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José Ramos-Horta: Soares foi “um grande estadista português e da Europa”

O antigo presidente de Timor Leste José Ramos-Horta relembra a sua relação com Mário Soares e o papel que teve no seu país. “Não fui íntimo de Mário Soares, só o conheci pela via da questão de Timor-Leste e aqui só tenho as melhores lembranças e palavras de profundo apreço e admiração por aquele que foi um acérrimo defensor da nossa causa”

José Ramos-Horta

Mário Soares, que muito gostava de viajar em representação do seu país quando era Presidente, acaba de fazer a sua última viagem, esta sem regresso.

Dele, como de todos os grandes homens e mulheres da História, fica o seu legado de democrata, de lutador pela democracia, de reconstrução do Portugal pós-Salazar e pós-colonial.

Para quem observa sempre com muito interesse a evolução e construção da Europa, Mário Soares está entre os grandes da Europa do pós-Guerra, no mesmo Panteão em que estão Konrad Adenauer, Willy Brandt, Richard von Weizsäcker, Jean Monet, Jacques Delors, Giscard d'Estaing, François Mitterrand e ainda muitos outros como Vaclav Havel.

Se a memória não me falha, foi durante as eleições presidenciais portuguesas de 1986 que tive o primeiro encontro com Mário Soares. Na direita portuguesa estava o Prof. Diogo Freitas do Amaral, também grande Estadista português, cuja simpatia pela causa Timorense era conhecida de todos nós.

Do lado socialista estava o Dr. Mário Soares, visto como homem muito próximo aos EUA, o maior aliado da época do regime militar indonésio. Por isso preocupava-nos um possível posicionamento menos benéfico do Dr. Mário Soares na luta pela auto-determinação Timorense. Iria seguir os conselhos dos seus "bons amigos" americanos e deixaria "morrer" a questão de Timor-Leste?

No encontro nessa manhã de fevereiro de 1986 na sede de sua campanha, o Dr. Mário Soares foi caloroso e acolhedor e disse: "O governo diz que não há nada a fazer por Timor mas acredito que é possível fazer-se mais". Eu e os meus colegas Timorenses presentes nessa reunião saímos dela muito mais esperançados, tranquilizados. Mas teríamos que esperar para ver, caso ele fosse o eleito.

Mário Soares foi eleito e reeleito Presidente da Republica Portuguesa (1986-1996), e dignificou Portugal e os Portugueses, foi um grande Presidente, um verdadeiro Estadista. Para nós, Timorenses, Mário Soares, através das grandes intervenções, desde o discurso inaugural e a sua intervenção magistral no Parlamento Europeu em Estrasburgo em 1986, foi reconfortante e encorajador; deu-nos maiores esperanças.

Timor-Leste não tinha muitos amigos. Eram os Países Africanos de Expressão Oficial Portuguesa (PALOPs) e, sobretudo, Angola e Moçambique que mais pugnavam pelo direito do povo Timorense à auto-determinação nos grandes fóruns internacionais. Um papel mais activo de Portugal seria crucial.

Foi através de João Soares que tive acesso ao pai Presidente. O João Soares foi dos primeiros apoiantes activos da luta do povo Timorense pela auto-determinação, na época em que Timor-Leste não era uma questão mediática. O meu primeiro encontro com Mário Soares, já este era Presidente, foi no Palácio de Belém, num encontro a dois, facilitado por João Soares.

Nos anos seguintes Mário Soares levantava a questão de Timor-Leste em todos os fóruns internacionais. Exemplo de coragem e coerência das suas intervenções foi numa reunião realizada em Manila, em que Mário Soares, perante uma audiência certamente não favorável à Timor-Leste, denunciava a ocupação e as violações de direitos humanos.

Não fui íntimo de Mário Soares e só o conheci pela via da questão de Timor-Leste e aqui só tenho as melhores lembranças e palavras de profundo apreço e admiração por aquele que foi um acérrimo defensor da nossa causa e foi sem dúvida umas das muitas grandes figuras publicas Europeias do pós-Guerra.

Aquando da cerimónia solene da atribuição do Prémio Nobel da Paz em Oslo, fui informado pelo Comité Nobel que cada um dos galardoados podia convidar até 25 pessoas. Entre o Bispo D. Carlos Belo e eu convidámos todos os dignitários políticos portugueses, sem descurar nenhum nome. Mário Soares foi convidado mas não pode estar presente porque naquela semana foi acometido de uma forte gripe. E infelizmente Mário Soares nunca pôde visitar o Timor-Leste livre pelo qual ele foi um dos seus artífices políticos e diplomáticos.

Mário Soares fez a sua última viagem sem retorno e vai juntar-se à sua companheira de luta, a grande senhora Dra. Maria Barroso, com a qual tive a oportunidade de manter uma conversa amena apenas algumas semanas antes do acidente caseiro que a vitimou. Eu tinha-a encontrado em plena forma física e mental. Parecia uns 10 anos mais nova do que a idade real e felicitei-a muito por isso. Qual não foi a minha profunda consternação quando recebi a notícia da sua morte por acidente em casa.

Fica a nossa grata e saudosa recordação de Mário Soares e de Maria Barroso, pelo seu legado de humanismo e solidariedade, de lutadores incansáveis pela democracia, justiça e direitos humanos.