complicações. Um forte nevão abateu-se sobre a cidade (é interessante ver nevar nas praias do Mediterrâneo, embora ali mais correto será chamar-lhe Mar Egeu) e o avião que nos levara à segunda maior cidade grega não podia descolar. Após muitas peripécias, organizou-se um comboio com uma locomotiva corta-neve que demorou uma eternidade a voltar a Atenas e no qual, para complicar mais as coisas, não havia comida suficiente. Posso aqui escrever que eu próprio e o comandante Homem de Gouveia, assessor do Presidente, roubámos comida para dar ao então presidente da Fundação Gulbenkian Azeredo Perdigão, cuja idade avançada não permitia tantas horas sem comer.

O resto da viagem foi muito bem passado porque o então ministro dos Negócios Estrangeiros português, João de Deus Pinheiro, era um exímio contador de histórias e anedotas, com as quais chorámos a rir.

Um dia depois, ainda maltratados pela intempérie, dá-se a conferência de imprensa final, com os dois presidentes. Ordenava o protocolo que os portugueses fizessem as perguntas em português, que seriam traduzidas para francês e deste idioma para o grego. Para os jornalistas gregos seguia-se a inversa.

As coisas iam andando, com os dois presidentes no topo de uma enorme mesa, quando um jornalista pede a palavra (não me lembro de quem e não quero lembrar-me nem isso é importante). E começa a sua pergunta dirigida a Soares:

- Senhor Presidente

Logo traduzida – Mr. le Président

- πρόεδρος

- A minha pergunta divide-se em duas partes.

- Ma question se divise en deux parties.

- Η ερώτησή μου είναι χωρισμένη σε δύο μέρη

E por aí fora, cada parte com alíneas e subalíneas e o mais que fosse.

À medida que a questão avançava, Mário Soares ia apoiando a cabeça na mão. Tememos que adormecesse… Depois começou a deixar descair o corpo pela cadeira até parecer que se tinha quase enfiado por baixo da mesa. Os outros jornalistas faziam força para não rirem, disfarçando como podiam.

Ao fim de um tempo incontável a mais longa pergunta da História a que eu assisti, rematava

- Face a isto, o que me diz?

- Compte tenu de ceci , que répondez vous?

- Στο πλαίσιο αυτό, τι λέτε;

(aproveito para dizer que o grego é do Google translator, se estiver mal, telefonem para Mountain View, California).

Já ninguém sabia o que estava em causa e todos olharam para o presidente português, com um misto de comiseração e curiosidade. Porém, Soares, compondo-se na cadeira e com um ar visivelmente aliviado, respondeu majestaticamente:

- Se bem compreendi o que me perguntou, a minha resposta é não.

E passámos à frente.

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