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Figura Nacional de 2016: O secretário-geral do mundo é português

O ex-primeiro-ministro nunca assumiu a ambição, mas trabalhou metodicamente para chegar onde está agora. Nado em Lisboa e criado na Beira, sempre teve fascínio pelo além-fronteiras

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

A primeira vez que o vimos escrito, preto no branco, foi em agosto de 2009: “Guterres pode ser secretário-geral da ONU”, profetizava o “Semanário”, já extinto. Ban Ki-moon mal aquecera a cadeira (fora eleito pela primeira vez há apenas dois anos), mas o alto comissário para os Refugiados, “um católico próximo dos americanos e há muito alinhado com as prioridades da nova governação Obama”, segundo o jornal, já era dado em Nova Iorque como “uma possibilidade com grande potencial” para lhe suceder. Nesse ano ainda, o português surgiria em 64º lugar no ranking dos 67 nomes considerados pela revista “Forbes” como os mais poderosos do mundo, por “assistir a milhões de almas em situações extremas”. Mas chegar ao topo da ONU parecia ser (na altura e, na verdade, até há poucos meses) uma hipótese “irreal” — o adjetivo é do próprio.

A fama e o proveito

Até terminar o seu segundo mandato no ACNUR (em dezembro de 2015), António Guterres nunca assumiu publicamente tal ambição, mas conta-se nos meandros socialistas que, em 1999, quando se candidatou pela primeira vez à liderança da Internacional Socialista (IS) já o fazia com os olhos postos no edifício da Primeira Avenida, em Nova Iorque. E quando se recandidatou (em 2003) fê-lo com um discurso que extravasava claramente a audiência socialista: George W. Bush acabara de ser eleito Presidente dos EUA e o português aproveitava o palco da IS para defender uma nova ordem mundial de “resposta à ideologia neoliberal, à agenda política neoconservadora e à lógica do unilateralismo (...) que procura desmantelar ou enfraquecer o sistema das Nações Unidas”.

Visto a posteriori, quase vinte anos volvidos, o seu caminho foi bastante linear: depois da presidência da IS — que acumulou, a partir de meados de 2003, com o lugar de consultor das Nações Unidas para a política social —, foi alto comissário para os Refugiados ao longo de dez anos (2005-2015) que lhe deram um sólido conhecimento interno do modo de funcionamento da “máquina”, trunfo preciosíssimo para conseguir chegar a secretário-geral. Foi um trajeto percorrido discretamente, passo a passo, com segurança crescente mas sem triunfalismos — aliás, com incerteza até bem perto do final, quando a entrada em cena da búlgara Kristalina Georgieva pareceu ameaçar um processo que até aí correra “melhor do que a encomenda”. Guterres tem fama de metódico e organizado (uma reputação que o acompanha desde que dirigiu, com sucesso, a campanha de Vítor Constâncio contra Jaime Gama para a liderança do PS, em 1986). O desfecho da sua candidatura à ONU aí está a demonstrar que, às vezes, o proveito acompanha a fama.

Portugal foi sempre demasiado pequeno para este lisboeta criado na Beira Baixa que nunca escondeu o fascínio pelo mundo além-fronteiras, saindo do país, em trabalho ou de férias, quando tinha oportunidade para isso. Não há memória, aliás, de outro chefe de Governo tão criticado pelas ausências do Conselho de Ministros (ainda que a pretexto da presidência portuguesa da União Europeia, no primeiro semestre do ano 2000). Em 2010, a sua contabilidade de países visitados já ia em 125 (não há nenhuma atualização posterior) e apesar de, como alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, passar metade do ano em trânsito, continuava a preparar entusiástica e meticulosamente cada viagem ao estrangeiro com a família.

