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“Se houver recessão na Europa, não há Santo António que nos valha”

JOSÉ CARLOS CARVALHO

Capoulas consciente de ameaças externas em 2017. Não é o único ministro preocupadoA economia tem que crescer em 2017, mas a margem pode ser estreita com a incerteza mundial

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

2017 será um ano de “ameaças, riscos e incertezas”, avisava o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. O ano não começa bem para António Costa, com o dossiê do Novo Banco a dificultar o novo ano político e a abalar os equilíbrios com PCP e BE, que pressionam uma nacionalização. Mas as maiores ameaças vêm de fora.

A subida das taxas de juros, a eventual mudança de política do BCE sobre compra de dívidas soberanas, os efeitos do ‘Brexit’ na Europa são algumas das ameaças. “Venha o diabo e escolha o mais preocupante”, reconhece o ministro da Segurança Social, Vieira da Silva, ao Expresso. “Se houver uma recessão na Europa, não haverá Santo António que nos valha”, desabafa o ministro da Agricultura, Capoulas Santos. “Vai ser um ano de imprevisibilidades. A situação internacional pode levar-nos a fazer ajustamentos”, acrescenta o líder parlamentar do PS, Carlos César.

O que pode o Governo fazer contra essas adversidades? Estimular o crescimento da economia e da confiança. É a única via, defende o Executivo. E contar com a saída rápida do Procedimento por Défice Excessivo, de modo a Portugal ser percecionado de outra forma pelas agências de rating para reganhar acesso a mais fundos comunitários. O ideal é que isso aconteça já em março, confia S. Bento. António Costa é um otimista por natureza, mas há apreensão no Governo.

“O Presidente apelou a um maior crescimento, não há quem não partilhe essa vontade. A questão é saber como, se a conjuntura internacional for hostil”, afirma Capoulas Santos. Se a parte económica correr mal (o Governo estima 1,5% de crescimento em 2017), pode ficar também em causa a estabilidade da solução de Governo. “Com uma economia fraca e débil, diminui a estabilidade política. Continuar os acordos de esquerda tem a ver com melhoria da situação social e de rendimentos que exigem mais recursos. A questão-chave é seguramente a economia”, reconhece o governante.

Na mensagem de Ano Novo, Marcelo Rebelo de Sousa considerava que “2016 foi o ano da gestão do imediato, da estabilização política e da preocupação com o rigor financeiro” e 2017 “tem de ser o ano da gestão a prazo e da definição e execução de uma estratégia de crescimento económico sustentado”. A ideia da gestão do imediato não é, contudo, consensual no Governo.

“Tenho dificuldade em distinguir medidas de curto, médio e longo prazo num momento em que a economia está em reestruturação profunda. Quando se fala, por exemplo, em alargar a educação pré-escolar, não estamos a falar do curto-prazo”, considera Vieira da Silva.

Com tanta incerteza, a questão da dívida será determinante também em 2017. Para BE e PCP, é essencial darem-se passos para a sua renegociação. No Governo, onde há diferentes sensibilidades, a palavra que reunirá mais consenso é o escalonamento. “Toda a gente está de acordo que seria benéfico para nós o rescalonamento ou recalendarização da dívida”, defende Capoulas Santos, revelando que esse tema está sempre presente nas conversas informais em Bruxelas, apesar de não constar da agenda oficial dos chefes de Estado. Carlos César acrescenta outro fator: “Nenhum Governo gosta de pagar mais. Se a subida de juros continuar, pode ser que todos fiquem mais despertos e adotem outros mecanismos.”

Em dezembro, o ministro-adjunto, Eduardo Cabrita, admitia que à medida que Portugal consiga cumprir todas as metas europeias “terá mais capacidade para participar nesse debate”. É nesse quadro também que entra o acordo de concertação social para aumento do salário mínimo. O Governo podia tê-lo feito sem acordo dos patrões (estava previsto na posição conjunta assinada com o BE), mas insistiu e pagou por ele um preço elevado (cedeu aos patrões na TSU e ganhou a fúria do BE e PCP). O objetivo tem mais a ver com o exterior: mostrar ao FMI e a Bruxelas que não tem os empresários contra si.

“Quanto maior a nossa estabilidade e quanto maior a solidez do nosso caminho, melhor preparados estaremos para navegar nesse mar de incertezas”, defende Cabrita ao Expresso, desdramatizando a subida dos juros esta semana, por se tratar de uma tendência europeia.
E a ‘geringonça’? Este início de ano também não é fácil para os partidos que apoiam o Governo. Exemplos? A descida da taxa social única paga pelas empresas, as parcerias público-privadas na saúde, o que fazer ao Novo Banco.

Do lado do Governo, as sondagens contam para manter PCP e BE sem quebrar amarras. A ideia é que a maioria dos portugueses confia nesta solução de Governo e acha que está a ser bem sucedida, o que tornaria incompreensível uma quebra de consenso entre os partidos. “Qualquer crise não seria recomendável”, considera Vieira da Silva.

2017 será também ano de eleições autárquicas, mas a guerra deverá ser maior entre PS e PSD do que à esquerda. O famoso pacto de não-agressão vai acabar por existir entre PS e PCP apenas pelo facto óbvio de disputarem o mesmo eleitorado e de os seus programas eleitorais autárquicos não serem muito distintos. No Governo, ironiza-se até que as autárquicas vão ser boas para “aliviar a pressão mediática” sobre o Governo, para mais em tempo de negociações do Orçamento para 2018. Desviar as atenções, por outras palavras.