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Política

A agenda escondida de Marcelo

Ao lado das ex-primeiras-damas Maria Cavaco Silva e Maria José Rita, 
na “Casa do Fraldinhas” da Ajuda de Berço, em Lisboa, 
na cerimónia de lançamento da Campanha Solidária “Swatch Docinho”

DR

Acusado de ser frenético, Marcelo passou a restringir a agenda que publica na página oficial a um ou dois eventos. Mas chega a cumprir seis ou sete. Os convites não param. O Presidente ainda menos. Belém bem tenta, mas não lhe consegue travar a marcha

Vamos a um dia tipo do Presidente Marcelo. A 7 de dezembro de 2016, a agenda oficial previa dois eventos: Marcelo Rebelo de Sousa iria aos 40 anos da Confederação do Comércio (CCP) e estaria nas comemorações do Dia da Academia Portuguesa de História. Nada excitante. Mas a realidade foi outra. Logo pela manhã, o Presidente da República discursou no Instituto de Ciências Sociais e Políticas sobre ‘Portugal e os Estados Unidos’ e teorizou que “qualquer que seja o rumo que o mundo leve [com Trump?], a geografia não muda”; à tarde, participou num evento solidário da Ajuda de Berço com o apoio da Swatch, ao lado das ex-primeiras-damas Maria Cavaco Silva e Maria José Rita; e ao pôr do sol, “feliz por estar a 50 metros de casa, num fim de tarde só possível em Cascais”, inaugurou ao lado de Carlos Carreiras a Casa Sommer, que alberga o Arquivo Histórico Municipal, e foi aplaudido na praça. A agenda prevista também foi cumprida. Em vez de dois eventos, Marcelo somou cinco. Porque é que não põe tudo na agenda, eis o mistério.

Não é novo um Presidente da República fazer muitas coisas além da sua agenda oficial, aquela que todos os dias chega aos media. Qualquer chefe de Estado tem uma agenda pública e uma agenda privada e grande parte da chamada magistratura de influência dos Presidentes passa por encontros a sós, reuniões discretas, conversas sigilosas e telefonemas secretos, de que nunca se chega a saber nada. Nem sequer que aconteceram.

Marcelo inaugura, com o autarca Carlos Carreiras, a Casa Sommer, que alberga 
o Arquivo Histórico Municipal de Cascais

Marcelo inaugura, com o autarca Carlos Carreiras, a Casa Sommer, que alberga 
o Arquivo Histórico Municipal de Cascais

DR

Marcelo Rebelo de Sousa não foge a esta regra e foi neste registo que nos últimos meses chamou a Belém os presidentes de todos os bancos portugueses para tomar o pulso ao sistema financeiro, ou que, mal chegou a Belém, recebeu, sem pôr na agenda, todos os líderes da ‘geringonça’ para ouvir de viva voz o que pensavam da experiência. Mais recentemente, foi também sob reserva que o Presidente recebeu em Belém o ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos, António Domingues, para avaliar as hipóteses de ainda o segurar no banco. E é neste formato, discreto mas interveniente, que Marcelo tem recebido no palácio influentes nomes dos mundos político, empresarial, social e financeiro. Exatamente como faziam os seus antecessores.

Reuniões com Costa? Rotina!

Mas este Presidente inova. Às quintas-feiras, por exemplo, dia das habituais reuniões semanais com o primeiro-ministro, a agenda do Presidente da República nunca inclui o encontro com António Costa. Por ser “rotina”, explica um assessor. Mas há eventos que, não sendo rotina, Marcelo também escolhe não agendar. Exemplos: a visita que fez em novembro ao bairro social da Cova da Moura, a lembrar as Presidências Abertas de Mário Soares na Grande Lisboa; a visita, a 8 de dezembro, ao Refúgio Aboim Ascensão, no Algarve, para acender as luzes da árvore de Natal da casa de acolhimento de crianças pobres; o discurso no encerramento da 1ª conferência da PASC (Plataforma de Associações da Sociedade Civil), ao lado de Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa; a condecoração, a 25 de novembro, de Ferro Rodrigues, presidente do Parlamento, com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade; ou a presença no Natal dos Hospitais, ao lado de Pedro Santana Lopes.

