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“Percebo as pessoas no que elas dizem e no que elas não dizem. É talvez a maior qualidade que tenho”

joão carlos santos

Apesar de ter tido o poder executivo na mão enquanto antigo primeiro-ministro, Mário Soares do que mais gostou da sua passagem pela política foi do poder de influência na chefia do Estado. Assumiu que só soube fazer duas coisas na vida, “falar e escrever”, confissão feita numa entrevista ao Expresso em abril de 2010, e que agora republicamos na data da sua morte, aos 92 anos

Se todas as entrevistas têm um propósito, o desta não passava por colocar o ex-primeiro-ministro e ex-Presidente da República Mário Soares perante a enésima reflexão sobre as grandes questões políticas do mundo e do país, ou até por fazê-lo discorrer uma vez mais sobre os efeitos da manifestação da Fonte Luminosa no comportamento da Revolução do 25 de Abril de 1974.

Desde aquela data, Portugal já conheceu 15 primeiros-ministros. Dos primeiros oito – Palma Carlos, Vasco Gonçalves, Pinheiro de Azevedo, Mário Soares, Nobre da Costa, Mota Pinto, Maria de Lourdes Pintasilgo e Francisco Sá Carneiro – apenas um, o também ex-secretário-geral do PS, continua, aos 85 anos, entre nós e activo. Acresce que Soares foi o primeiro a assumir aquelas funções após um processo de eleições livres e foi o único repetente no cargo depois de um interregno.

A 36 anos de distância do 25 de Abril quisemos ouvi-lo falar de detalhes do exercício do poder num país acabado de chegar à democracia, e onde as estruturas do Estado se tinham desmoronado para dar lugar a uma luta intensa entre forças com radicais visões da sociedade nova a construir. O homem que diz de si próprio que "na verdade só soube fazer duas coisas na vida, falar e escrever", teve o poder executivo na mão, mas, confessa, do que mais gostou foi do poder de influência enquanto Presidente da República.

Chegou a primeiro-ministro em Julho de 1976. Sempre achou que inevitavelmente um dia exerceria esse cargo?
Não. Nem pensar. Admitia que talvez pudesse vir a ser deputado. Devo dizer que quando vencemos as eleições e se pôs no horizonte a necessidade de um socialista ser primeiro-ministro, propus que fosse Salgado Zenha. Agradava-me ser parlalentar e achava-o melhor preparado. Contudo, a direcção do PS discutiu o assunto e considerou que devia ser eu. O próprio Zenha foi dessa opinião. Defendi então que, nesse caso, ele deveria ser o líder do PS no Parlamento. E assim aconteceu.

Teria gostado de explorar mais a veia parlamentar?
Gosto de falar, de intervir, de confrontar ideias. E acho que o Parlamento é o centro da Democracia. Mas, enfim, fui primeiro-ministro, aliás num tempo muito difícil. Gostaria de ter sido parlamentar na Assembleia Constituinte. E só fui pouco tempo. A vida obrigou-me a ir para o Governo. Era o líder do PS, o partido mais votado. O PS entrou na Internacional Socialista e conheci na altura todos os líderes da IS, que eram grandes figuras e estadistas, como Willy Brandt, Mitterrand um pouco mais tarde, Olaf Palme, Kreisky, Nenni, Craxi, Wilson e Callaghan. Eram gigantes. Sempre tive uma visão clara do que devia ser o futuro de Portugal. Em primeiro lugar, queria que fizéssemos a descolonização o mais rapidamente possível. Percebi muito bem - ainda estava no exílio - que sem a descolonização não havia democracia possível nem desenvolvimento sustentado.

