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A liberdade já passou por aqui

Marcos Borga

O dia foi longo junto ao Mosteiro dos Jerónimos, em Belém. Mas foi também de liberdade: foi uma segunda-feira para recordar a liberdade, para a homenagear, para a viver. Fosse através das centenas de pessoas que iam chegando a Belém para prestar homenagem a Mário Soares, das palavras de políticos à esquerda e à direita, das mensagens escritas para nunca esquecer o homem que sempre lutou pela liberdade

As pessoas não cessavam de chegar. Apareciam pequenos e graúdos, jovens ou idosos, famílias inteiras. Chegavam homens com malas de viagem atreladas, outros de mãos a abanar. Passaram caras conhecidas, jornalistas, artistas, personalidades da cena política nacional e internacional. Não há idade, meio social ou cor política que divida os portugueses que chegaram esta segunda-feira ao Mosteiro dos Jerónimos, em Belém, onde o corpo do antigo estadista português Mário Soares se encontra em câmara ardente.

“Os portugueses responderam ao apelo da história”, diria esta tarde o atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, na sua segunda visita ao monumento nacional. Responderam porque não esqueceram o homem, o político, o estadista que lutou por Portugal e pela liberdade. E lá foram chegando eles até à meia noite, numa fila silenciosa de condolências e memórias, para prestar tributo a Mário Soares.

Uns apareciam em família, outros sozinhos; alguns chegavam de cara séria, outros mais emocionados. Havia ainda os que levavam rosas ou cravos nas mãos, o símbolo da revolução de Abril que Soares ajudou a cumprir ao ser central para o processo de transição democrática.

As flores eram recolhidas à entrada dos Jerónimos, por pessoal da segurança, para serem guardadas “na sala das flores”. Os filhos do antigo primeiro-ministro e Presidente da República, João e Isabel Soares, irão amanhã escolher algumas frases dos cartões de condolências para serem lidas em voz alta.

“Uma homenagem merecida e justa”

Durante a tarde de segunda-feira, várias foram as personalidades – das mais variadas áreas da sociedade e cores políticas – que apareceram para prestar homenagem a Mário Soares: o atual e antigos Presidentes da República, personalidades políticas e até figuras ligadas às artes e ao humor. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, Ferro Rodrigues e a ministra da Presidência, Maria Manuel Leitão Marques, estiveram por duas vezes no mosteiro. E até o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, regressou mais cedo a Portugal para estar presente nas homenagens, como substituto do primeiro-ministro. A grande ausência do dia foi mesmo a de António Costa.

À direita, o secretário-geral do PSD, Pedro Passos Coelho, quis vir apresentar as condolências aos filhos de Soares e prestar “uma homenagem merecida e justa” ao estadista português. Assunção Cristas apareceria mais tarde com o mesmo propósito. E explicaria: “independentemente de em muitos momentos termos [CDS] discordado de Mário Soares”, este é o momento de “reconhecer o trabalho que foi feito [por ele] para que hoje possamos estar todos em liberdade, em democracia”.

À esquerda, o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, relembra Soares como um “combatente contra a ditadura fascista”, embora reconheça algumas “divergências profundas” com o antigo chefe de Estado. Já a líder do Bloco de Esquerda (BE), Catarina Martins, recorda o ex-Presidente como “um combatente antifascista e anticolonialista” e um homem que “marcou a história do século XX”, que muitas vezes lutou em conjunto com a esquerda, outras em conflito.

Também o histórico socialista Manuel Alegre não deixou de marcar presença neste dia, falando na necessidade de transmitir a memória de Soares aos mais jovens. António José Seguro, antigo secretário-geral do PS, classificou Soares de “principal obreiro de Portugal” e o ex-primeiro-ministro José Sócrates recordou não só o político, mas também o amigo “de todas as circunstâncias”, mesmo dos tempos em que esteve no estabelecimento prisional de Évora. O ex-Presidente da República Jorge Sampaio, Francisco Louçã, o antigo ministro Bagão Félix, o ex-presidente da Catalunha Artur Maas, o humorista Ricardo Araújo Pereira e o compositor António Vitorino de Almeida foram outras das personalidades que também quiseram entrar na Sala dos Azulejos nos Jerónimos, para homenagear o estadista português.

O antigo Presidente Ramalho Eanes veio também a Belém para “prestar homenagem a um homem de luta política”, “coautor dos mais importantes acontecimentos políticos de Portugal”.

A outra fila

Ao longo do dia, centenas de pessoas foram chegando a Belém. A fila parecia nunca acabar, alimentada de forma constante por todos os portugueses que fizeram questão de não esquecer Mário Soares neste dia destinado a velar o seu corpo em câmara ardente.

E houve até quem quisesse ir ainda mais longe, deixando um registo escrito no livro de condolências. Colado ao Mosteiro dos Jerónimos, o Museu Nacional de Arqueologia foi o local escolhido para esse efeito. Com sete livros colocados no balcão da receção do edifício, as pessoas iam escrevendo, assinando, deixando também assim o seu agradecimento a Soares.

Como José e Isabel Neves, com 59 e 54 anos, respetivamente. São pessoas de poucas palavras, mas bastante convictos em relação à sua pequena missão: vieram escrever uma mensagem “por respeito”, porque Mário Soares “foi um homem muito à frente do seu tempo”.

Por motivos semelhantes – e não só por trabalhar na Presidência da República –, Patrícia Dinis, de 52 anos, diz ter esperado naquela fila. Para si, Soares “é alguém incontornável na vida política portuguesa”. E foi por esse motivo que no livro de condolências deixou a seguinte mensagem: “Obrigada, Presidente. Soares é fixe. Sempre.”

  • As cores do luto

    Mário Soares morreu, mas está vivo nas fotografias a preto e branco. Nas capas dos jornais. Nas mensagens escritas à mão. Na voz de quem grita na rua que ele “é fixe”. No vermelho das rosas e no amarelo das bandeiras. E em duas andorinhas desenhadas na capa de um livro

  • A chegada da urna de Soares à Praça do Município

    A urna de Mário Soares chegou à Praça do Município pelas 11:34. A assistir à cerimónia estiveram cerca de 200 populares, algumas figuras políticas e ainda os familiares do antigo Presidente da República. Os filhos João e Isabel Soares e os netos Jonas e Lilah cumprimentaram os presentes, que durante vários momentos se fizeram ouvir através das palmas. A urna foi depois transferida para uma charrete da GNR e o cortejo seguiu em direção ao Terreiro do Paço.

  • Respeito e gratidão

    Desde a sua casa no Campo Grande até ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, onde vai ficar em câmara ardente, o cortejo fúnebre de Mário Soares cumpriu o cerimonial imposto pelas honras do protocolo de Estado. Agora, e até ao final da manhã desta terça-feira, é a vez dos populares se despedirem do antigo Presidente

  • Soares é fixe: edição especial e gratuita do Expresso Diário para guardar

    Henrique Monteiro escreve sobre o maior homem do tempo dele em Portugal. Ricardo Costa antecipa o guia para ler Mário Soares no Facebook. Pedro Santos Guerreiro explica como somos livres para dizer que nos dói perder Soares. António Valdemar, que foi aluno de Mário Soares - com o qual privou durante décadas -, deixa uma testemunho inédito. Joaquim Vieira, biógrafo, elabora sobre a coragem de Soares. Na opinião: Daniel Oliveira, João Semedo, Vítor Ramalho e Henrique Raposo. Soares é fixe