Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Soares, uma vida (parte 4): o eufórico comboio da liberdade

Por força das circunstâncias, Mário Soares assistiu fora de Portugal ao Movimento dos Capitães de Abril. Três dias depois da revolução, regressou ao país novo, envolto num banho de multidão que o acolheu vindo de Paris. Era o início de um longo e inédito protagonismo no Portugal democrático

SIC Notícias

28 de abril de 1974. Três dias depois da Revolução dos Cravos, Mário Soares regressa do exílio em Paris no que ficou conhecido como "o comboio da liberdade". Uma multidão acolhe o homem que um ano antes fundara o Partido Socialista e desenvolvia, a partir do exterior, a oposição possível ao regime. Com este destituído, Soares caminhou como cidadão livre pelas ruas de Lisboa. Dois dias depois, fá-lo-ia pela primeira e última vez na companhia de Álvaro Cunhal, ele próprio regressado do exílio no dia 30 de abril e com quem viria a travar importantes batalhas políticas e ideológicas.

O 1.º de Maio de 74 ficará na história pelo enorme grito de liberdade pronunciado em uníssono pelas dezenas de milhares de pessoas que encheram as artérias capital. Soares entre os primeiros nas fileiras, entre os primeiros nas palavras.

Ao dirigente do Partido Socialista, já com méritos reconhecidos no plano internacional, a Junta de Salvação Nacional adjudicou um périplo europeu com vista ao reconhecimento diplomático da jovem democracia. Em Portugal, é com naturalidade que Mário Soares integra os I, II e III Governos Provisórios com o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, tendo desenvolvido as negociações que conduziram à independência das colónias portuguesas em África.

Já em 1975 será ministro sem pasta no IV Governo Provisório, do qual se demite em consequência do "caso República". Alguns trabalhadores do jornal ocupam e demitem a direção por considerarem que esta transformou o periódico num porta-voz dos interesses socialistas. Os ministros do PS abandonam o Governo, no que são acompanhados dias depois pelos governantes afectos ao então PPD.

1975 é um ano particularmente importante para Portugal no que concerne a movimentações e transformações políticas. Nomeadamente para o PS, que vence as primeiras eleições livres por sufrágio universal que formam a Assembleia Constituinte. A 8 de agosto do mesmo ano toma posse o V Governo Provisório, novamente liderado por Vasco Gonçalves; dura pouco mais que cinco semanas. Extrema-se o distanciamento entre o Partido Socialista de Soares e o Partido Comunista de Cunhal. Ambos dirimiram argumentos em direto num debate memorável ocorrido no dia 6 de novembro de 1975.

As divisões entre os dois homens jamais seriam sanadas e o combate político manteve-se ao longo de décadas. De permeio, as incidências de uma luta política entre direita e esquerda e mais um governo provisório, o sexto desde a revolução, chefiado por Pinheiro de Azevedo, que pôs fim ao “gonçalvismo”. O Executivo integra membros do PS, mas Mário Soares fica de fora. Menos de um anos depois será primeiro-ministro.

  • Soares, uma vida (parte 2): a consolidação do zoon politikon

    Mário Soares emergiu em pleno para o combate político ainda durante a sua juventude. Licenciado em Direito, o jovem Soares usou a sua formação académica em prol dos que lutavam contra o antigo regime. A luta valeu-lhe a perseguição política e uma vida feita de sobressaltos e exílio

  • Soares, uma vida (parte 3): as históricas 18h daquela quinta-feira

    Mário Soares foi o primeiro secretário-geral do Partido Socialista. Fundada em 1973, a nova força partidária viria a dar cartas no Portugal de antes e pós-25 de Abril. Um ano antes da Revolução dos Cravos, e sob a égide de Soares, o PS foi dos principais contestatários da visita que Marcello Caetano efetuou a Londres. O líder recém-eleito esteve entre os manifestantes que protestaram frente à embaixada de Portugal na capital britânica

  • Soares, uma vida (parte 6): nem só de vitórias se faz a vida dos vitoriosos

    Dono de um percurso político invejável, Mário Soares teve de enfrentar algumas derrotas no longo trajeto que o consagrou como figura de proa do Portugal livre. A mais evidente terá sido o terceiro lugar nas eleições presidenciais quando, já com 80 anos, tentou um terceiro mandato em Belém. Antes disso, o Parlamento Europeu já havia rejeitado o político veterano na corrida à liderança da câmara dos eurodeputados