Está-se preparado para ser PM ou a realidade práticavem evidenciar dificuldades inimagináveis?
É natural que a realidade seja diferente e nos imponha correcções. Mas o nosso pensamento vai-se aperfeiçoando e adaptando às circunstâncias para conseguir os nossos objectivos. Os objectivos são a estratégia. Mas a prática obriga-nos ao pragmatismo. Quando regressei do exílio, em 28 de Abril de 1974, tinha objectivos claros. Primeiro: fazer a descolonização o mais depressa possível, porque era essencial pôr fim às guerras coloniais, factor essencial de imobilismo e do bloqueio da ditadura. Segundo: construir uma democracia pluralista de tipo ocidental, onde todos os partidos e sindicatos estivessem representados. Terceiro: desenvolver o país, em momento de crise. O caminho, no meu entender, era entrar na Comunidade Económica Europeia (CEE). Desde o início que disse isso. Estou convencido que ganhei as primeiras eleições constituintes de 1975 porque andei pelo país inteiro, que tinha muitos emigrantes portugueses na Europa, que conheciam muito bem o que era a política desses países e o bem-estar que proporcionavam às populações. Nos comícios e nas conversas dizia sempre que íamos ser um país europeu. Como os outros. Os emigrantes mandavam dinheiro, para as famílias, que lhes perguntavam como era. A massa dos emigrantes portugueses influenciou as suas famílias a votarem PS. Isso foi decisivo para a vitória do PS.

O primeiro-ministro tem um poder real?
Obviamente. Mas depende de ter mais ou menos maioria no Parlamento. Ora, o meu primeiro governo foi minoritário. Se tivesse maioria teria um poder muito maior. Acima das dificuldades que tínhamos, por se tratar do I Governo Constitucional, havia uma outra, grave. Desde 1973, sofríamos os efeitos da crise do petróleo. A Revolução foi feita em contraciclo. Houve que realizar um grande esforço e fomos obrigados a negociar com o FMI. Foi, por isso, que resolvi propor ao Parlamento uma moção de confiança. Foi rejeitada e o governo caiu. O general Eanes, para quem não seria muito desagradável que eu saísse do Governo, quando viu que o acordo com o FMI não estava assinado, percebeu que estávamos perante uma situação dificílima. Quem é que ia fazer o resto? Entrávamos em bancarrota, como previa Silva Lopes, governador do Banco de Portugal?

O país estava a passar por uma crise social gravíssima. Como é que convivia com isso?
Era uma crise económica e social gravíssima, mas nós vencêmo-la em 1978. O problema é que ela se repetiu para pior em 1983. Apanhei, nos governos que presidi, duas grandes crises e conseguimos resolvê-las ambas. A primeira foi essa. A segunda foi aquela em que tive de ir à Assembleia dizer que nem pensar em distribuir o 13º mês. Quer decisão mais impopular? Fui eu que a tomei.

São decisões que desencadeiam grandes movimentações sociais. Como é que no Palácio de São Bento se convive com o desespero das populações?
Vive-se sem medo e com boa consciência. Porque tinha a certeza absoluta de que estávamos a fazer aquilo que era indispensável para o país. É claro que é muito difícil convencer, sobretudo os partidos da oposição e os sindicatos. É, aliás, o que se passa hoje. Estamos a viver um período parecido, talvez pior, do que esses que eu tive. Mas é preciso ter confiança no futuro de Portugal e ter sobretudo uma estratégia coerente. Mas no 1º Governo fez-se uma coisa notabilíssima que aliás vinha já de trás, do VI Governo Provisório. Foi o general Gonçalves Ribeiro, presidente do IARN, quem dirigiu essa operação. Recebemos cerca de 800mil retornados. Alguns trouxeram os carros, mas outros nem carros trouxeram. Vieram sem dinheiro, sem casa, sem profissão, cheios de medo e revoltados contra tudo o que lhes ti- nha sucedido. No fundo, eles eram também responsáveis por se terem deixado convencer que as guerras coloniais podiam ser vencidas. Perguntavam porque é que as tropas portuguesas não ficaram lá a combater, para manter as suas posições. Mas quem combatia eram os militares. Foram eles que fizeram - e bem, patrioticamente - a Revolução dos Cravos. Tivemos que realojar e reinserir na sociedade portuguesa 800 mil pessoas.
Sem sequelas graves. Foi um exemplo mundial.

