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Costa e Passos: as ambições e incertezas deste Natal

PODER E OPOSIÇÃO António Costa esteve mais virado para as dificuldades internas, enquanto Passos Coelho preferiu frisar as ameaças externas

FOTOMONTAGEM TIAGO PEREIRA SANTOS

O Natal de António Costa e Pedro Passos Coelho: descubra as diferenças numa quadra que é sempre pintada a vermelho e verde

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

No Natal, há sempre risco de excessos, gastronómicos, pelo menos, e por isso é bom dosear. Esta foi a regra também seguida na política, nas tradicionais mensagens de Natal. António Costa e Pedro Passos Coelho tentaram conter-se quer no discurso otimista quer no tremendista, embora tenha ficado clara a esperança na retoma da economia e a preocupação com a incerteza no futuro imediato. Quem disse o quê?

"O nosso maior e verdadeiro défice quando comparamos Portugal com os outros países Europeus é o do conhecimento"

António Costa olhou para dentro do país e, sublinhando a necessidade de reduzir as desigualdades no país, elegeu a educação como a grande prioridade. Fez um discurso que agradou aos seus parceiros da esquerda - dias depois da polémica aproximação aos patrões com o acordo negociado na concertação social - optando por um desígnio estratégico. Nos princípios todos estiveram de acordo, embora, como sublinhou o BE, a defesa da educação não se faça apenas com "boa vontade" mas também "com investimento".

"Nunca deixaremos de dizer o que tiver que ser dito em nome de Portugal"

Pedro Passos Coelho garantiu que tanto no Governo como na oposição o discurso do PSD será o mesmo: usar "o conhecimento, experiência, sentido de responsabilidade". Para quê? Para alertar as pessoas para o que está mal e para a necessidade de corrigir o caminho. "Não esquecemos que temos preocupações e por isso entendemos que um país prevenido se defende melhor perante contingências da situação internacional", disse o líder do PSD, numa versão mais suavizada 'do discurso do Diabo': o problema está na evolução da economia mundial e como isso vai afetar Portugal. "Está sempre nas nossas mãos lutar pelo futuro mesmo quando temos que prescindir de qualquer coisa no presente para alargar os horizontes do futuro", acrescentou Passos, sem conseguir retirar totalmente do seu discurso a austeridade.

"A pobreza e a precariedade laboral são as maiores inimigas de uma melhor economia"

António Costa não traçou objetivos concretos para 2017. Fez uma referência ao combate ao trabalho precário - cujas medidas serão conhecidas nos próximos meses e estão também a ser negociadas à esquerda. "Teremos melhor economia com melhores empresas e melhores empresas com melhores empregos", insistiu. No campo da legislação laboral, Costa está efetivamente entre dois polos. Por um lado, está, juntamente com PCP e BE, a tentar dar resposta para a reintegração de um conjunto de precários da administração pública, não se sabendo ainda até onde o Governo está disposto a ir. Por outro lado, fechou na semana passada a porta a quaisquer alterações ao Código Laboral de modo a reverter medidas introduzidas no tempo da troika e que os parceiros de esquerda queriam abolir. Foi um dos preços a pagar para ter os patrões a concordarem na concertação social com o aumento do salário mínimo.

"Somos a favor de uma sociedade civil forte"

O PSD considera que as políticas dos partidos de esquerda tendem a asfixiar as forças da sociedade civil. É recorrente esta preocupação, quer referindo-se às empresas ou a instituições de solidariedade social. No recente caso do corte de verbas aos colégios privados, PSD e também o CDS consideraram que se estava perante um "preconceito ideológico" da esquerda.

"Não queremos que ninguém fique para trás"

O primeiro-ministro referia-se tanto à educação como à saúde pública, áreas onde a convergência com PCP e BE é grande e as tensões são ténues, usando curiosamente uma frase que é atualmente o slogan da campanha dos Precários Inflexíveis. No campo da educação, Costa congratulou-se com os resultados dos exames nacionais, embora esta seja uma vitória em que os louros não podem ser atribuídos totalmente ao atual Governo.

"Não alinhamos na ocultação, opacidade e encenação"

Quer se trate da avaliação dos alunos, da descida do número de desempregados ou do desempenho da economia, o PSD tem vindo a alertar para manobras de propaganda do Governo. No breve discurso de Natal, que o PSD divulgou sob a forma de vídeo, Passos vincou que continuará a corrigir o Governo sempre que se justificar. A mensagem do PSD foi divulgada dois dias antes de Costa falar, mas antecipava na perfeição a satisfação do Governo com aquilo que os sociais-democratas consideram ser obra do ex-ministro da Educação, Nuno Crato.