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A gratidão de Portugal perante um dos seus maiores

António Pedro Ferreira

No dia em que o país se despediu de Mário Soares, o seu percurso foi recordado e elogiado numa sessão solene nos Jerónimos, antes de a urna ser acompanhada até à última morada, entre aplausos e honras de Estado

Foi um dia intenso, em que se falou de liberdade, de memória, de gosto pela vida e gratidão. Mas as despedidas costumam ser intensas. A propósito de Mário Soares e em homenagem ao seu legado, falaram vozes de Estado e expressaram-se as pessoas na rua. Tudo coube neste segundo dos três dias de luto nacional decretados pelo Governo, o dia em que a urna contendo os restos mortais do antigo Presidente da República voltou a percorrer Lisboa, voltando a inspirar “slogans” históricos e a provocar lágrimas em muitos rostos.

Depois de fechada a sala onde o corpo se manteve em câmara ardente, até às 11h, os claustros dos Jerónimos foram o palco para a realização da anunciada sessão solene, a que assistiram inúmeros representantes internacionais, alguns companheiros das lutas de Mário Soares. Falaram primeiro os filhos do antigo líder socialista, João e Isabel, que visivelmente emocionados em muitos momentos, recordaram o exemplo do pai e o muito que este lhes ensinou.

João Soares recordou alguns episódios difíceis, como uma das detenções do pai e a sua deportação para São Tomé, mas recordou o seu “exemplo extraordinário de alegria e vontade de viver”. Sublinhou ainda a sua “confiança inquebrantável nos portugueses”, para se despedir com um comovido “adeus querido pai”.

A voz de Maria Barroso, mulher de Mário Soares falecida em julho de 2015, ouviu-se também ho homenagem, declamando dois poemas de Álvaro Feijó, antes de Isabel Soares tomar a palavra para confessar: “Não sei como vamos viver sem si”. Na hora da despedida, Isabel lembrou o pai que “nos ensinou a amar a vida” e “era o nosso herói”, fazendo em nome de filhos e netos a promessa de todos “honrarem a sua memória”.

A memória de Soares, “o rosto e a voz da nossa liberdade”

Os outros discursos evocativos de Soares ficaram por conta do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do primeiro-ministro, António Costa, e do presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues. Todos eles com emoção, salientaram a importância de Soares no país e na construção da democracia e da liberdade, mas também os seus valores e as suas qualidades como pessoa e como político.

"Mais do que militante número 1 do PS, foi o militante número 1 da nossa democracia", "tinha a visão dos grandes estadistas e a intuição dos grandes políticos" e "pôs sempre Portugal em primeiro lugar", disse Ferro Rodrigues, colocando-o na categoria de homem imprescindível. "Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, e há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis", disse a segunda figura do Estado, citando o dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht.

Já António Costa, cuja mensagem chegou em vídeo, gravado na Índia, onde o primeiro-ministro está em visita de Estado, destacou Soares como "o rosto e a voz da nossa liberdade" e como "um exemplo de combate constante por aquilo em que acreditava".

E acrescentou: "É um exemplo de coragem de dizer o que pensava e de fazer o que devia, ainda que fosse o único a dizê-lo e a fazê-lo, mesmo que ficando por uns tempos, mas apenas por uns tempos, sozinho. É um exemplo de génio político, que alcançava o que parecia impossível de alcançar".

Costa destacou ainda o percurso de Soares, antes e depois do 25 de Abril de 1974. "Resistente à ditadura, deportado e exilado, preso político, fundador e secretário-geral do PS, ministro dos Negócios Estrangeiros, primeiro-ministro, vice-presidente da Internacional Socialista, deputado e líder da oposição, Presidente da República, presidente do Movimento Europeu, deputado ao Parlamento Europeu, presidente da Comissão Mundial dos Oceanos, presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, presidente da Fundação que tem o seu nome, autor de dezenas de livros", enumerou.

Destacou também os valores de Mário Soares – "a liberdade, a igualdade e a fraternidade" – e descreveu-o como "republicano, laico e socialista" e ainda "humanista, universalista, português, europeu e cidadão do mundo". No final do discurso, Costa invocou "Os Lusíadas" e afirmou: "A única consolação que podemos ter, nesta hora de tristeza, é a de que, para homens como Mário Soares a morte existe menos do que para os outros homens. Da lei da morte, como disse Camões, eles se libertaram pelas obras valorosas da sua vida".

Por fim, Marcelo recordou Mário Soares como um "singular humanista e construtor de portugalidade", como "um homem que fez história", e que, por isso, merecia ser homenageado num lugar como o Mosteiro dos Jerónimos.

"Inspirador lugar este em que nos encontramos, gentes de várias raízes e destinos, unidas pelo essencial: evocar e homenagear um homem que fez história, sabendo que a fazia, mesmo quando tantos de nós nos recusávamos a reconhecê-lo", disse, acrescentando que "mais do que os respeitosos Paços do poder, em Belém ou em São Bento, este lugar é aquele que Mário Soares merecia para o nosso inesquecível encontro". Porque, frisou o Presidente, além das suas capacidades enquanto político e enquanto construtor do Portugal democrático, Soares demonstrou ainda uma "telúrica resistência", uma "indómita vontade" e uma "ilimitada coragem e liberdade".

Marcelo, tal como todos os que falaram esta terça-feira numa grande despedida livre de partidarismos, lembrou também a mulher de Mário Soares, Maria de Jesus Barroso, que morreu em 2015, e terminou as suas palavras resumindo uma ideia nacional generalizada, que todos os cidadãos terão dito e pensado desde sábado, 7 de janeiro, quando Soares morreu: "Em nome de Portugal, mas de todo Portugal, obrigado Mário Soares".

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Rosas, aplausos e lágrimas durante o cortejo fúnebre

Chegou depois a altura de a urna seguir para o cemitério dos Prazeres, cumprindo um cortejo que teria o seu momento mais marcante à passagem pelo Largo do Rato, junto à sede nacional do Partido Socialista, onde centenas de pessoas aplaudiram Mário Soares, agitando rosas amarelas, aos gritos de “Soares é fixe” e de “viva a liberdade”.

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Antes, em paragens frente à Assembleia da República e ali bem perto, junto à sede da Fundação Mário Soares, mais aplausos e uns quantos rostos comovidos.

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Com quase meia-hora de atraso, cerca das 16h, o cortejo chegou finalmente ao cemitério dos Prazeres. Ouviu-se a marcha fúnebre, Marcelo Rebelo de Sousa entregou a Isabel e João Soares a bandeira nacional que desde o início das cerimónias fúbres sempre cobriu a urna do antigo Presidente, e ouviu-se a fechar também a própria voz de Mário Soares, num audio acompanhado por um silêncio respeitoso, que para muitos era já de assumida saudade.

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  • O homem que tentou convencer Soares a voltar ao Partido Comunista

    Mário Soares rompeu com o Partido Comunista em 1950, depois de um conturbado desentendimento na campanha do general Norton de Matos às eleições presidenciais de 1949. Anos mais tarde, o escritor e ensaísta Alberto Ferreira procurou-o na sua casa do Campo Grande, com a partidária incumbência de convencer Soares a voltar ao PCP