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Soares homenageado no Parlamento Europeu

José Carlos Carvalho

Eurodeputados de vários grupos políticos assinaram o livro de condolências e recordaram o estadista e político que foi também deputado europeu na viragem do século

A socialista Pervenche Berès recorda "a emoção forte" de ver Mário Soares integrar o grupo socialista no Parlamento Europeu. Ele foi eleito nas Europeias de 1999. Ela estava já em Bruxelas desde 1994. "Ele era o símbolo de um Portugal moderno, um país que ele inscreveu no coração na nova história da Europa", conta ao Expresso a ainda eurodeputada francesa.

Berès, então na casa dos quarenta, lembra-se de quando os deputados socialistas subiam o hemiciclo para questionar e ouvir Soares "sobre um ou outro assunto". O ex-Presidente da República Portuguesa esteve perto de ser também Presidente do Parlamento Europeu, mas acabou por perder o cargo para a francesa Nicole Fontaine, a quem acusou de ter um discurso de "dona de casa".

"Houve hesitações sobre se ele deveria ser candidato a Presidente do Parlamento Europeu", lembra Pervenche Berès, que lamenta também a derrota. "Penso que Mário Soares não precisava disto,(...) mas o facto de ter aceitado ser candidato mostrava a disponibilidade que tinha sempre para a família socialista".

Uma família que esta terça-feira quis também recordá-lo e homenageá-lo no Parlamento Europeu, em Bruxelas. À delegação portuguesa do PS, que organizou a pequena cerimónia, juntaram-se deputados de outros países para assinar o livro de condolências.

"Para mim era muito importante estar nesta homenagem, pela sua imensa intelectualidade, por esta pessoa que se bateu pelas suas convicções", diz Sylvie Guillaume. A eurodeputada do Partido Socialista francês já não se cruzou com Mário Soares, mas recorda uma época em que o Parlamento Europeu tinha menos poderes do que agora, mas onde havia uma "verdadeira competição de valores". "Era um tempo de exprimir convicções fortes, para que a União Europeia continuasse um caminho forte", contou ao Expresso.

Os socialistas espanhóis Eider Gardiazabal Rubial e Enrique Guerrero Salom também estiveram presentes na cerimónia evocativa que decorreu no piso três do Parlamento Europeu. "Mário Soares foi uma referência na construção da União Europeia nos últimos 30 ou 40 anos", diz Rubial, que recorda também o papel do português na adesão simultânea de Portugal e Espanha ao projeto europeu.

"Para um espanhol da minha idade (68 anos), é importante assinalar a influência que ele teve na transição política espanhola", afirma Guerrero Salom, lembrando o período que se seguiu à revolução de Abril de 74. "Apenas um ano depois, Franco morreu, começou a transição espanhola e Mário Soares foi uma referência para os socialistas espanhóis".

A homenagem em Bruxelas, anunciada por Carlos Zorrinho, contou principalmente com a presença de membros da família socialista europeia, mas com a de funcionários e eurodeputados portugueses dos vários grupos e partidos políticos.

Paulo Rangel discursou pelo PSD, João Pimenta Lopes pelo PCP, Marisa Matias pelo Bloco de Esquerda, Nuno Melo pelo CDS e José Inácio Faria pelo Movimento Partido da Terra.

No livro de condolências ficaram também as palavras dos presidentes dos dois maiores grupos políticos, o socialistas italiano Gianni Pittella e o alemão do Partido Popular Europeu, Manfred Weber. Já o Presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, fez questão de deslocar-se a Lisboa para o funeral.

Mário Soares foi eurodeputado entre 1999 e 2004. Uma legislatura em que fez parte da Comissão dos Assuntos Externos, dos Direitos do Homem, da Segurança Comum e da Política de Defesa. Chegou também a ser Presidente da Delegação para as Relações com Israel.