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José Cutileiro: Mário Soares (1924 - 2017)

O embaixador José Cutileiro, que há anos escreve no Expresso a rubrica In Memoriam, escreveu este texto sobre Mário Soares

Mário Alberto Nobre Lopes Soares, filho de pedagogo republicano autor de atlas geográfico para uso nos liceus - e padre reduzido ao estado laical - que morreu este sábado, dia 7 de janeiro, no Hospital da Cruz Vermelha em Lisboa onde fora internado de urgência a 13 de Dezembro, e quase um ano meio depois no mesmo hospital se ter extinto também sua mulher, Maria de Jesus, geralmente conhecida por Maria Barroso, actriz, declamadora e companheira de luta política em toda a vida de ambos, primeiro contra o fascismo do Dr. Salazar que lhe custou a ele prisões, degredo e exílio (e a ela, além de embates com a polícia política do regime, manter sozinha, em bom funcionamento, colégio lisboeta com internato e externato que já vinha do tempo do sogro e garantir a boa educação da filha e do filho), depois contra o comunismo do Dr. Álvaro Cunhal que, de súcia com uma parte do Movimento das Forças Armadas, muita activa desde os primeiros dias a seguir ao 25 de Abril, foi tentando estabelecer as bases para uma instalação tão rápida quanto possível de regime soviético em Portugal, atingindo o confronto com os apoiantes da democracia parlamentar de tradição europeia ocidental - de que Mário Soares, se tornara o chefe - grande intensidade e tensão no Verão de 1975 mas que, à medida que independências iam sendo dadas às antigas províncias ultramarinas, se foi aproximando dos seus camaradas moderados no seio do Movimento, ao ponto de a 25 de Novembro de 1975 (14 dias depois da declaração de independência de Angola) um golpe militar enquadrado pelos comunistas ter sido rapidamente neutralizado e a democracia parlamentar com a qual vivemos desde então poder finalmente começar a enraizar-se em paz.

A seguir vieram eleições que os socialistas de Mário Soares ganharam sem maioria absoluta, governando a seguir a elas em coligação; mais eleições, igualmente livres e limpas se foram seguindo e a alternância democrática tem-se mantido até agora. Vale a pena lembrar que a Primeira República, entre a monarquia dos Braganças e o Estado Novo de Salazar, durou 16 anos; o regime desencadeado a 25 de Abril de 1974 e constitucionalizado dois anos depois continua sem falta de vigor aparente passadas mais de quatro décadas, durante as quais Mário Soares passou por governos e oposições, sendo mais de uma vez primeiro-ministro, cumprindo dois mandatos como Presidente da República (não houve, desde antes dele nem depois dele, ninguém que tivesse vivido essa magistratura unipessoal com tanta naturalidade e inteligência, não só habituando as pessoas ao regime mas também ajudando as duas grandes causas – a Liberdade e a Europa – pelas quais se batia; talvez nos haja mesmo contagiado a todos com o seu gosto pela Liberdade). Quando primeiro-ministro, em 1976, foi a Bruxelas dizer que queríamos aderir às Comunidades Europeias fê-lo não para melhorar a economia do país mas para garantir a permanência da Democracia. Político até à medula, quando achava que as coisas não iam bem, manifestava-se – até numa tentativa, tardia e vã, de voltar a Belém.

Com origens republicanas e agnósticas, formado em letras e em direito, bon vivant por natureza mas capaz de sacrifício, da juventude ao exílio fora ganhando galões de combatente contra o regime, primeiro juntamente com os comunistas, depois claramente separado deles nas eleições fantoche que o regime permitia. Voltou do exílio em Paris em Abril de 1974 para ocupar o lugar que lhe cabia, e para o qual estava credenciado, de chefe anti-fascista. E em Portugal, entre 1 de Maio de 1974 e 25 de Novembro de 1975, com visão estratégica certeira e coragem exemplar ganhou credenciais anti-comunistas combatendo pela Liberdade e ganhando esse combate.

Sem ele a mudança de regime teria sido sangrenta, porventura incompleta e muito menos livre. Não houve, na segunda metade do século XX, português a quem os seus compatriotas ficassem a dever tanto.