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Uma refeição explosiva

d.r.

Soares, após a morte de Delgado, recusou outra pessoa para a liderança da oposição democrática que não fosse ele. E ganhou essa guerra. É a primeira de cinco histórias sobre a vida de Mário Soares que publicaremos esta semana

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

Um dos aspetos interessantes da vida de Mário Soares é o modo como ele se torna o líder da oposição não comunista em Portugal. Com pouco mais de 40 anos e com seguidores muito mais velhos e que poderiam invocar maior experiência, torna-se a referência incontestada daqueles que combatem o fascismo e ao mesmo tempo rejeitam o totalitarismo soviético.

Mário Soares já era uma figura conhecida da oposição a Salazar. A Pide prendeu-o por 12 vezes, o regime exilou-o por duas. No fim da II Guerra (1945) é dos mais aguerridos membros do MUD Juvenil, e em 1949, nas eleições presidenciais, torna-se secretário de Norton de Matos. O facto de fazer parte do PCP e de o ter omitido ao velho general e ministro da I República é algo de que ele se dirá arrependido, mais tarde. Sendo o seu pai, João Lopes Soares, também ex-ministro da I República, um conhecido e ativo reviralhista, o jovem Mário participa ativamente nas tentativas de derrube da ditadura. É assim que, depois de sair do PCP, funda a Resistência Republicana e Socialista (1955) e, mais tarde (1956), entra para o Diretório Democrato-Social, onde estavam António Sérgio, Jaime Cortesão e Mário Azevedo Gomes.

São estas últimas as figuras cimeiras da Oposição democrática. Mas o surgimento do autêntico furacão que foi Humberto Delgado em 1958 traz para a ribalta mais um nome que se torna indiscutível nessa ala política. O PCP começa, aliás, por não apoiar Delgado, chamando-lhe ‘general Coca-Cola’, devido à permanência de cinco anos nos EUA, onde aliás aderiria à ideia de estabelecer uma democracia de tipo ocidental em Portugal.

A última vez que Delgado e Soares se encontram é em casa de Emídio Guerreiro (que depois do 25 de Abril viria a ser episodicamente líder do PSD) em Paris. Despedem-se até Portugal, convicto o general de que um golpe no país poria fim ao salazarismo

Jaime Cortesão e Mário Azevedo Gomes, menos operacionais e mais programáticos, levam para diante uma ideia que acaba por ser executada apenas pelo segundo, uma vez que Cortesão morre em 1960. Era o Programa para a Democratização da República, um extenso documento que estabelece as bases da oposição democrática ao salazarismo. Azevedo Gomes, o seu primeiro subscritor, era então visto como o líder moral dessa corrente, que aliás fazia constantes referências a Cortesão. Para a redação do Programa é constituída uma comissão de que fazem parte o próprio Mário de Azevedo Gomes, Francisco Ramos da Costa, Fernando Piteira Santos, José Ribeiro dos Santos e Mário Soares.

Delgado, que pedira asilo político na embaixada do Brasil em 1959, convence-se de que o regime só pode ser derrubado pela força. É assim que começa a organizar um golpe de estado militar (o golpe de Beja, de 1962), que é dominado pelo regime. Mais tarde, em fevereiro de 1965, através de um ardiloso plano da Pide, é atraído a Portugal. Porém, em Espanha, junto da fronteira portuguesa (Los Almerines, Olivença), é morto pela polícia política portuguesa.

A última vez que Delgado e Soares se encontram é em casa de Emídio Guerreiro (que depois do 25 de Abril viria a ser episodicamente líder do PSD) em Paris. Despedem-se até Portugal, convicto o general de que um golpe no país poria fim ao salazarismo.

Porém, Delgado desaparece. E Soares sabe-o por Emídio Guerreiro, que lhe telefona a dar conta de que tanto o general como a sua secretária não davam sinal e que poderiam estar presos em Lisboa. Mais tarde, quando se sabe do assassínio, Soares, juntamente com o advogado oposicionista Abranches Ferrão, oferecem-se para representar a família, processando a Pide e o Estado português.

A oposição ficara sem o seu nome mais sonante. Azevedo Gomes faleceria em dezembro de 1965 e só António Sérgio, já com idade avançada (82 anos) representava os históricos oposicionistas. É neste contexto que, uns tempos mais tarde, Emídio Guerreiro pretende encontrar-se com Soares.

Emídio Guerreiro, que estivera muito próximo de Delgado, avança com um papel já assinado por Ramos da Costa (que em 1973 viria a ser um dos fundadores do PS), António Macedo e Carlos Cal Brandão (idem) em que o reconheciam como líder da Oposição Democrática. A ideia era que Soares o assinasse também

Por razões que não conheço o encontro dá-se em Roma onde estava exilado, mas indocumentado, Victor da Cunha Rêgo, jornalista e oposicionista que seria o chefe de gabinete de Soares em diversos Governos e secretário de Estado adjunto do Primeiro-Ministro (Mário Soares) do I Governo Constitucional.

O encontro é num restaurante (e ouvi a história de ambos os protagonistas, com versões bastante próximas nos factos, mas absolutamente diversas nas intenções). Guerreiro, que estivera muito próximo de Delgado, tendo mesmo o general ficado em sua casa em Paris várias vezes, avança com um papel já assinado por Ramos da Costa (que em 1973 viria a ser um dos fundadores do PS), António Macedo e Carlos Cal Brandão (idem) em que o reconheciam como líder da Oposição Democrática. A ideia era que Soares o assinasse também.

Mas o futuro Presidente da República tem outras ideias. Recusa-se a assinar tal documento e diz que não reconhece idoneidade a Guerreiro. A discussão sobe de tom, de tal modo que Cunha Rego sai do restaurante com medo que chegue a polícia e o detenha por falta de documentos. Guerreiro insiste, Soares obstina-se. Os dois homens separam-se sem acordo (o que ajuda a explicar a adesão de Emídio Guerreiro ao PPD após o 25 de Abril).

Soares, pelo seu lado, vai refazer as pontas. Contacta Ramos da Costa, Macedo, Cal Brandão, Tito de Morais. Depois do exílio de São Tomé, no breve tempo que está em Portugal antes de partir de novo para o exílio em França, organiza a CEUD, a primeira vez que a oposição não comunista vai a votos separada dos comunistas, que se juntam com outros antifascistas na CDE. Os resultados não são brilhantes, mas Soares persiste. Em 1973 funda o PS. Em 1974, o 25 de Abril permite-lhe voltar a Portugal e, apesar dos seus amigos e camaradas acharam que o PCP é um partido maior e mais forte, em 25 de Abril de 1975, nas Constituintes, têm a surpresa de saber que são o maior partido de Portugal.

Soares ganhara. E aquela refeição explosiva fora uma das molas dessa vitória.

  • Um guia para ler Mário Soares no Facebook

    Mário Soares nunca foi nem procurou ser uma pessoa consensual. Tinha ideias políticas muito definidas e uma filiação partidária clara. Além disso, teve muitos amigos e decisões em função das ocasiões e dos momentos históricos, por razões táticas, o que baralha muitas das análises simplistas que se fazem nestes momentos. Mas essas ligações, guinadas ou decisões radicais tiveram quase sempre um propósito maior e três qualidades comuns: a coragem, a capacidade de lutar por aquilo em que acreditava e a ação em função das prioridades