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A mulher que ajudou a preparar a visita de ‘marajá’ Costa

EMBAIXADORA DA ÍNDIA. Nandini Singla é diplomata desde 1997

ALBERTO FRIAS

Chegou a Lisboa no verão passado. Chama-se Nandini Singla, é embaixadora da Índia em Portugal, e diz que a visita de seis dias que o primeiro-ministro português inicia esta sexta-feira ao seu país “é muito aguardada, e rica em substância e simbolismo”. O país de Nandini vê António Costa como o primeiro descendente de indianos a chefiar um governo europeu

É a mais nova de quatro irmãos, mas foi tratada pelos pais “em pé de igualdade” com os três rapazes mais velhos: “Na Índia, os pais estão a perceber que a melhor maneira de garantirem um bom futuro para as suas filhas é dar-lhes uma boa educação, possibilidades de estudar e viajar”, diz Nandini Singla, que apresentou credenciais como embaixadora da Índia em Lisboa em setembro do ano passado.

Um dos primeiros desafios de Nandini foi contribuir para a preparação da visita oficial de António Costa ao seu país: “A visita do primeiro-ministro de Portugal à Índia é importante e muito aguardada. É uma visita rica tanto na substância quanto no simbolismo. Estamos empenhados em forjar uma parceria moderna entre a Índia e Portugal, voltada para o futuro do século XXI, mas com base nos sólidos fundamentos dos nossos 500 anos de história e cultura partilhadas”.

Nandini Singla gosta de vestir sari

Nandini Singla gosta de vestir sari

ALBERTO FRIAS

A viagem vai ter uma forte componente económica: “Estamos a trabalhar para explorar as complementaridades que os nossos dois países têm em sectores como a defesa, energias renováveis, pesquisa científica e inovação, tecnologia da informação e start-ups, agricultura, gestão de água e resíduos, turismo, hospitais, educação, indústria cinematográfica e de entretenimento”, diz a embaixadora ao Expresso.

Nandini Singla entrou para a carreira diplomática em 1997, depois de ter feito uma pós-graduação em estudos diplomáticos: “No meu concurso [de entrada] houve 1,2 milhões de candidatos”; a população atual ultrapassa os 1,2 mil milhões de pessoas.
Duas décadas depois, a menina que nasceu numa pequena vila do estado de Andhra Pradesh, e cresceu noutra pequena povoação do estado de Karnataka [a sul de Goa] teve o seu primeiro posto como embaixadora em Portugal: “Bombaim, para onde fui quando entrei para a universidade, foi a primeira cidade grande onde vivi”.

Quando tinha 18 anos, “tive a oportunidade de ir para o Canadá, num programa de intercâmbio do Corpo Nacional de Cadetes” − um corpo de estudantes civis que recebe alguma instrução militar. “Vivi numa família de acolhimento e descobri que existiam muitas semelhanças entre os canadianos e os indianos”. Foi aí que começou a perceber que a “diplomacia é tirar o melhor de dois países”. A sua nomeação como embaixadora em Portugal é um motivo de orgulho e surpresa para o estado onde cresceu e foi notícia em vários jornais.

Captura de écrã da edição de 18 de outubro de 2016 do “The Hindu”

Captura de écrã da edição de 18 de outubro de 2016 do “The Hindu”

Diz que a família continua a ser um grande pilar da sociedade indiana, mas com as mudanças do mundo de hoje e as oportunidades de trabalho no estrangeiro, já não são os filhos que ficam a casa a tomar conta dos progenitores: “Eu estou a viver em Lisboa, os meus três irmãos no Dubai; os meus pais que têm 76 e 79 anos, preferem continuar a viver na pequena vila do estado de Karnataka onde eu cresci do que saírem de um local onde conhecem muita gente para irem viver com um dos filhos numa terra que não conhecem.”

Nandini casou-se com um colega de profissão em 1999. “É a primeira vez que estamos separados. Ele [Sanjeev Singla] está em Nova Deli”, no gabinete do primeiro-ministro, Narendra Modi: “Os nossos dois filhos vieram comigo e gostam de estar em Lisboa. São dois rapazes, um tem 10 anos e outro 16. A minha sogra, que sempre tinha vivido connosco e me ajudou a criar os meus filhos, ficou em Deli com o meu marido.”

A embaixadora tem grandes expectativas sobre a visita de António Costa: “A Índia é a economia de mais rápido crescimento no mundo. Como Portugal está a emergir como a economia da zona euro com crescimento mais rápido no último trimestre, existem oportunidades significativas para o aumento do comércio, investimento e cooperação. Um dos principais focos desta visita do primeiro-ministro português é explorar essas oportunidades e analisar como podemos melhorar a nossa parceria económica para benefício mútuo”.

Nandini Singla é a 16ª chefe de missão da Índia em Portugal. Os dois países só estabeleceram relações diplomáticas depois da revolução do 25 de Abril de 1974, porque os governos do Estado Novo nunca reconheceram a perda de soberania sobre Goa, Damão e Diu.

“Olhamos para Portugal como um bom exemplo de miscigenação: o primeiro-ministro António Costa simboliza os laços e conexões de longa data entre os nossos dois países. Estamos confiantes de que, sob a sua liderança, as relações entre a Índia e Portugal vão crescer mais e mais”.