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O homem que tentou convencer Soares a voltar ao Partido Comunista

Mário Soares rompeu com o Partido Comunista em 1950, depois de um conturbado desentendimento na campanha do general Norton de Matos às eleições presidenciais de 1949. Anos mais tarde, o escritor e ensaísta Alberto Ferreira procurou-o na sua casa do Campo Grande, com a partidária incumbência de convencer Soares a voltar ao PCP

JOÃO RIBEIRO / JL

Quatro anos mais velho do que Mário Soares, o homem que em 1955/56 procurou o ex-Presidente da República na sua casa do Campo Grande é o mesmo que esteve com “Cunhal em 1948 e em 1972, em Paris, e em 1973, em Moscovo” como conta Alberto Ferreira em entrevista dada ao “Jornal de Letras” em 1998.

Este “marxista heterodoxo”, na opinião do escritor Miguel Real, “nunca se desvinculou do Partido Comunista”, ao contrário do que aconteceu com outros intelectuais – “Mário Dionísio que foi expulso em 1952 e de António José Saraiva que se desvincula em 1961”.

Mário Soares recorda a abordagem para regressar à militância no Partido Comunista Português nas conversas que teve com a jornalista Maria João Avillez; esta revelação faz parte de “Soares – Ditadura e Revolução”, o primeiro dos três volumes desta longa série de entrevistas. Mais tarde, Soares voltaria a referir o episódio em conversa com Joaquim Vieira, autor da sua biografia editada pela Esfera dos Livros. Em nenhuma das referidas conversas dá detalhes sobre a forma como se processou esta abordagem.

“Um tipo que contrariava” o PCP

“No PCP fui sempre muito crítico, era conhecido por um tipo que contrariava, e fui mesmo um pouco marginalizado pelos quadros do partido no ensino superior”, contou Alberto Ferreira em entrevista dada ao “Jornal de Letras”, dois anos antes de morrer vítima de Doença de Parkinson.

No outono de 1963, foi preso à entrada da agência de publicidade Êxito onde trabalhava. O escritor Alves Redol – que era padrinho da sua filha – e o investigador camiliano Alexandre Cabral foram detidos no mesmo dia, o que levaria o jornal “L‘Unità” – órgão oficial do Partido Comunista italiano – a denunciar a prisão de três intelectuais que se opunham ao regime de Salazar.

Foi posto em liberdade poucos dias antes do Natal, mas o período de prisão acabaria por se transformar num fantasma para a filha mais nova que tinha acabado de fazer cinco anos.

Alberto Ferreira foi entrevistado pelo "Jornal de Letras" EM 1998, dois anos antes de morrer vítima de doença de parkinson

Alberto Ferreira foi entrevistado pelo "Jornal de Letras" EM 1998, dois anos antes de morrer vítima de doença de parkinson

JOÃO RIBEIRO / JL

A importância das agências de publicidade na luta contra a ditadura

Entre o final da década de 1950 e o 25 de Abril de 1974, são muitos os intelectuais que procuram sustento nas agências de publicidade: “Alves Redol, Augusto Costa Dias, Alberto Ferreira, Alexandre Cabral, Manuel da Fonseca, Álvaro Guerra, Luís Sttau Monteiro, Orlando da Costa [pai do atual primeiro-ministro], José Tengarrinha, José Cardoso Pires, Alçada Batista, Urbano Tavares Rodrigues, Daniel Filipe, Alexandre O’Neill e Ary dos Santos”, são alguns dos nomes citados por João Paulo Guerra num artigo publicado no Diário Económico em 2003. “Feitas as contas, as pessoas tinham que viver e as letras e artes não davam nem para sobreviver”, lembra o jornalista.

Alberto Ferreira trabalhou na Êxito, Latina e foi um dos fundadores da Espiral. A par disso, continuou a escrever e a investigar temas da literatura portuguesa. Com a publicação de “Diário de Édipo” em 1965, o autor reafírma a “sua diferença filosófica” diz Miguel Real: “Se o fundo e o horizonte ideológico e filosófico são comuns com a orientação intelectual do Partido Comunista Português, a reflexão filosófica, o relevo dado à problematização das questões metodológicas e o estilo de escrita diferenciam Alberto Ferreira, singularizando-o do conjunto de intelectuais seguidistas dos ditames do Partido Comunista Português com artigos nestas duas revistas, de escrita mais mecânica e simplista, como acontecia com os primeiros artigos de 1954 e 1955 de Alberto Ferreira” [nas revistas Vértice e Seara Nova], acrescenta Real.

