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Política

A alegria de termos vivido contigo: somos livres, Soares!

Hoje temos direito a dizer obrigado e a responsabilidade de não nos extinguirmos num lamento

O que nos dói se choramos? Que parte do nosso corpo descarnou subitamente? O que nos falta se ele nos deu tudo o que era? Se não há tragédia nem surpresa? É o adeus. O adeus dói. Mário Soares morreu hoje e hoje autorizamo-nos à emoção da perda. Virá a análise, virá o obituário, virá até o futuro, mas o nosso primeiro sopro depois do seu último é este que dói.

Mário Soares foi o maior. O maior político, o maior português do século XX, o lutador mais permanente pelas liberdades democráticas, o homem que nunca quebrou, como se sempre soubesse que a conquista da liberdade era certa e a sua prevalência é incerta.

O pensamento é sempre livre mesmo na reclusão forçada. Mas Soares fez do pensamento o prefácio da ação, impaciente por fazer e paciente pela vitória desse fazer. Como se a sua força tivesse vontade própria. Talvez por isso nos pareça que nunca se sacrificou, mesmo se foi perseguido, preso, deportado, exilado. Talvez porque ele era sempre vida, fosse na zanga do confronto, na calma do debate ou na alegria surpreendente daquela gargalhada larga.

JOÃO CARLOS SANTOS

Hoje, foi hoje que Soares morreu e hoje queremos celebrar a vida, chorar a morte e prometer que Soares connosco não morrerá. Não é uma promessa que lhe fazemos a ele mas a nós: depois do luto haverá mais que memória, estátuas e efemérides, haverá mais que os seus livros nas estantes e que os livros sobre ele nas escolas - haverá a nossa consciência desperta para a sua luta para que ela continue a ser a nossa, haverá a lucidez para compreender as suas ideias quando outros as chamarem de anacrónicas, haverá a a aprendizagem e o ensinamento contra todas as ditaduras, contra todas as opressões, contra todas as demagogias, contra todas as exclusões, nacionalismos populistas, isolacionismos face a outros e desigualdades entre nós. Um sistema: a república. Um regime: a democracia. Uma conquista: a paz. Uma vontade: a do povo. Uma utopia: a felicidade dos homens.

Hoje temos direito ao nosso luto, a banalidade da morte não pode aplanar a excecionalidade de uma vida. Hoje temos direito a dizer obrigado e a responsabilidade de não nos extinguirmos num lamento. Hoje temos a obrigação de não diluirmos a nossa posição entre prós e contras, argumentado um equilíbrio que seja uma forma de relativismo. A neutralidade é uma covardia. Soares nunca foi neutro. Portugal não poderá ser neutro em relação a Soares, ou sê-lo-á em relação a si próprio.

João Carlos Soares

Houve muitos portugueses grandes no quase século de vida de Mário Soares. Nenhum foi tão grande. Não foi um predestinado, não viveu como um herói, não foi santo, não fez sozinho, não ganhou sempre, não acertou sempre, não morreu como um mártir nem merece idolatria. Foi um homem corajoso e convicto, um lutador cívico, um político eleito pelo povo ao serviço do povo, um homem que merece reconhecimento e gratidão para sempre, ação para sempre, política sempre. E que hoje, só hoje, tem nas lágrimas da nossa tristeza a alegria de termos vivido com ele - a alegria e o privilégio de termos vivido no mesmo tempo e ao mesmo tempo com ele. E de sermos livres. Livres até para nos doer e dizer que nos dói. Nós, este país, Portugal. Viva Soares. Viva sempre. Começando amanhã. Estamos cá.