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Não são só afetos. Costa promete apoiar Índia no conselho de segurança da ONU

Costa e Modi trocaram elogios, uma camisola de Cristiano Ronaldo e prometeram convergências em matéria de política externa

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

"Tenho uma surpresa. Não é para um jogador de cricket mas é o melhor jogador de Portugal", disse António Costa, entregando ao seu homólogo indiano, Narendra Modi, uma t-shirt de Cristiano Ronaldo. Modi sorria exibindo com amabilidade a camisola vermelha. O guião do discurso, que faria minutos depois na sede de Governo em Nova Deli, já estava feito e não faltavam nele palavras simpáticas para o primeiro-ministro português.
O representante indiano deu os parabéns a Costa pelo desempenho na economia, elogiou as "fantásticas proezas" que conseguiu no Governo, agradeceu as obras literárias do pai (brâmane, católico e goês) e desejou-lhe "uma visita memorável" a Goa. Prometeu aumentar as trocas comerciais entre os dois países e até mais proximidade no setor do desporto. Poucos elogios, ou quase nenhuns, ficaram por fazer. Tudo boa vontade e espírito de abertura que daqui a um ano, frisaria Costa, serão avaliados com medidas concretas.
Porque o que para a Índia é mais afetividade e carinho pelo filho de um indiano que pela primeira vez chegou à chefia de um Executivo na Europa, para Costa é pragmatismo e oportunidade de o transformar em impulso à economia. Este sábado, primeiro dia de visita oficial, foram assinados seis acordos nas áreas da defesa, agricultura, recursos marinhos, energias renováveis, eletrónica e educação.
Mas ficou, porém, bem claro em termos de relações bilaterais que a Índia considera prioritário a sua ascensão a membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e que, para isso, conta com a ajuda de Portugal, o país do novo secretário-geral, António Guterres. Modi introduziu a questão e Costa não ignorou a deixa, nos discursos que os dois fizeram este sábado à comunicação social. Trata-se de uma reivindicação já com alguns anos da Índia, foi somando apoios (Reino Unido e Rússia, por exemplo) e pode vir a concretizar-se no âmbito de uma reforma geral das Nações Unidas.
"A ONU tem que ser o espelho do mundo de hoje e isso exige a presença no conselho de segurança da ONU de países como a Índia, o Brasil e um grande país africano. Este é o mundo do séc. XXI", declarou Costa.
O primeiro dia da visita foi dedicado aos encontros institucionais, com o primeiro-ministro e com o Presidente e a vice-presidente. Amanhã, a comitiva portuguesa estará em Bangalore, onde Costa receberá uma distinção da diáspora indiana.
A viagem seguirá sempre com as duas vertentes: a parte afetiva, uma vez que Costa é filho de um goês (Orlando da Costa, cujo livro "O signo da ira" foi editado em inglês para coincidir com esta viagem) e a parte económica, que o Governo português quer dinamizar pois as trocas comerciais com aquele gigante económico são quase irrelevantes. Este sábado, curiosamente, foi anunciada em Lisboa a compra da farmacêutica Generis por um grupo indiano.