Até que ponto as movimentações sociais passam da rua para dentro do gabinete do PM e influenciam a sua actividade?
O PM tem de estar atento. Tem de ter calma para não se irritar. E estar seguro do que está a fazer. Fui muito combatido. Nada que se compare com Sócrates, reconheço. Devo dizer que não conheço ninguém que tenha sido mais atacado do que Sócrates. Mas é corajoso e determinado. Sabe o que quer. Não se deixa ir abaixo. Lembra-se que quando se pôs a ideia de eu ser candidato à Presidência da República, da primeira vez, tinha 7% das sondagens? Mesmo os meus correligionários achavam que talvez eu não devesse candidatar-me. Era um grande risco. Mas, como diz o povo, "quem não arrisca não petisca". Quanto à rua, uma vez, era primeiro-ministro, ao entrar em São Bento, havia uma manifestação à porta, a injuriar-me. Parei, saí do carro e disse ao polícia: 'O que faz aí, que não prende este senhor que me está injuriar?' O polícia prendeu-o. Era um sindicalista da Inter, aliás católico. Os gritos de fúria desencadearam-se. Entrei. Um ano depois esse sindicalista, Manuel Lopes, que esteve preso um dia, votou em mim. Tornámo-nos amigos.

O actual desencanto dos cidadãos em relação à política e à economia pode cristalizar num perigoso divórcio da política?
A questão é conjuntural, mas é séria. As pessoas não estavam à espera que depois da crise económica e, sobretudo, depois dos casos graves que provocaram a crise, com grandes responsabilidades de gestores e de alguns banqueiros, tudo tenha continuado na mesma. Ora, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Quanto à questão política portuguesa, tem havido uma grande crispação, excessiva, desagradável, que não leva a nada de bom. Felizmente, apareceu um líder do PSD que se apresentou com grande sensatez, dizendo que não quer mais querelas pessoais e que o importante é debater ideias e estratégias. Se assim for, estão criadas as condições para haver um melhor ambiente interpartidos.

Como explica esse seu entusiasmo perante alguém como Passos Coelho, que, do ponto de vista económico, se apresenta com um programa tão liberal?
É um neoliberal. Mas tem bom senso. Entusiasmo não será a palavra. Acontece que fiquei bem impressionado com os discursos que fez e as atitudes generosas que tomou, mesmo em relação aos seus adversários do PSD. Julgo que acha negativo que o primeiro-ministro seja insultado e chamado mentiroso. Agora, quando diz que quer privatizar os correios e outras companhias semipúblicas, não fico satisfeito. O Estado precisa de manter os poderes que tem e não deve vender os anéis. Num momento em que há dificuldades sérias, como esta crise, a quem é que se vai pedir auxílio? Aos privados? Viu alguém dar dinheiro para ajudar as empresas e os bancos em pré-falência? Correram todos de mão estendida para o Estado.

Ainda assim, o discurso anti-Estado está muito presente...
Não, não está. É um discurso neoliberal que no meu entender não está nada consolidado. Consolidada está a necessidade de um novo paradigma económico e financeiro. Essa ideia está consolidada em Portugal e na Europa, não a nível dos dirigentes, mas a nível da sociedade civil e sobretudo dos cidadãos

Essa sociedade civil, que viveu com entusiasmo e esperança o 25 de Abril, não pode estar agora a olhar para trás e a considerar que as elites políticas que nos governaram nestas últimas décadas falharam?
Não. Há que fazer distinções. Haverá políticos que estão desacreditados, não o nego. As guerrilhas pessoais e partidárias também não ajudam.Mas há políticos responsáveis em todos os partidos.A situação que estamos a viver é muito difícil no plano mundial, no plano europeu e no plano ibérico. Também em Portugal. Mas não se deve apontar o dedo acusador apenas ao Governo. As responsabilidades são repartidas. Há desemprego, as contrariedades são grandes. E se não se atende a esse descontentamento podem surgir grandes conflitos sociais. As pessoas não são contra a democracia, não querem voltar à ditadura. Nem pensar nisso. As pessoas estão descontentes com a crise que estamos todos a viver e foi importada. Ninguém tem dúvidas do progresso que houve em 36 anos de democracia, em todos os sectores.

Como é que vê o facto de, na Madeira, as comemorações do 25 de Abril serem ostensivamente ignoradas?
O caso da Madeira é único e não penso que seja significativo, nem sequer do povo da Madeira. Devem a autonomia ao 25 de Abril. Quererão voltar a uma ditadura, imposta a partir de São Bento? Não creio.

