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Política

Respeito e gratidão

José Carlos Carvalho

Desde a sua casa no Campo Grande até ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, onde vai ficar em câmara ardente, o cortejo fúnebre de Mário Soares cumpriu o cerimonial imposto pelas honras do protocolo de Estado. Agora, e até ao final da manhã desta terça-feira, é a vez dos populares se despedirem do antigo Presidente

"Obrigada!". O grito irrompeu entre os aplausos das largas dezenas de pessoas que saudavam a urna de Mário Soares, quando o cortejo fúnebre fez a segunda paragem, em frente ao Colégio Moderno. E sintetiza, numa palavra apenas, o teor genérico de todas as mensagens que se foram ouvindo pelas ruas de Lisboa, esta manhã, durante o trajeto até ao Mosteiro dos Jerónimos: respeito e gratidão pelo que o antigo Presidente da República fez por Portugal.

O cortejo fúnebre começara minutos antes, com uma curta paragem junto ao prédio em que Soares vivia, ao Campo Grande, em Lisboa. Passavam poucos minutos das 11h quando as cerca de 300 pessoas que lá aguardavam o antigo Presidente o receberam. Primeiro em silêncio, depois com aplausos. Tímidos ao início, mais veementes quando o carro parou.

Entre os populares, havia quem empunhasse cravos ou rosas. Nalgumas varandas, além de choro e aplausos, liam-se também mensagens de agradecimento. Cá em baixo, junto a uma pequena bandeira da Juventude Socialista, alguns entoaram o famoso slogan "Soares é fixe", das presidenciais de 1986 e que se repetiria ao longo do percurso do cortejo durante a manhã. Mas logo o silêncio, que tinha sido a nota dominante na rua de Soares durante a espera, voltou a imperar, em redor do carro que transportava a urna de Soares, envolta numa bandeira de Portugal. Silêncio por respeito. "Devemos-lhe muito", sussurrou uma senhora, alguns metros atrás dos fotógrafos.

Pouco depois, o carro seguiu até ao fim da rua e foi recebido em aplauso por largas dezenas de populares, alunos, professores e funcionários do Colégio Moderno. "Obrigada!", ouviu-se. A família e amigos próximos de Soares, que seguiam no cortejo em carrinhas, atrás do carro funerário, também agradeceram. Pelo apoio e pela homenagem.

O cortejo seguiu então para os Paços do Concelho, onde a urna foi transportada do carro da funerária para o veículo fúnebre militar (o armão), que transportaria o corpo de Soares até ao Mosteiro dos Jerónimos, acompanhado por 84 militares da GNR montados em cavalos.

A chegada aos Paços do Concelho motivou nova chuva de aplausos, que se repete quando a urna é colocada no armão. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa Fernando Medina coloca um cravo vermelho junto à urna, rodeada por rosas brancas. No fim, depois de o armão partir rumo aos Jerónimos, Medina saudaria, em declarações aos jornalistas, a "coragem, tolerância e convicção" que guiaram a vida de Soares. E também a sua "capacidade de unir os portugueses".

Nesse momento já largas dezenas desses portugueses aguardavam a chegada do cortejo aos Jerónimos. Pelo caminho, pela Avenida 24 de Julho, outras centenas de populares paravam pelo passeio, acompanhando o trajeto do armão até à Sala dos Azulejos, onde Mário Soares será velado até à meia-noite desta segunda-feira e entre as 8h e as 13h desta terça-feira, hora a que sairá rumo ao Cemitério dos Prazeres.

Em Belém, de novo, o silêncio reinava, entrecortado apenas pelas movimentações policiais, os diretos das rádios e televisões ou a parada de militares e da banda da GNR, que se posicionava para receber as mais altas figuras do Estado e o cortejo fúnebre de Soares. À chegada de Marcelo Rebelo de Sousa a banda entoou o hino nacional. Faltavam poucos minutos para as 13h e o Presidente da República ficou à porta da Sala dos Azulejos com Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, e Maria Manuel Leitão Marques, ministra da Presidência, a aguardar a chegada do cortejo.

Escassos minutos depois, de novo os aplausos e os gritos de "Soares é fixe". O armão que transportava Soares chegava ao destino e a última centena de metros seria cumprida a pé, com a urna transportada em ombros por seis militares e a família atrás. A entrada na Sala dos Azulejos acontece ao som da marcha fúnebre de Chopin. E fica de novo o silêncio.

No fim da cerimónia ouvem-se entre os populares alguns curtos 'comícios' unipessoais. "Um homem com H grande! Tenho um grande orgulho nele. Viva Mário Soares", ouve-se ao fundo. Menos de 10 minutos depois da entrada da urna nos Jerónimos, a fila de pessoas que queriam prestar uma última homenagem a Soares era já composta por mais de uma centena, entre cidadãos anónimos e alguns mais conhecidos. Como o deputado socialista Pedro Delgado Alves, que à saída defendeu que "Mário Soares transcende as fronteiras do PS". "É de todos os portugueses e de todo o mundo".