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A “decisão difícil” de Costa

rui duarte silva

Primeiro-ministro português quis corresponder ao empenho inédito da Índia na viagem e, por isso, não regressou a Lisboa para funeral de Soares. Modi, que conferiu a Costa estatuto superior a Theresa May, não o larga até a comitiva partir para Goa

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

António Costa tinha acabado de dar por terminado o programa oficial de sábado, em Nova Deli, quando recebeu a notícia da morte de Mário Soares. Regressava ao hotel vindo de um banquete oferecido em sua honra em Hyderabad House, sede de Governo. Com ele vinham vários ministros - dos Negócios Estrangeiros, da Defesa e da Cultura. A Lusa tinha acabado de dar a notícia: Mário Soares morrera às 15h28 no Hospital da Cruz Vermelha (21h em Nova Deli).

Era o primeiro dia da visita à Índia. O primeiro-ministro tinha chegado a Nova Deli menos de 24 horas antes e tinha pela frente um programa intenso, preparado há meses com o Governo indiano, que quis dar a esta visita o carácter de visita de Estado, como forma de destacar a importância da relação bilateral - estatuto que, por exemplo, em Portugal só pode ser dado a Presidentes da República, nunca a primeiros-ministros. Isso quis dizer que Costa teve direito a passar revista às tropas no Palácio presidencial, a fazer uma deposição de coroa de flores no memorial de Gandhi. Este estatuto de visita de Estado foi dado ao primeiro-ministro da Nova Zelândia há pouco tempo mas não à primeira-ministra britânica, Theresa May, que visitou a Índia em novembro.

Mas mais importante: o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, iria acompanhar Costa durante todos os dias (sábado, domingo, segunda-feira e terça-feira) - apenas não o acompanha a Goa, a última etapa. E foi por causa de Modi que foi incluída no programa uma deslocação a Ahmedabad no Estado do Gujarat, de onde é natural o primeiro-ministro indiano e onde foi também governador.

António Costa não quis interromper a sua viagem à Índia, regressando de imediato a Lisboa, para que estes gestos não constituíssem um desrespeito pela boa vontade institucional manifestada pelo Governo indiano nesta visita e que é inédita. O primeiro-ministro tinha consciência que havia este risco, o de Soares morrer durante a viagem. Se tal acontecesse na reta final, dias dedicados a Goa em que a visita adquirirá um caráter mais pessoal, teria sido mais fácil tomar a decisão de antecipar o regresso. Assim, não havia dúvidas para Costa, que teve a compreensão dos familiares de Soares nesta decisão. Foi por causa disso que disse e repetiu no dia seguinte aos jornalistas que “trata-se de uma visita de Estado e o primeiro-ministro não tem vontade pessoal - Faz o que deve fazer”. “Se fosse uma vontade pessoal, gostaria de fazer o que todos os amigos de Mário Soares gostariam de fazer, estar presentes e dar um abraço à Isabel e ao João [filhos do ex-PR].”

A 11.000 kms de distância, em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, onde se encontra a urna de Mário Soares, a ministra da Presidência, Maria Manuel Leitão Marques, declarava que prevaleceram as razões de representação do Estado, mas que tinha sido “uma decisão muito difícil” para o chefe de Governo.

O convite de Modi para Costa se deslocar à Índia foi feito pouco tempo depois da tomada de posse do atual Governo. O convite foi aceite e os dois lados começaram a trabalhar juntos para preparar a visita, que esteve para se realizar em julho. Devido ao calendário do primeiro-ministro português, a data foi sendo adiada até que veio a sugestão do lado indiano para fazer a visita coincidir com a Pravasi Bharatiya Divas Convention, a convenção da diáspora indiana que ocorre de dois em dois anos, a 9 de janeiro, o dia em que Mahatma Gandhi regressou à Índia depois de vários anos a viver na África do Sul.

António Costa é representado no funeral pelo número 2 do Governo, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, que também estava em Nova Deli. O ministro regressou a Lisboa no domingo, no único lugar que ainda estava disponível no voo.