Dentro das histórias de contestação de que foi alvo há o célebre episódio da Marinha Grande. Com a experiência acumulada, e em face do sucedido, a sua reacção não é já a de quem está a antever os dividendos políticos que dali podiam resultar?
Não se pode ter essa ideia. Eu vinha de fazer um comício na Nazaré, uma terra profundamente socialista. Ia a dormir naquele pinhal que vai da Nazaré para a Marinha Grande e de repente a comitiva parou. Eu ia no primeiro carro. Perguntei o que se passava e disseram-me que havia ali um camarada nosso, um tipo pequeno, que me apareceu já com a cabeça aberta, com uns pontos, um tratamento feito numa farmácia. Disse-me para não dar nem mais um passo, porque eles matavam-me na Marinha Grande. Agradeci o aviso, mas disse para seguirem. Chegámos lá e estava aquela gente toda vestida de preto, a gritar que tinha fome. Eu ia para a fábrica Stephens. Aquilo pa- rou e eu, porque o carro não podia andar mais, saí e avancei para eles sempre a dizer "com licença, com licença". Cederam. Deram-me passagem e quando isso aconteceu vieram uns tipos por trás, começaram à paulada. Quem é que podia prever uma coisa destas? Ninguém, acho eu. Levei uma paulada num braço e ainda hoje, de vez em quando, me queixo. Na televisão, quem se viu cheio de sangue foi o Paulo, o chefe da segurança. Eu não. Por sorte estava lá a televisão, que caiu em cima de mim e eu reagi furioso, com a indignação do momento. Toda a gente percebeu que se tratara de uma reacção na hora e o mais espontânea possível.

Perante estes dramas sociais,com manifestações, imposições do FMI, o homem que é PM consegue despir-se disso tudo e dormir tranquilamente?
Dormi sempre tranquilamente. Mesmo depois da Marinha Grande e de um comício em Leiria dormi bem na viagem de regresso a casa. Houve pessoas, como o advogado José Manuel Galvão Teles e a família, que foi de propósito de Lisboa a Leiria para participar no comício. Por terem ficado indignados com o que viram na televisão. Os agressores ficaram isolados. Mas ninguém nunca me viu explorar essa circunstância.

Como é que se gerem os conflitos entre ministros?
Com calma, bom senso e uma pitada de autoridade. É preciso perceber as pessoas. No terceiro governo houve uma coligação, o Bloco Central. Nunca tive um problema difícil com o professor Mota Pinto. Era um homem de bem e muito inteligente. Tinha uma grande simpatia humana. Tive um sarilho medonho, nesse tempo, por causa da Lei do Aborto, proposta pelo PS. Foi sério. Havia dois ministros, pelo menos, que eram de missa diária. O Rui Machete e o das Finanças, o Hernâni Lopes. Eram frontalmente contra a lei. Fiz-lhes ver que não se deviam demitir, porque não se tratava de uma questão do Governo. Era tão-só uma questão do PS. Estavam, portanto, no pleno direito de fazer toda a propaganda que quisessem, mas isso não deveria abalar, quanto a mim, a coligação. Depois, como se deve lembrar, fui visitar o Papa. Também foi uma visita difícil. OMachete, que era ministro da Justiça e que eu tinha convidado para ir comigo, disse-me que era uma grande honra. Mas à noite telefonou-me a dizer que, depois de falar com as autoridades eclesiásticas, tinha sido proibido de ir. Não fiquei contente. Fui sozinho. Um pouco preocupado porque soube que o cardeal e o bispo de Aveiro tinham ido a Roma para dissuadir o Papa a receber-me. Mas não conseguiram. Eu tinha no Vaticano um grande amigo, o cardeal Casaroli, que me ajudou muito na descolonização. Conseguiu que o Papa me recebesse como estava previsto. Quando chegámos à fala sobre o aborto, disse-me: "Sabe, temos na Itália uma lei que é ainda mais difícil para a Igreja do que a vossa. A vossa é bastante moderada, em relação à italiana. Nós aguentamos em Itália, como é que vamos agora zangar-nos com Portugal?" E pronto. Não se passou mais nada. Falámos de outros assuntos e do mundo em geral.