As saudades que nunca sentiu

Nos anos em que esteve no ACNUR jamais comentou o estado da República cujo Governo deixara a meio, em dezembro de 2001, para evitar (frase obrigatória em qualquer biografia sua) que o país caísse “num pântano político”. “Não serei condutor do banco de trás”, justificava, lembrando ainda que o código de conduta da ONU o impedia de se pronunciar sobre o que se passava em Portugal. Mas vibrava sempre que o questionavam sobre África ou o Afeganistão: “Agora sim, falamos de coisas interessantes”. À pergunta, insistente, sobre um eventual regresso à pátria respondia sistematicamente que era tema que não lhe interessava: “Deixem-me em paz” (“O Independente”, maio de 2004), “não tenho motivação para voltar à política” (Expresso, setembro de 2008), “apenas quero fazer aquilo que estou a fazer” (“Público”, maio de 2010), “não tenho qualquer intenção de regressar à política portuguesa” (Expresso, dezembro de 2010).

Não foi levado a sério: apesar de ser manifesta a facilidade e o gosto com que se movia nos meios internacionais (a que muito ajudava um dom natural para falar línguas, pouco frequente na nossa classe política), a maioria acreditava que ele renunciara ao lugar de primeiro-ministro apenas para se poupar ao desgaste de mais dois anos a governar sem maioria e manter intactas as hipóteses de um dia mais tarde se candidatar à Presidência da República. E admitia-se que o seu reiterado silêncio sobre a política doméstica tinha menos que ver com o regulamento interno da ONU do que com a sua estratégia de preservação para um futuro que passaria por Belém.

Em abril de 2015 ficou definitivamente claro que o seu projeto era outro. Numa entrevista ao canal televisivo Euronews, enfatizou: “Já me fizeram essa pergunta muitas vezes e eu respondo sempre que não sou candidato a ser candidato”. Desta vez, porém, dava um passo em frente: admitia que as funções presidenciais “são muito importantes do ponto de vista do equilíbrio de um país, de garantir a sua estabilidade”, mas acrescentava que “não permitem a mesma ação diária [que funções como as que desempenhava na altura nas Nações Unidas] para ajudar pessoas que precisam dramaticamente de ajuda, do nosso apoio”. Estava aberta a porta para uma candidatura ao lugar de topo da hierarquia da ONU: o homem que quis ser investigador físico, se licenciou em engenharia, começou a vida profissional como economista, mas acabou na política por entender que só aí teria “utilidade social relevante”, permanecia fiel a si próprio.

A reconciliação com o país

Quando finalmente percebeu que eram reais as hipóteses que Guterres tinha de suceder a Ban Ki-moon, o país inteiro (mesmo os muitos que nunca tinham aceitado a sua desistência, em 2001) rendeu-se-lhe: ao mesmo tempo que se regozijava com a vitória da seleção nacional de futebol no campeonato europeu, torcia pelo português em Manhattan. E sentiu verdadeiramente como sua a vitória do ex-primeiro-ministro quando este, votação informal após votação informal, convenceu o Conselho de Segurança de que, mesmo não preenchendo nenhum dos requisitos que lhe dariam preferência na corrida (ser mulher e/ou da Europa de Leste) era o melhor dos candidatos.

A combinação entre a vasta experiência política e a sua matriz cristã parecem fazer dele, com efeito, o homem certo para o lugar que vai exercer a partir de 1 de janeiro. O facto de a eleição para secretário-geral ter decorrido em moldes inéditos de transparência e de escrutínio só lhe reforça a legitimidade. Mas as circunstâncias do mundo que se propõe “unir” não lhe auguram um futuro fácil, com o desafio a começar dentro “de portas”, no país que alberga a sede das Nações Unidas. Os EUA, o maior contribuinte líquido da instituição, serão presididos a partir de janeiro por alguém (Donald Trump) que não é exatamente um exemplo de diplomacia ou um adepto da cooperação internacional. Guterres, não estando exatamente otimista, não se deixa acabrunhar pela “enorme responsabilidade”. A 12 de dezembro, depois de ter prestado juramento sobre a carta das Nações Unidas, disse aos jornalistas: “Tive sempre muita sorte na vida”. Esperemos, por ele e, sobretudo, pelo mundo, que assim continue.