Texto de Mário Sacramento publicado no "Diário de Lisboa" de 10 de Março de 1966

Texto de Mário Sacramento publicado no "Diário de Lisboa" de 10 de Março de 1966

DIÁRIO DE LISBOA / FMS

Ferreira deixaria as agências de publicidade depois da Revolução dos Cravos. E deixaria também de escrever: “Em 1974 deixei de escrever, sai da célula dos escritores e passei para a dos professores”, conta na última entrevista que deu [Jornal de Letras, agosto de 1998].

Se o PCP o marginalizou, os discípulos recordam-no com afeto: “Um resistente e um homem íntegro, injustamente esquecido, que comecei por conhecer enquanto ímpar professor e pedagogo no Liceu Camões, depois do 25 de Abril, sempre pronto a conviver com os mais novos e a ouvi-los, em sala de aula ou em voltas incessantes pelo pátio, mesmo com aqueles que não eram seus alunos (como era o meu caso)”, escreveu o historiador João Esteves no blogue “Silêncio e Memórias”.

“Mas foi na Faculdade de Letras e na Biblioteca Nacional, durante a década de 1980, que mais contatámos e conversámos, convidando-me, sempre que nos cruzávamos, para a sua mesa, a que se juntavam, não raras vezes, entre outros, os professores José Tengarrinha e Manuel Ferreira. Afetuoso, sensível, excelente ouvinte e, simultaneamente, um contador de histórias e de História que a todos prendia, dotado de uma cultura vastíssima, muito contribuiu para a minha formação enquanto cidadão interessado pela História e Histórias, interpelando, com interesse genuíno, o estado dos meus trabalhos”, acrescenta Esteves.

Anotações de Alberto Ferreira para o livro “Diário de Edipo”

Anotações de Alberto Ferreira para o livro “Diário de Edipo”

BNP

Em 2010, a Biblioteca Nacional organizou a exposição “Alberto Ferreira, 1920-2000: escrita e intervenção” . As 80 caixas do espólio do autor englobam “manuscritos do autor com relevância para variantes inéditas das suas obras, vasta correspondência de personalidades literárias, documentos biográficos, recortes sobre o autor e sua obra e manuscritos de terceiros”, lê-se no site da BNP: “A primeira parte foi doada pelo próprio em Julho de 1996 e a segunda pelos seus herdeiros, representados pela viúva do escritor, Maria José Marinho, em Fevereiro de 2002”.

A já desaparecida escritora e crítica literária Maria Lúcia Lepecki recordou as “longas tertúlias de sábado na casa de Alberto Ferreira no Mucifal”, numa palestra realizada na inauguração da já referida exposição bibliográfica. Por essas tertúlias passaram o seu compadre Alves Redol, Orlando da Costa, Lindley Sintra, Alexandre Cabral, Rogério Fernandes, e muitos outros... que se habituaram a ver a galinha Joana a debicar no terraço à volta da casa.

Nos últimos anos de vida, dedicou-se ao desenho, porque a Doença de Parkinson lhe dificulava a escrita. O último livro que publicou, “Viagens no Reino da Mediocracia”, esteve na origem da entrevista realizada pelo jornalista Rodrigues da Silva para o "JL" em 1998.

Capa do último livro do escritor e ensaísta Alberto Ferreira

Capa do último livro do escritor e ensaísta Alberto Ferreira

DR

Muito jovem tirou o curso de regente de agrícola em Santarém. Dedicou-se à enologia e foi funcionário da Junta Nacional dos Vinhos. No final da década de 1940, reencontra o seu colega e amigo António Goucha Soares, em Lisboa, e ambos decidem preparar-se para fazer exame de admissão à universidade. Alberto está determinado a seguir Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa, António opta pelo curso de Direito porque quer ser aluno voluntário.

Decidem arranjar um professor e é assim que vão bater à porta do filósofo José Marinho, que – em 1936 – tinha sido proibido pelo Estado Novo de dar aulas no ensino público.

O explicador aceita o desafio e os dois amigos entram para os cursos que tinham escolhido em 1950. Anos mais tarde, Alberto Ferreira viria a casar em segundas núpcias com a filha mais velha do seu mestre, Maria José, com quem teve dois filhos, e organizou a publicação em quatro volumes da sua obra mais conhecida do grande público – a coletânea “Bom senso e bom gosto” sobre a Questão Coimbrã e as Conferências do Casino de 1870.