Isso significa, pelo que conta desse episódio do aborto, que entre as suas convicções pessoais e a necessidade de manter um governo em funções, pode haver uma contradição total?
Pois pode. Não total, mas uma contradição. Então, pragmaticamente, devem fazer-se concessões. Na política temos de distinguir o essencial do acessório e fazer compromissos.
No essencial, quanto aos valores, não deve haver transigências, mas no acessório pode, para levarmos, como costumo dizer, a água ao nosso moinho. Às vezes não se leva imediatamente. Mas leva-se depois... A política, em democracia, é isso.

Teve de fazer concessões muitas vezes?
Tive, claro. Todos os governos têm de fazer concessões. A ministros e a não ministros. Às oposições e a várias entidades.

Também em função das pressões externas?
Sobretudo aí, particularmente com os sindicatos e associações patronais. Pu-los juntos, pela primeira vez, na Concertação Social, que criei, e sei como é. Fiquei amigo pessoal de muitos, de um lado e de outro. A política é isto. Não é mesmo outra coisa. É cordialidade. A arte do compromisso. Porque, em democracia não há inimigos. Há adversários, tão-só. A democracia não é uma guerra. Precisa de ter flexibilidade. Isso é indiscutível. Não há nenhum político, por maiores que sejam as suas convicções, que não saiba isso.

Pode um PM trabalhar sem ter um círculo próximo que lhe conte a verdade nua e crua, sobre o que se diz na rua?
Um, não. Vários. Nunca gostei de almoçar nos palácios, nem nunca dormi em São Bento, nem em Belém. Ia almoçar quase todos os dias a restaurantes. Apetecia-me falar com pessoas que não esperavam encontrar-me. Para quê? Para as ouvir e medir, por elas, o pulso da situação. Sempre falei com toda a gente. Nunca tive uma pessoa que andasse por aí a saber as coisas, para depois me vir contar. Isso não. Sempre tive muitas pessoas com quem falava e que frequentemente me confrontavam. Nunca deixei isolar-me, com os que dependiam de mim, nos palácios do Governo ou da Presidência.

Mas há a tentação de os assessores dizerem o que o PM ou o Presidente quer ouvir?
Claro que há. É preciso ter um cuidado imenso com isso. Não se é político se não se tiver esse cuidado. Caso contrário passa-se a ser um papagaio.

Alguma vez lamentou ter aceite o cargo de PM?
Teria sido mais cómodo para mim ter ficado no Parlamento, mas eu, como secretário-geral do PS, teria de fazer essa aprendizagem num dia ou noutro. Nunca me lamentei. Não tenho esse temperamento. Tomo decisões rápidas e depois marcho em frente. Não penso mais nisso. As decisões mais importantes que tomei na vida, nunca foram para mim difíceis de tomar. E fui sempre do estilo: "É assim, e acabou." Não me arrependo nem me ponho a pensar como seria se tivesse feito o contrário. Tomada a decisão, não volto atrás. Assumo as minhas responsabilidades e não as enjeito. Conheço pessoas de grande inteligência para quem as decisões são sempre difíceis. Ficam hesitantes entre dois caminhos. Eu sou o contrário.

Há espaço para o medo no cargo de PM?
Não, não há. Nem deve haver. Nem como Presidente nem como primeiro-ministro ou como secretário-geral do partido. Muitas vezes na minha vida me interroguei sobre este assunto: tive um secretariado nacional do partido que, quando foi o problema do Eanes, em 15 elementos, 13 ficaram contra mim. Dentro dos 13, tinha o melhor que havia no partido, em inteligência e preparação. Muitas vezes, quando comecei a conhecê-los melhor, vi que a maior parte deles tinham sido primeiros alunos das respectivas universidades e mesmo no liceu. Possuíam uma grande cultura e conhecimento. Perguntei-me, várias vezes, como é que eu, que nunca fui um grande aluno, que nunca me destaquei, nem na universidade, nem no liceu, era o líder, apesar de eles terem mais preparação e conhecimentos do que eu tinha e reconhecia? Cheguei à conclusão que era eu que tinha coragem de avançar quando outros hesitavam e tinha confiança em mim próprio para decidir e não pensar mais nisso.