O mais surpreendente é que nada desta agenda escondida de Marcelo passa despercebido. Por um lado, porque o Presidente autoriza as entidades que o convidam a divulgar a sua presença, o que acaba por garantir a cobertura dos media. Na conferência da PASC, por exemplo, onde estavam pouco mais de 30 pessoas, a presença de Marcelo garantiu a cobertura da SIC, da RTP e da Lusa. E quase nada do que o Presidente da República omite na agenda passa ao lado dos órgãos de comunicação social. Foi assim na visita à Cova da Moura, amplamente divulgada, foi assim no Bazar Diplomático (que Marcelo também não pôs na agenda) e até a visita-relâmpago que o Presidente fez a uma velhinha do Cadaval no dia dos seus 100 anos, acabou por ser noticiada.

O Presidente participou dia 18 na festa de Natal da Comunidade Vida e Paz, 
que divulgou a iniciativa à comunicação social

O Presidente participou dia 18 na festa de Natal da Comunidade Vida e Paz, 
que divulgou a iniciativa à comunicação social

NUNO FOX

Muitas vezes, é a própria página oficial da Presidência que informa sobre a presença de Marcelo em eventos fora da agenda, chegando a publicar fotos dos mesmos. A condecoração a Ferro Rodrigues é um exemplo e neste caso Belém justifica que foi o próprio Ferro a escolher uma cerimónia o mais reservada possível.

“Incontrolável”

Falta a pergunta central: o que é que leva Marcelo a trocar as voltas a si próprio? Belém não compra o conceito. Paulo Magalhães, assessor de imprensa do Presidente da República, prefere explicar que “o Presidente, por um lado, quer valorizar mais umas coisas do que outras; e por outro, não havendo primeira-dama, é natural que vá a mais coisas de carácter social”. Mas há um fator adicional: Marcelo Rebelo de Sousa não vive sem improviso e deixar a agenda livre é a fórmula certa para, a qualquer momento, acrescentar uma parcela.

No verão, quando houve o acidente nos comandos, o Presidente estava no Porto, convocou os jornalistas, chegou a Lisboa e quis ir para o hospital, depois esperou porque o ministro da Defesa não estava no país e achou melhor não ir sem ele, mas acabou por ir buscar o ministro ao aeroporto e arrastou-o para o Curry Cabral. Eram 11 da noite, estava a Antena Um à porta e Marcelo não falou. Desta vez, ninguém registou as imagens do Presidente da República agarrado aos pais e à namorada de um dos comandos que acabaria por morrer e a quem falou como crente.

Numa visita ao Bairro Cova da Moura, em novembro

Numa visita ao Bairro Cova da Moura, em novembro

Tiago Petinga/ Lusa

Mais recentemente, depois de ter aterrado em Lisboa vindo de uma viagem ao estrangeiro e depois de dar um salto para ver Mário Soares na Cruz Vermelha, o PR foi para lançamento do livro de Maria Filomena Mónica, “Os Pobres”, e discursou durante mais de meia hora. Com ele nunca se sabe. Belém garante que o staff está devidamente informado e que são feitas visitas preparatórias de tudo o que, mesmo fora da agenda, se sabe que o Presidente vai fazer. E a segurança está sempre garantida, por ser uma presença constante ao lado de Marcelo. Mas já viveram sobressaltos. A ida ao Curry Cabral escapou aos assessores de imprensa.

No Palácio de Belém, a decisão de emagrecer a agenda oficial do chefe de Estado vem do verão, quando, após três meses verdadeiramente em alta rotação, começaram a ser diagnosticados os riscos de uma excessiva exposição do Presidente. Foi quando se começou a ouvir falar de um abrandamento na agenda. Marcelo iria sair menos, falar menos, intervir menos.

Atribuiu ao presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, 
a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade mas sem aviso prévio

Atribuiu ao presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, 
a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade mas sem aviso prévio

Presidencia da República

A agenda emagreceu, de facto. Mas Marcelo Rebelo de Sousa está igual a si próprio. A semana natalícia que o diga. Dentro da agenda ou fora da agenda, o PR viveu dias frenéticos. Desde distribuir a agenda solidária do IPO no meio do Centro Comercial Colombo, a beber ginjinha no Barreiro, passando pela campanha da Cáritas — Um Gesto de Paz — e pela visita que fez (fora da agenda) ao Hospital de São José, à meia-noite de dia 24, para deixar um bolo-rei aos profissionais de serviço, viu-se de tudo e nunca se sabe.

O próprio garante que em 2017 vai mudar. E que a sua agenda vai, realmente, passar a ter só uma ou duas iniciativas. Porque é ano de autárquicas, porque é preciso abrandar. Em Belém, esperam para ver. Quem o aconselha diz que depois de Marcelo ter posto o acelerador a fundo, “agora é difícil travar”. Quem o conhece diz que “durante 60 anos ele funcionou sozinho. E é incontrolável”.