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A mulher que não gostava de ser primeira-dama

Mário Soares e Maria Barroso em 1958

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Ao longo de sete décadas Mário Soares e Maria Barroso partilharam uma imensa cumplicidade, amor, amizade, ideais políticos e uma família. Ela era doce e era firme. E foi um pilar na vida de Soares. Tal como o antigo PR, Maria Barroso, que morreu a 7 de julho de 2015, marcou o século XX português. O Expresso volta a publicar o texto que saiu na edição impressa de 11 de julho, quatro dias depois do seu desaparecimento

Tinha a intuição atávica de quem já nasceu pronta a enfrentar os caprichos do destino. Foi amadrinhada pela aprendizagem da distância: ausências e partidas, encontros e regressos. A filha do capitão Alfredo José Barroso, algarvio da vila de Alvor, era uma mulher de muitos mundos. Sentiu o cheiro da cadeia na primeira infância porque o pai foi preso quando ainda não tinha dois anos; ele e outros 600 portugueses que o regime autoritário associou ao golpe do 7 de fevereiro de 1927, a primeira de muitas tentativas para derrubar a Ditadura Militar instaurada a 28 de maio de 1926.

Seis anos mais tarde, em 1933, Alfredo José voltaria a ser preso por motivos políticos. Deportado para os Açores, as visitas da família tornaram--se impossíveis. E é assim que Maria de Jesus cedo descobre a saudade e a distância imposta pelo exílio. E o que é ter um ente querido confinado a um espaço isolado. O caminho não a pouparia a uma segunda detenção numa ilha quando já ia na quarta década de vida; em 1968, o marido foi deportado para São Tomé. Apesar disso, a África Austral haveria de lhe acentuar a doçura, fazendo brotar um novo ânimo no combate pelos direitos humanos.

Mário Soares e Maria Barroso com os filhos: João, o mais velho, nasceu, em 1949, ano em que casaram os pais, e Isabel em 1951

Mário Soares e Maria Barroso com os filhos: João, o mais velho, nasceu, em 1949, ano em que casaram os pais, e Isabel em 1951

A mediação em Moçambique

Em setembro de 1991, no início do segundo mandato presidencial de Mário Soares, a Conferência Episcopal da África Austral desafiou-a para assumir um papel de mediação na guerra civil de Moçambique. A fome, o sofrimento e a devastação que testemunhou - fruto de um conflito que durou 15 anos e matou 450 mil pessoas, metade das quais crianças - fez com que descobrisse um olhar ainda mais empático com os desafortunados de todo o mundo.

Aos 66 anos, a viagem a Ressano Garcia deu uma nova causa à filha que Maria da Encarnação Simões Barroso viu nascer em 1925. Quando regressou era "uma pessoa diferente"; a imagem (in situ) do sofrimento, da fome e da carência generalizada da população sitiada pela guerra, fizeram com que, a partir daí, empenhasse o seu prestígio pessoal na luta pela paz em Moçambique. Ressano Garcia acabaria por ser decretada zona de paz em janeiro de 1993. Haveria de lá voltar em 2011 para apresentar um livro de memórias dessa jornada.

África também foi o cenário onde ocorreu o momento mais difícil da sua vida. Na madrugada de 27 de setembro de 1989, o casal estava a preparar--se para uma viagem oficial à Hungria.

Isabel, a filha de ambos, recebe um telefonema para ir preparando os pais: era preciso dar notícia de que o irmão sofrera um acidente de aviação no sul de Angola, e que estava entre a vida e a morte. O Presidente segue para a Hungria. Maria parte imediatamente para Pretória, para onde o filho fora entretanto transferido. A angústia que sentiu nos meses seguintes ditou a sua conversão e aproximação à Igreja Católica.

Sete décadas em comum

No dia 12 de fevereiro de 1949, o general Norton de Matos, retirou a sua candidatura à Presidência da República por ter constatado que o regime do Estado Novo não iria assegurar as garantias necessárias à realização do sufrágio eleitoral. Cinco meses antes, a jovem e promissora atriz Maria Barroso - sua apoiante - foi afastada do Teatro Nacional, por pressão da ditadura, quando estava prestes a integrar o elenco de "A Casa de Bernarda Alba", de Garcia Lorca. E, Mário Soares, o seu companheiro - e também apoiante de Norton de Matos - tinha sido preso [mais uma vez] em janeiro desse ano.

As restrições impostas pela polícia política no que toca a visitas e o facto de Maria estar grávida fizeram com que os dois tenham decidido casar-se por procuração, a 22 de fevereiro de 1949, na Conservatória do Registo Civil.

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Casaram na cadeia, perto da hora de almoço.

Bá, amiga de Maria e mulher do escritor Manuel Mendes que também estava preso, acompanhou a noiva na 'cerimónia'. "Fomos logo a correr para o Aljube porque queríamos chegar a tempo da visita das duas e meia, que durava uma hora. Não estivemos sozinhos, mas encontrámo-nos no meio de toda a gente que tinha ido à visita ao terceiro andar da cadeia. E lá trocámos as alianças que eu levava", contou Maria Barroso numa entrevista em 2003.

Tiveram dois filhos - João (1949) e Isabel (1951) - cinco netos - Inês (1976), Mafalda (1981), Mário (1986), Jonas (2003) e Lilah (2007) - e uma relação de intensa cumplicidade que durou sete décadas.

1961: o ano de todas as prisões

Alfredo José Barroso tinha 74 anos quando foi preso em 1961. Nesse ano, Maria Barroso teve o pai e o marido na prisão. Era o começo de uma dura década, em que a PIDE lhe tentou cortar as asas, impedindo-a de exercer funções docentes, apesar de a sua licenciatura em Histórico-Filosóficas a habilitar a ser professora. Esta proibição haveria de se manter até ao 25 de Abril de 1974. Nessa época trabalhava no Colégio Moderno para garantir o sustento dos seus.

Em 1969, foi candidata a deputada pela Oposição Democrática. A 4 de abril de 1973, participou no III Congresso da organização, em Aveiro; foi a única mulher que interveio na sessão de abertura do Congresso de Aveiro e o jornal "República" retratou-a como "o símbolo da mulher portuguesa".

Foi também a única mulher no núcleo fundador do Partido Socialista, no congresso da Ação Socialista Portuguesa que se realizou a 19 de abril de 1973 na Alemanha; ela e o marido tiveram votos em sentido contrário quanto à data oportuna para fundar o PS.

Uma mulher com esta história de vida merece mais do que ser recordada como a ex-primeira-dama. Até porque ela não gostava da expressão e, por isso, talvez tenha chegado o momento de passar a utilizar as expressões 'cônjuge do Presidente' ou 'presidente consorte'.

Por ironia do destino partiu no mesmo hospital em que morreu Salazar, o homem cujo regime a privou da companhia do marido e do pai.

Em 1962, no dia em que a 'equipa' Barroso Soares celebrava o 13º aniversário de casamento, Mário estava preso. Na cadeia escreveu um poema à companheira: "Para ti/ Meu amor/ Levanto a voz/ No silêncio/ Desta solidão em que me encontro/ Sei que gostas de ouvir/ A minha voz/ (...) Apesar da distância (...)".

Texto inicialmente publicado na edição impressa de 11 de julho de 2015