Lembra-se qual foi o seu último acto da últimavez que foi primeiro-ministro?
Da primeira vez que fui PM fui vencido na AR. Isto foi de noite. No dia seguinte de manhã fui ao Presidente da República e apresentei - como devia - a minha demissão. Nunca mais fui ao meu gabinete desde esse dia. Nem lá fui levantar as coisas que lá tinha. Nunca mais utilizei o carro do governo. Havia despachos a fazer nos últimos dias, mas eu tive muito cuidado em assinar o que quer que fosse. Só o estritamente necessário. A situação era difícil. O general Eanes percebeu que eu tinha que continuar, porque não estava assinado o acordo com o FMI. Fez-se então um governo de incidência parlamentar, com três ministros do CDS. Da segunda vez, quando os ministros do CDS se demitiram, disse ao Presidente Eanes que podia fazer outra tentativa maioritária porque havia deputados que tinham saído do PSD dispostos a apoiar o governo. Não aceitou a solução e demitiu o governo. Criou então os governos chamados de iniciativa presidencial. Não correram bem. Foram derrubados na Assembleia. Pelo PSD de Sá Caneiro e pelo PS. O terceiro, da senhora engª Pintasilgo, foi constituído apenas para presidir a novas eleições.

Gostou mais de governar ou de ser Presidente da República?
Gostei mais de ser PR. A minha personalidade e maneira de ser adequa-se mais, julgo, a ser PR. O PM tem de ser um homem com outro tipo de preparação. A minha é pobre em matéria de economia e não gosto muito de lidar com números. Sou de formação humanista, literária, filosófica e de direito. Como PM, muitas vezes tive de resolver conflitos e substituir pessoas de quem gostava. Houve sapos, como se diz, que tive de engolir. Como PR, a situação é diferente. É um árbitro, fala com toda a gente e o seu principal poder é o que chamei "magistratura de influência". A autoridade vem-lhe sobretudo daí. A palavra do Presidente pesa, se souber situar-se como uma referência política e ética. Se souber e tiver intuição para lidar com as pessoas e for independente, todos os caminhos lhes estarão abertos. Sou uma pessoa normal, nunca me considerei excepcional, em nada. Mas tenho intuição e jeito para lidar e conhecer os outros. Percebo as pessoas no que elas dizem e no que elas não dizem. É talvez a maior qualidade que tenho. Outra, é que normalmente exprimo-me com clareza, quer por escrito quer a falar.

Nas próximas eleições presidenciais tenciona seguir a indicação de voto do PS?
Depende. Cheguei a uma idade em que não faço nada contra a minha consciência. Posso, dado que não tenho responsabilidades político-partidárias, dar-me a esse luxo. Aliás, quando era dirigente do PS, nunca segui qualquer caminho com que não concordasse. Fiquei várias vezes isolado, no meu próprio partido.Mesmo quando fui Presidente. Mas isso não me impediu de tomar as medidas que entendi dever tomar. Quanto à pergunta em concreto, acho que é cedo e não devo, por enquanto, pronunciar-me.

Essa sua eventual adesão, ou não, ao candidato apoiado pelo PS dependerá de quê?
Dependerá da escolha que o PS fizer e da minha consciência. Não esqueço que sou um dos fundadores do PS. Até me deram o cartão de militante nº 1, que, aliás, só aceitei depois de não exercer, no partido, quaisquer funções.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 24 de abril de 2010

  • Mário Soares: “Sou um cidadão especial”

    Em novembro de 2014, a poucos dias de comemorar o seu 90.º aniversário, Mário Soares falou com o Expresso a propósito da efeméride e também da publicação em livro, na mesma ocasião, dos seus escritos do exílio em Paris, de 1970 a 1974, parte dos extensos diários e registos que manteve desde que iniciou a sua vida política, aos 14 anos. No dia da morte do antigo Presidente da República, republicamos o texto assinado por Clara Ferreira Alves, que passou em revista com o fundador e alma do PS alguns dos momentos mais marcantes do seu percurso enquanto homem e político