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Soares, uma vida (parte 5): o Presidente popular que irritava os governantes

Mário Soares cumpriu dois mandatos como Presidente da República. A sua ascensão a Belém ficou marcada por um duro combate político com a direita. Já enquanto Chefe de Estado, protagonizou com Cavaco Silva alguns dos momentos mais vivos de luta política entre dois homens com personalidades muito distintas

SIC Notícias

Mário Soares foi um candidato provável a uma vitória improvável nas presidenciais de 1986. Contra as sondagens e contra Freitas do Amaral, o experiente político revelou coragem física e anímica num combate envolto em alguns excessos.

O primeiro mandato presidencial de Mário Soares fica marcado pela chamada coabitação, ou seja, pela relação institucional entre o Presidente eleito e o governo de um ou mais partidos. Nos primeiros cinco anos da magistratura de Soares em Belém, esta relação é personalizada no próprio Presidente da República e na figura de Cavaco Silva, o primeiro-ministro da maioria relativa de 1985 e das maiorias absolutas de 1987 a 1995. Na prática, mais de uma década de convívio institucional entre duas personalidades política e pessoalmente muito diferentes deu azo a vários episódios nem sempre pacíficos na vida política portuguesa.

Desde logo, muitos olharam com desconfiança crítica as especificidades introduzidas por Mário Soares na sua magistratura de influência. Longe do perfil militar do seu antecessor, António dos Santos Ramalho Eanes - visto como figura austera, quase espartana, como Chefe de Estado -, a vitalidade de Mário Soares terá surpreendido os adversários, em primeiro lugar, e quiçá alguns dos seus defensores. De entre todas ações que deixaram marca nos dois mandatos como Presidente da República, as Presidências Abertas merecem um sublinhado. Pela popularidade crescente e sustentada que trouxeram ao seu protagonista, por alguma irritação subsequente que levaram aos governantes. Cavaco Silva chegou a qualificar de "força de bloqueio" os périplos presidenciais.

Esta filosofia muito própria de fazer política levou Belém a todos os cantos do país, inaugurando e alargando a chamada "política de proximidade", cuja principal consequência foi dar voz a populações e a problemas normalmente afastados da ribalta nacional.

O modo como cada uma delas aconteceu perpetuou na memória colectiva os jeitos e trejeitos de alguém que conquistou afetos transversais à sociedade. Prova disso, a reeleição sem dificuldades para o segundo mandato presidencial consecutivo saído das eleições de 1991. A abertura ao país não teve menor fôlego.

No total foram 11 as Presidências Abertas realizadas na vigência de Mário Soares enquanto Chefe de Estado. A primeira, simbolicamente realizada em Guimarães - o chamado berço da pátria -, teve início a 16 de setembro de 1986; a última, consagrada ao Ambiente e Qualidade de Vida, realizou-se um pouco por todo o país entre os dias 4 e 21 de abril de 1994. De permeio, Bragança, Beja, Guarda, o Douro, Portalegre, Açores, Coimbra, Viana do Castelo e a Área Metropolitana de Lisboa foram palco das visitas abertas de uma Presidência que cumpriu o último dia de mandato a 9 de março de 1996.

O mais veterano dos políticos portugueses voltaria a tentar conquistar o Palácio de Belém 10 anos mais tarde.

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